Segunda-feira, 03 de Agosto de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Jornalistas vivem ‘primavera da liberdade’ no Egito

22/02/2011 na edição 630


Folha de S. Paulo, 19/2


Marcelo Ninio


Jornalistas vivem sua ‘primavera da liberdade’ no Egito


Quando ouviu a notícia da renúncia de Hosni Mubarak, após acompanhar de perto os 18 dias de protestos contra o ditador na praça central do Cairo, o jornalista Ayman Farouk pressentiu que aquele também era o começo de uma revolução profissional.


Funcionário há 12 anos do jornal estatal ‘Al-Ahram’, o maior do país, Farouk jamais pôde escrever uma linha sequer contra o governo.


Nos dias turbulentos na praça Tahrir, o jornalista ousou retratar fielmente a fúria contra o regime. Mas as informações que passava eram desidratadas na Redação e reduzidas a algo menor.


‘Nos primeiros dias, o jornal escondeu os protestos’, lembra Farouk. ‘Era um jornal em guerra com si mesmo e, pior, com a realidade.’


A queda de Mubarak provocou uma reviravolta na imprensa estatal, removeu as amarras da mídia privada e está redefinindo o ofício de jornalista no país.


Na primeira semana sem Mubarak em 30 anos, a imprensa egípcia viveu uma inédita primavera de liberdade. Os jornais aproveitaram para ir fundo num assunto antes proibido, a corrupção.


O primeiro sinal dos novos tempos foi na noite da renúncia, quando o ‘Al-Ahbar’ chegou às ruas com uma manchete, sem maquiagem. ‘Povo derruba o presidente.’


‘Ninguém segurou a explosão de alegria na Redação’, conta Doaa Khalifa, editora do ‘Hebdo’, suplemento em francês do diário. ‘Pela primeira vez fomos consultados sobre qual deveria ser a manchete.’


SATÉLITE


Nos últimos anos, o regime já permitira uma certa abertura na mídia. Surgiram jornais e canais de TV por satélite independentes.


Dos três jornais mais vendidos, dois são estatais, ‘Al-Ahram’ (A Pirâmide) e ‘Al-Akhbar’ (A Notícia). Ensanduichado entre os dois, está o independente ‘Al-Masry Al-Youm’ (O Egito Hoje).


Mas o alcance é limitado. Num país de 85 milhões de pessoas, a circulação global não passa de 3 milhões diários. A maior parte da população se informa pela televisão, principalmente nos canais captados por satélite.


Uma onda de satélites piratas proliferou a partir da Copa de 2006, dando a 65% dos egípcios acesso a uma variedade de canais nacionais e do exterior. Isso reduziu a influência da TV estatal.


Com a saída do ditador, a expectativa é de uma reforma nas regras do jogo. Na época de Mubarak, elas eram claras: críticas podiam até ser toleradas, mas nunca ao ditador e ao Exército.


Em 2005, Aia El-Sherbeny, do estatal ‘Rose al-Yusuf’, foi julgada por reportar indícios de superfaturamento na construção de um prédio público. Para não ser presa, pagou fiança de R$ 5.500.


Para ela, ainda vai demorar para que o país tenha uma imprensa realmente livre. ‘Ainda há uma cultura de autocensura entre muitos jornalistas, principalmente os mais velhos’, diz Aia, 29.


 


O Estado de S. Paulo, 20/2


Carolina Rossetti


Tema de Lara


A câmera da CBS ainda rodava quando a jornalista Lara Logan sumiu do enquadramento, engolida por manifestantes na Praça Tahrir, no Cairo. Era o último dos 18 dias de protesto e ela reportava, para o programa 60 Minutes, o júbilo do povo egípcio pós-renúncia de Mubarak. Correspondente internacional há 18 anos, Lara, a chamada ‘it girl’ da CBS, estava no ground zero da notícia no mais importante dia da revolução egípcia – e no pior de sua vida.


A repórter foi cercada por umas 200 pessoas e separada da equipe de filmagem. Num canto da praça, foi espancada e, segundo nota da CBS, sofreu um ‘ataque sexual brutal’, sem maiores detalhes. Um grupo de mulheres viu a cena e pediu que soldados acudissem a moça. Nada foi dito sobre os agressores – nem quantos foram, nem se estão presos.


