Segunda-feira, 25 de Maio de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Facebook: ‘nada é para sempre’

Por Nelson Vasconcelos em 01/02/2011 na edição 627

David Kirkpatrick é ex-editor de tecnologia da revista Fortune e estudioso das consequências da internet sobre a vida cotidiana. No livro O efeito Facebook – Os bastidores da história da empresa que conecta o mundo, que chega ao Brasil esta semana (Ed. Intrínseca, R$ 39,90), ele se mostra fã ardoroso da rede social criada por Mark Zuckerberg em fevereiro de 2004 e que hoje tem 600 milhões de usuários.

Nesta entrevista, Kirkpatrick conta por que considera que o Facebook merece o sucesso que tem. E garante que vai ser muito difícil que alguém – ou alguma outra empresa – consiga parar a criatura de Zuckerberg. Mas admite que ‘nada é para sempre’.

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O que (ou quem) conseguirá parar o Facebook?

David Kirkpatrick – Será difícil parar o Facebook, considerando que, quanto mais pessoas usarem-no, mais útil ele será para quem já o está usando. É o chamado efeito em rede. Além disso, o Facebook representa de longe a ferramenta de comunicação mais sofisticada da era pós-e-mail. Fundamentalmente, ele automatiza a comunicação entre as pessoas de forma sem precedentes. No entanto, nada fica no topo para sempre. Veja os súbitos desafios à contínua hegemonia da Google na web, inclusive por causa do Facebook. Parece que foi ontem que Google era o rei intocável. Agora, até a Microsoft, mesmo retardatária, está proporcionando à Google uma concorrência genuína, com seu sistema de buscas, o Bing. Em algum momento, uma nova forma de comunicação, mais conveniente e poderosa, vai provavelmente emergir, tirando do Facebook o manto da liderança. Acredito que ainda vai levar um tempo para isso. E o que o Facebook tem feito para tornar isso menos provável é que ele continua a ser rápido. Está constantemente atualizando sua tecnologia para que os outros fiquem menos propensos a oferecer uma alternativa atraente.

O Facebook teria algum inimigo poderoso?

D.K. – A Google é certamente a empresa que tem mais recursos e incentivos para atacar a posição do Facebook no mercado. Todavia, as duas empresas podem até cooperar em alguns aspectos. A Google precisa encontrar um jeito de integrar informação social aos seus resultados de busca. Vai trabalhar duro para fazer isso e tem dezenas de bilhões de dólares para gastar. Fora isso, como disse na resposta anterior, o maior risco do Facebook pode não ser alguém mais forte, mas sim uma start-up mais moderna e esperta, criada no Brasil, no Vale do Silício ou em Johannesburgo. Essas inovações podem surgir em qualquer lugar, e isso é muito saudável.

Mark Zuckerberg foi eleito pela revista Time o Homem do Ano de 2010. Você diria que ele se importa com isso?

D.K. – Não. Ele vê essas coisas como distração. Claro que ele é grato a isso, mas ele é tão confiante nele mesmo e na importância do Facebook que esse tipo de coisa nem o surpreende nem parece tão importante.

Quão sortudo é o Zuckerberg?

D.K. – A sorte certamente contou bastante no sucesso de Zuckerberg, como sempre faz em qualquer caso de sucesso tão grande. Seu timing foi excelente. Tão logo surgiram a fotografia digital e as conexões em banda larga, ele lançou o Facebook. E fazer isso em Harvard foi também sorte porque, assim, ele transmitiu um ar de exclusividade e até intelectualismo para o serviço, o que ajudou particularmente quando ele começou a crescer em outros países. Mas não se deve considerar demais a sorte quando se pensa em Zuckerberg. Ele se distingue menos pela sua sorte do que pela sua visão estratégica, seu alcance e sua autoconfiança. Zuckerberg tem sido brilhante também em identificar a sorte quando ela estava com ele.

O que você achou do livro Bilionários por acaso, de Ben Mezrich (que conta a história do Facebook na visão de quem está processando Zuckerberg, como Eduardo Saverin e os gêmeos Winklevoss)?

