Domingo, 31 de Maio de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Mídia social faz do Egito janela para jovens

15/02/2011 na edição 629


Folha de S. Paulo, 15/2


Luciana Coelho


Mídia social faz do Egito janela para jovens


Se havia dúvidas sobre o papel das mídias sociais nos movimentos populares recentes, os protestos que culminaram na queda do ditador Hosni Mubarak no Egito as dissiparam. Sobrou apenas a questão da dimensão. ‘Não dá para adivinhar o que vai acontecer daqui para frente, mas há dezenas de milhões de jovens no mundo árabe prestando muita atenção ao que acaba de ocorrer no Egito’, diz Andy Carvin. Estrategista-sênior para mídias sociais na NPR, a respeitada rede pública de rádio americana, Carvin organiza comunidades on-line há mais de uma década. Durante a revolta, ativou contatos no Egito e tuitou 18 dias sem parar, atuando como editor-curador do noticiário -viesse ele de jornalistas ou ativistas, Carvin impôs um padrão de qualidade. A Folha conversou com Carvin por e-mail sobre ativismo, redes sociais, jornalismo e as formas como os três se interligaram no Egito.


Folha – Quão cruciais foram as redes sociais no Egito?


Andy Carvin – Não há dúvida de que tiveram um papel. Há anos existe um grupo de blogueiros dissidentes, tanto dentro quanto fora do Egito, que se comunica e comunica ao mundo seu desejo de mudança. Eles também usam o Facebook e o Twitter para atrair mais gente.


Claro, em última análise, a ação teve que acontecer no mundo real -protestos, ocupações-, mas parte dessas atividades foi organizada e difundida por mídias sociais.


O jornalista Malcolm Gladwell argumenta que as redes sociais não criam movimentos sozinhas se as condições para isso não existirem em campo. Afinal, elas são catalisadores ou detonadores?


Por centenas de anos, as revoluções usaram as ferramentas que tinham à mão para avançar. É esquisito argumentar que manifestantes não usariam a mídia social, que é a ferramenta de hoje.


Uma crítica ao Twitter é que muita gente fala e ninguém ouve. O assunto Egito dominou a rede por três semanas. O interesse o surpreendeu?


Passei quatro anos no Twitter cultivando fontes, interagindo com pessoas. Não estou surpreso. A diferença, desta vez, é que muita gente que eu retuitava estava envolvida na revolução. Virei um curador de informações.


Como foi lidar com essa quantidade de informação?


Sigo vários veículos de imprensa, e na maior parte do tempo estava com Al Jazeera ou CNN ligadas. Montei minhas listas de jornalistas no Egito, especialistas em Oriente Médio, ativistas etc., além de monitorar vídeos no YouTube e no Facebook.


Eu conhecia vários dos manifestantes egípcios havia anos, sabia que podia confiar neles. Em muitos casos, as pessoas em campo eram mais confiáveis do que os veículos, mas isso é anormal numa situação tão fluida.


Também pedi para citarem a fonte da informação. Ajudou a separar fato de boato.


Como você vê a interação entre jornalismo e Twitter?


A Al Jazeera tinha meia dúzia de jornalistas tuitando, e segui-los foi bem útil naqueles dias. A CNN, a ABC, a NBC [redes de TV americanas] e a NPR também tinham gente tuitando, embora menos. Muitos estavam usando o Twitter como ferramenta para reportagem; outros, para encontrar as pessoas dentro de seu processo de apuração.


Apesar de censuras e prisões, o Egito mostrou ter uma comunidade vibrante on-line. O que tornou isso possível?


Acesso à internet e um grupo de pessoas mais educadas e familiarizadas com tecnologia, que estava cheia desse regime havia muito tempo.


Que semelhanças essa comunidade tem com outras?


O Egito parece ser o país [da região] com a cultura de blogs políticos mais forte. Muito semelhante à Tunísia, mas em escala bem maior. Acho que isso fez diferença.


 


 


Agência Carta Maior, 15/2


Francisco Carlos Teixeira


O Faraó, camelos e o Facebook


Os cientistas e acadêmicos ocidentais, seguidos apressadamente pela mídia, sempre declararam a inexistência de uma ‘opinião pública’ no Mundo Árabe. Mesmo no Egito, onde uma poderosa elite e uma importante classe média bem educada, falante de inglês, possuem raízes profundas, era negada qualquer possibilidade de existência de uma ‘sociedade civil’.


Berlim. Os últimos acontecimentos no Egito, em especial os últimos 18 dias entre 25 de janeiro e 11 de fevereiro colocam por terra algumas teses tradicionais das ciências políticas e da percepção política e social do Mundo Árabe pela opinião pública ocidental. A tese, velha da Guerra Fria, sobre a pretensa ‘excepcionalidade árabe’, da sua incapacidade para a democracia e, portanto, a aceitação alegre, pelo Ocidente, de todo tipo de ditadura pós-colonial (claro, sendo pró–ocidental). Da mesma forma, a crença na inexistência de uma opinião pública no mundo árabe, explicaria a ausência de democracia. Ambas as teses devem, agora, ser severamente revistas.