Os detalhes são nebulosos, mas o New York Post, citando fontes internas da CBS, informou que, na hora da agressão, ouviram-se gritos de ‘judia, judia’. Lara não é judia, mas dias antes tinha sido detida pelo Exército e, num interrogatório de 16 horas, a acusaram de ser espiã de Israel. Já de volta aos Estados Unidos, na segunda-feira, 7, disse a Charlie Rose, da Public Broadcasting Service, que sentia ter falhado profissionalmente e, se pudesse entrevistar Mubarak, estaria no próximo avião de volta ao Egito. Foi o que fez na quinta-feira, 10, quando surgiu a chance de uma exclusiva com o jovem executivo sensação do Google, Wael Ghonim.


Lara Logan é do tipo jornalista-celebridade da TV americana. Assim que soube do ocorrido, o presidente Barack Obama telefonou para lhe desejar uma boa recuperação. A repórter, que em março fará 40 anos, tem longo currículo no front da notícia. Na década de 90, cobriu os atentados terroristas contra embaixadas americanas no Quênia e Tanzânia, o conflito na Irlanda do Norte e a guerra de Kosovo. Esteve também no Afeganistão, em 2001, e no Iraque – trabalho pelo qual levou o Emmy de melhor reportagem em 2006.


Lara tenta se firmar como a versão loira de olhos azuis de Christiane Amanpour, enquanto dribla comentários sobre sua vida sexual, minuciosamente acompanhada pelo jornalismo fofoca. Seu passado de modelo de biquíni tamanho 44 em Durban, na África do Sul, seu país natal, não é esquecido, e volta e meia faz pipocar ironias contra a ‘repórter manequim’, que, em entrevistas, confessou que o look Barbie às vezes atrapalha.


Não é de surpreender, portanto, que a notícia do ataque sexual gerasse todo tipo de comentário. Três vertentes predominaram. Há os que tentaram fazer da agressão a Lara uma questão religiosa, botando a culpa no fundamentalismo islâmico, que vê as ocidentais como promíscuas. Denúncias posteriores revelariam que o caso Lara não foi isolado e egípcias reunidas na Praça Tahrir para lutar pela emancipação do seu país também foram alvo de assédio sexual.


Há ainda os que culparam a própria Lara pela agressão. Nessa linha, o comentarista conservador Jim Hoft perguntou: por que essa mulher loira e atraente perambulava pela Praça Tahrir? ‘Foi sua mentalidade liberal que quase a matou. Essa repórter nunca mais será igual.’ Numa enquete da Approval Pools, 4.100 pessoas, 51% do total, acharam que a jornalista era mesmo a responsável pelo próprio martírio. Por fim, uma avalanche de críticas despencou sobre os cabeças das empresas de jornalismo, que não fariam o suficiente para assegurar a integridade de seus profissionais no fogo cruzado da notícia.


O Comitê para a Proteção aos Jornalistas, que registrou 140 agressões contra repórteres na cobertura política do Egito, também foi criticado por não trazer no seu manual de segurança um capítulo sobre abuso sexual. ‘A resposta é simples’, defendeu-se Lauren Wolfe, diretora do CPJ, ‘as repórteres não querem falar sobre isso’.


Ainda tabu na maioria das redações, a agressão sexual é estorvo comum para as correspondentes, lamenta Judith Matloff, repórter de zonas de conflito por 20 anos. Hoje professora adjunta na Universidade Colúmbia, ela reconhece que as mulheres chegaram ao topo das empresas jornalísticas, exercem as mesmas funções que os homens, são editoras de sucursais nas áreas mais perigosas do mundo, mas em um detalhe serão sempre diferentes dos garotos.


‘Eu já fui assediada, não na intensidade do que aconteceu com Lara’, disse Judith, em entrevista ao Aliás. Mas, continua ela, insultos verbais e mãos apalpando partes íntimas são obstáculos diários das correspondentes. ‘Se é estupro, as jornalistas não relatam aos seus superiores, por vergonha ou por medo de que o editor – que geralmente não sabe lidar com isso – a retire da cobertura.’


A diretora da Repórteres Sem Fronteiras em Washington, Clothilde Le Coz, concorda que é difícil tornar público o estupro. ‘Mas é ainda pior para as repórteres locais, que não têm o mesmo apoio e repercussão de uma vencedora do Emmy’.


Judith, que é do conselho do Darth Center de Jornalismo e Trauma, diz que medidas de segurança ajudam, como estar acompanhada de um homem ou evitar colares e rabos de cavalo – que podem ser agarrados com facilidade. Mas só isso não resolve, diz ela, já que muitas vezes o agressor não é um anônimo no meio de uma multidão, mas o próprio colega jornalista, o segurança ou até mesmo a fonte. ‘Os editores precisam continuar enviando as repórteres para guerra e deixar claro que elas devem relatar os abusos, estando seguras de que ainda terão seu trabalho garantido’.