D.K. – É um livro cujo próprio título denuncia sua imprecisão. Se os bilhões de Zuckerberg tivessem surgido ‘por acaso’, ele nunca teria sido capaz de transformar o Facebook em uma empresa com 600 milhões de usuários em menos de sete anos. O único bilionário por acaso foi o Eduardo Saverin, o amigo brasileiro de Zuckerberg que trabalhou por cerca de nove meses no Facebook, em meio expediente, e agora vale bilhões de dólares pelo seu trabalho. O livro foi vendido como não-ficção, mas boa parte dele foi inventada. Ele se baseou exclusivamente em conversas com Saverin e não com Zuckerberg ou com qualquer pessoa que estivesse realmente empregada na companhia. Acho que vendê-lo como não-ficção foi desonesto e irresponsável por parte da (editora) Doubleday e por suas editoras em outros países. Alguns editores, em alguns países, trataram-no como obra de ficção.

E qual seu comentário sobre o filme A rede social, baseado no livro de Mezrich e que está muito bem cotado ao Oscar?

D.K. – Talvez o filme esteja um pouco mais perto da realidade do que o livro. Não houve ninguém ligado ao filme que tenha sequer encontrado o Mark Zuckerberg. Assim, como eles poderiam tê-lo retratado com precisão? Na verdade, não o fizeram. Eu digo que o filme é cerca de 40% real, ou seja, contém verdade o suficiente para perdoar você por pensar que aquilo tudo é verdade. Mas não é. A caracterização do Zuckerberg está totalmente equivocada. Ele não é agressivo nem emocionalmente carente. Ele tem senso de humor, o que o filme não mostrou. Ele criou o Facebook não para conquistar uma garota, mas para causar impacto na comunicação entre estudantes, e depois no mundo todo. Sua visão sempre foi abrangente, e sua confiança é espantosa. O Zuckerberg do filme é mostrado como agressivo e desesperado para ganhar a atenção de Erica Albright. Na verdade, essa pessoa não existiu. É uma personagem totalmente fictícia, assim como o relacionamento com ela, que forma o núcleo dramático do filme. É um filme bem divertido, muito bem escrito, mas quem encará-lo como um registro histórico é muito inocente a respeito dos verdadeiros propósitos de Hollywood. Eles simplesmente querem vender entradas de cinema. Eles não lidam com a História.

Mas ninguém é totalmente santo. Quais seriam os pecados cometidos pelo Facebook?

D.K. – O Facebook e o Zuckerberg cometeram, claramente, erros a respeito da privacidade das pessoas. Eles corretamente voltaram atrás em várias ocasiões, mas com frequência estão errados. No sentido pessoal, embora eu ache que o filme sobrevalorizou a importância dos gêmeos Winklevoss, Zuckerberg claramente abusou e até, talvez, os tenha traído nos meses anteriores ao lançamento do Thefacebook em Harvard. Ele não roubou a ideia deles, porque o site que ele lançou não era o que interessava a eles. Mas Zuckerberg realmente abusou, provavelmente mentiu para eles, tentou atrasar o projeto deles, e assim pôde lançar o seu próprio. Mas eu não acho que, na média, o Facebook seja uma empresa pecadora. Acho que, na verdade, é uma companhia criada sobre uma série surpreendente de objetivos e ideias. Essa é, provavelmente, a maior razão de ter escrito um livro sobre o Facebook, e o que o faz tão distinto e tão bem-sucedido. Essas características fizeram meu livro e meu processo de apuração surpreendentemente interessantes.

Por que você não entrevistou Eduardo Saverin ou os gêmeos Winklevoss para o seu livro?

D.K. – Tentei repetidas vezes entrevistar o Saverin, mas ele se recusou a falar comigo, alegando seu acordo com o Facebook. Os Winklevoss também estavam legalmente proibidos, embora provavelmente tivessem falado. No entanto, a posição deles foi tão periférica nos documentos legais a que tive acesso, que achei de pouco valor vê-los repetir para mim, em off, a mesma coisa. Eu conhecia seus argumentos sobre como Zuckerberg os enganou. Pesquisei profundamente a história das redes sociais. Eles não tiveram qualquer ideia original sobre rede social. Portanto, embora o livro e o filme tenham inflado a importância deles, no fim das contas eles foram personagens menores e periféricos na história do Facebook. Eduardo Saverin foi um personagem importante, mas ele não falaria.

