Terça-feira, 02 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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StopKony já!

Por Roger Cohen em 20/03/2012 na edição 686

O astro pop Justin Bieber disse curto e grosso para seu exército de 18,3 milhões de seguidores no Twitter: “Muito contente por vocês estarem apoiando isso! Ele precisa ser parado! Obrigado por ajudarem a espalhar a palavra. O poder está nos números. #ParemKony.” Sim, como vocês devem saber a essa altura – a menos que vivam em outro planeta! – um vídeo de 30 minutos carregado no YouTube no dia 5 pela organização Invisible Children para arregimentar apoio para a prisão de Joseph Kony, um criminoso de guerra ugandense, tornou-se viral, com 71 milhões de vistas no YouTube.

Kony é o líder do Exército de Resistência do Senhor (LRA, na sigla em inglês), que iniciou operações no norte de Uganda há mais de duas décadas, sequestrando crianças aos milhares, transformando algumas em escravos sexuais e brutalizando a população civil. Ele encabeça a lista dos mais procurados pelo Tribunal Penal Internacional. Mas atenção para a última notícia: o botão de “retuitar” e o símbolo # estão operando com atraso de dez anos. E, em especial, ao seguinte: celebridades são repórteres lastimáveis. O LRA está em declínio já faz algum tempo, seus membros provavelmente são contados em centenas em vez das dezenas de milhares mencionadas no vídeo. Kony e seu bando minguante operam sobretudo em outros países, entre os quais a República Democrática do Congo, e a cidade um dia aterrorizada de Gulu, no norte de Uganda, está suficientemente calma para atrair investimentos.

Nada disso conteve a determinação do rapper P. Diddy. Ele mobilizou seus 6 milhões de seguidores no Twitter para a causa após ver o vídeo Kony 2012: “Prezado Joseph Kony, vou ajudar a torná-lo famoso! Nós o pararemos. #ParemKony. Todos os meus 6 milhões de seguidores retuítem agora! Por favor!”

Simplificando e distorcendo

E eles, com certeza, retuitaram. Minha filha de 14 anos foi bombardeada no Twitter e no Facebook. Ela assistiu ao vídeo, como suas amigas. Segundo cifras no Vimeo, site de compartilhamento de vídeos, 58 mil pessoas assistiram ao vídeo no dia 5/03. Foram 2,7 milhões no dia 6. No dia 7, já eram 8,2 milhões. Ao que parece, nada se tornou viral com tal velocidade como o filme sobre um conflito africano que basicamente já terminou. A verdadeira pergunta é: por quê? Outra pergunta, para pessoas do meu ramo, é por que tentar deixar as pessoas enfronhadas nos problemas mundiais em 800 palavras quando textos longos são um nicho minguante, amplamente vistos como besteira, se milhões podem ser mobilizados com 140 caracteres ou menos?

Voltando ao vídeo, feito por Jason Russell e coestrelado por seu filhinho Gavin. É uma peça poderosa. É também estarrecedor. Eis o enredo: o mau elemento chamado Kony aterroriza milhares de crianças, incluindo o ex-sequestrado astro coadjuvante Jacob Acaye (cujo irmão foi morto pelo LRA). Um mundo conectado pode parar Kony se esse mundo agir. Envie US$ 30 a Invisible Children para receber seu kit de ação #StopKony – incluindo dois braceletes!

O lado estarrecedor é a maneira como Russell usa seu lindo filhinho para defender seu ponto de vista. Jacob: bom. Kony: ruim. Situação: triste. Ele faz a criança responder perguntas e assim, de fato, transforma a todos em crianças de cinco anos aprendendo sobre a África. Russell não é um totalitário sinistro, é claro. Está simplificando e distorcendo destramente para defender um ponto válido.

“#ParemAssadnaSíria”

Este é um momento esclarecedor da internet. Todo teórico da mídia social está se manifestando, muitos deles lamentando as simplificações e distorções via internet. Pesando prós e contras, apoio Russell contra seus críticos de poltrona. Ele pôs suas botas no terreno e está fazendo alguma coisa. Simplificações grosseiras da África não são novidade. É o continente pobre, devastado por doenças, dilacerado por guerras onde cada guerra tem a ver com diamantes, certo?

Claro, o vídeo superficial e sua onda viral têm aspectos preocupantes. Como tuitou Evgeny Morozov, autor de The Net Delusion (A ilusão da internet, em tradução livre): “Devemos prestar atenção ao LRA porque Invisible Children é mais eficaz em usar a mídia social que o Exército Livre da Síria?” Não, mas ajudaria se o Exército Livre da Síria ou o Conselho Nacional Sírio soubessem usar o Twitter.

Seja como for, já escrevi minha próxima coluna: “Ele precisa ser parado. Faça alguma coisa! Todos meus 17.577 seguidores pf retuítem agora! #ParemAssadnaSíria.”

Leia também

O dilema da imprensa no drama das “crianças invisíveis” em Uganda– Carlos Castilho

***

[Roger Cohen é colunista do New York Times]

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