 


 


O Estado de S. Paulo, 21/2


Cláudia Trevisan


Pequim faz prisões e amplia censura


Ativistas e advogados de direitos humanos foram presos ou colocados sob estrita vigilância ontem na China, ao mesmo tempo em que a polícia ocupou áreas de 13 cidades que seriam palco de protestos contra o governo convocados por mensagens que circularam na internet. Poucos manifestantes responderam ao chamado, mas a forte presença de policiais e de jornalistas estrangeiros atraiu a atenção dos que passavam no domingo em uma das principais ruas comerciais de Pequim, a Wangfujing.


As mensagens que defendiam uma ‘Revolução do Jasmim’ no país – como ficou chamado o levante na Tunísia que levou à deposição do presidente em janeiro – foram originalmente colocadas em um site em chinês nos EUA, o Boxun. No sábado, elas começaram a circular em microblogs na China e no Twitter, que apesar de bloqueado é acessível para um número cada vez maior de internautas que usam ferramentas para contornar a censura. O texto propunha que as pessoas se reunissem em centros comerciais de 13 cidades e gritassem o slogan ‘queremos comida, queremos trabalho, queremos casa, queremos justiça’.


Apesar do baixo alcance das mensagens entre a população, o governo chinês preferiu agir de maneira preventiva. O advogado Xu Zhiyong, que atua na área de direitos humanos, disse ao Estado que ficou sob vigilância policial das 10 horas às 17 horas de ontem. Xu disse que podia sair de casa, mas era seguido todo o tempo.


Cerca de 15 ativistas foram presos ou colocados sob vigilância a partir da noite de sábado. Entre os que foram detidos estava o advogado Teng Biao, que em 2008 assinou com Hu Jia o manifesto ‘A China Real e a Olimpíada’. Hu foi condenado em abril de 2008 a 3 anos e 6 meses de prisão sob a acusação de subversão. O celular de Teng estava desligado ontem e sua última mensagem no Twitter foi colocada no sábado. Os advogados Zhang Tian Yong e Tang Jitian também foram detidos.


Segundo agências internacionais, três pessoas foram presas em Pequim. Uma delas carregava flores de jasmim. Em Xangai, quatro pessoas foram detidas.


No sábado, o presidente Hu Jintao defendeu o aumento do controle sobre a internet. ‘Nosso país tem uma importante janela estratégica para o desenvolvimento, mas vive um período de aumento dos conflitos sociais.’ Para enfrentar as turbulências, o governo deve ‘aperfeiçoar a administração’ da internet e da ‘sociedade virtual’ e criar mecanismos para ‘guiar’ a opinião pública.


 


 


Folha de S. Paulo, 25/2


Fabiano Maisonnave


China bloqueia rede social para evitar organização de protestos


Preocupado em evitar manifestações inspiradas na revolta árabe, o governo chinês bloqueou na internet o acesso à rede social LinkedIn após nova convocação para protestos, agora semanais.


A ação é parte de um cerco oficial maior iniciado nas últimas semanas, à medida que os protestos se alastravam por países árabes.


Aparentemente, a maior preocupação no momento é evitar qualquer propagação da convocação de protestos como o do último domingo em 13 cidades chinesas. O resultado foi um fracasso, com pequenas concentrações apenas em Pequim e Xangai.


Na terça, uma nova convocação apareceu no popular site boxun.com, escrito em mandarim, mas baseado nos EUA, exortando a população a ir todos os domingos às 14h nos mesmos locais marcados para o último fim de semana.


O texto defende mais independência do Judiciário, combate à corrupção e abertura política. ‘Os chineses dependem de si mesmos para lutar por seus direitos. Não devemos sequer sonhar que um regime autoritário tome a iniciativa de concedê-los.’


Em reação, o governo endureceu nos últimos dias o tratamento dos ativistas políticos. Grupos de direitos humanos afirmam que cerca de cem críticos do governo estão em prisão domiciliar ou foram levados pela polícia.


Porta-vozes do governo chinês têm demonstrado publicamente preocupação com o risco de protestos. Em entrevista nesta semana, Chen Jiping, dirigente do Partido Comunista, disse que a China enfrenta um difícil momento interno por causa de ‘forças hostis ocidentais’.


O país também bloqueou buscas na internet com o nome do embaixador americano em Pequim, Jon Huntsman. No domingo, ele foi visto em um dos locais de protesto, diante de um McDonald’s na capital chinesa.


Huntsman disse que estava só de passagem pelo local e parou por curiosidade.

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