Será que a supervalorização do Facebook, recentemente avaliado em US$ 50 bilhões, não estaria no centro de uma nova bolha especulativa na indústria pontocom? Isso não seria perigoso?

D.K. – Não. Não se trata de uma bolha. É uma nova forma de comunicação, que as pessoas estão adotando rapidamente porque proporciona serviços novos que elas julgam serem úteis em suas vidas. A única maneira de considerar uma bolha pode ser nas avaliações, o que está totalmente fora do controle do Facebook. Eu me preocupo que estejamos entrando em uma bolha quando vejo o valor de empresas muito mais novas e menos sofisticadas, como o Groupon. O Facebook vai provavelmente aumentar receita e lucros para merecer a recente avaliação de US$ 50 bilhões, feita pelo Goldman Sachs. É bem melhor se concentrar em como a aplicação de uma verdadeira transformação social norteia nosso comportamento on-line e off-line, como foi possível através do Facebook, do que se preocupar com que seja uma bolha.

Não é assustador que uma empresa privada tenha tanto controle sobre bilhões de informações particulares?

D.K. – Sim. É preocupante pensar que o Facebook tenha o controle exclusivo desse volume de informações sobre indivíduos. Por um lado, a informação foi colocada lá espontaneamente por essas pessoas. Por outro lado, ela representa um tesouro que poderia ser usado com más intenções pelas mãos erradas. Embora eu acredite que as intenções do Facebook, hoje, continuem dignas, nunca haverá uma garantia de que não haverá mudanças na sua direção ou sua política. Se alguém mais, que não o Zuckerberg, estivesse no comando, eu ficaria muito mais preocupado sobre como os dados podem ser explorados. Além disso, se a empresa se tornar aberta e Wall Street começar a pressionar, ela pode fazer coisas que não aprovamos. Minha opinião é que, em algum momento, uma nova série de proteções vai inevitavelmente ser adotada, segregando os dados pessoais no Facebook e possivelmente compartilhando seu controle com outras pessoas, não sei se em parceria com o governo ou não. Mas sei que os governos vão ficar cada vez mais interessados nisso, colocando uma pressão crescente no Facebook para se comportar de acordo com certas diretrizes, no mínimo.

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Cada qual com seu cada qual

Toda empresa gigante de tecnologia inspira muitos livros a seu respeito. Foi assim com IBM, Intel, Microsoft, Apple, Google etc. Não seria diferente com o Facebook. Lançado ano passado nos EUA, O efeito Facebook, de David Kirkpatrick, rapidamente se tornou um sucesso, principalmente porque apresenta uma espécie de defesa de Mark Zuckerberg na briga com ex-camaradas de Harvard, onde a rede nasceu. O brasileiro Eduardo Saverin, por exemplo, acusa Zuckerberg de ser injusto ao tirá-lo da empresa, enquanto os gêmeos Cameron e Tyler Winklevoss acusam-no de ter lhes roubado a própria ideia do Facebook.

O livro não deixa de ser interessante, considerando que as fontes de Kirkpatrick foram o próprio Zuckerberg e inúmeros de seus colaboradores próximos. Muito difícil, no entanto, manter certa isenção a respeito dos casos – que, entre idas e vindas na Justiça, garantiram indenizações consideradas insuficientes para os queixosos. A briga continua.

Quem também se deu bem no litígio foi Ben Mezrich, que lançou Bilionários por acaso comprando totalmente a versão de Saverin e dos gêmeos Winklevoss. O livro vendeu muito e ainda virou filme bem cotado na disputa pelo Oscar (A rede social). Apresenta a outra versão da história. Isenção tampouco é o seu forte.

A esta altura, o que importa a isenção? A prosa de Mezrich é bem mais ágil que a de Kirkpatrick. Ambas as versões podem ser agradáveis leituras de férias, quando você estiver longe do Facebook propriamente dito. Que, aliás, não está nem aí para a polêmica que causou e continua fazendo amigos mundo afora. Faturando muito. (N.V.)

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