O Egito de Hosni Mubarak


O Egito é um país central para o mundo árabe, para os muçulmanos em geral e para o equilíbrio no Oriente Médio e no Mediterrâneo. Os últimos dados confiáveis – já que o censo demográfico, e conseqüentemente o acesso à condição de eleitor, é um dado secreto, só sabido pelas forças de segurança – dão ao país pouco mais de 80 milhões de habitantes, extremamente concentrados no Cairo e na longa e estreita faixa fértil ao longo do Nilo. Isso faz do Egito o país árabe mais populoso do mundo (o país muçulmano mais populoso é a Indonésia, logo seguida do Paquistão, países não-árabes). Ao mesmo tempo a população egípcia é extremamente jovem. Cerca de 33% de todos os egípcios possuem menos 15 anos de idade e a média nacional de idade é de 24 anos.


Temos aqui um primeiro dado que ilumina profundamente a revolta, e a conseqüente revolução, no país: a extrema juventude da população, a maioria nascida quando Mubarak já era o raís – o líder e chefe – do Egito. Estes jovens não são contemporâneos da Guerra dos Seis Dias, em 1967, e da Guerra do Yom Kippur, de 1973, nas quais Hosni Mubarak conquistou suma fama de defensor da pátria. É em verdade uma juventude marcada pela presença da globalização, dos meios eletrônicos e da busca de uma boa carreira profissional e um padrão de vida melhor (a média salarial egípcia está em torno de 100 euros mensais).


Contudo as vantagens param por aí: apenas 71% desta imensa população é alfabetizada, sendo que entre as mulheres apenas 59% delas podem ler e escrever. Tal restrição não decorre, como rapidamente poder-se-ia dizer no Ocidente, do Islã. Muitas mulheres egípcias ocupam postos importantes na universidade, nos hospitais e nas escolas. Trata-se, em verdade, de deficiência do regime.


As reformas falhadas


A economia egípcia depende de uma agricultura tradicional, centrada na produção de algodão, arroz, trigo aos quais se soma a indústria têxtil e a exploração do petróleo, apenas relevante. Contudo o turismo e os direitos decorrentes do trânsito do Canal de Suez geram grande parte da riqueza do país e o fato de serem atividades diretamente controladas pelo Estado são, também, fontes da ampla corrupção e do enriquecimento ilícito da elite mantida pelo regime de Mubarak.


Mubarak buscou, desde a crise de 2008, ‘abrir’ o país aos investimentos e aos capitais estrangeiros, nomeando um ministério de tecnocratas altamente influenciados por um impiedoso neoliberalismo tardio. Os resultados foram catastróficos. O deficit público atingiu 8% do PIB e o desemprego espraiou-se por toda a população, atingido quase 10% da população ativa do país, enquanto a inflação saltava para 12% ao ano. Assim, somava-se à ausência de democracia e a imposição do espetáculo da corrupção das elites, a pobreza crescente das populações. Não é de estranhar que o primeiro egípcio a se imolar contra o regime Mubarak fosse um desempregado.


O Egito é, ainda, um dos mais importantes parceiros na ‘ajuda’ militar dos Estados Unidos, logo abaixo de Israel e pouco antes da Colômbia. A grande parceria entre Estados Unidos e Egito emergiu quando Anwar Al-Sadat (o sucessor de Gamal Abdel Nasser e que governou entre 1970 e 1981) rompeu as tradicionais relações com a então URSS, em 1972, expulsou milhares técnicos e militares russos, e voltou-se para o Ocidente. Em troca de uma política externa ‘aceitável’ para o Ocidente – ou seja, garantia de segurança para Israel, manutenção da liberdade de navegação no Canal de Suez e fechamento do acesso aos palestinos na região de Gaza – os EUA mantêm as FFAA do país em alto nível de desempenho e com o equipamento necessário para dar aos militares egípcios o sentimento de superioridade e segurança no Mundo Árabe.


A elite militar


O país, contudo, gasta 3.4% do seu PIB de U$ 500 bilhões com os militares, que formaram ao longo dos trinta anos de regime Mubarak (1981-2011), uma elite muito acima dos níveis sociais do conjunto da nação. O próprio marechal Mohamed Hussein Tantawi, de 75 anos, que acumulava o ministério da defesa e a chefia das FFAA e agora é o chefe do Conselho Supremo que governa o Egito pós-Mubarak, é parte desta elite gerada sob o regime e que se comportou ao longo dos últimos trinta anos como garantidor do regime.


Mas, a burocracia estatal, em grande parte oriunda do Partido Nacional Democrático (de Mubarak), mereceu bem mais críticas do que as FFAA. O alistamento militar massivo, como uma alternativa para jovens rapazes mal preparados e sem esperanças no mundo profissional, além das histórias de heroísmo na Guerra do Yom Kippur, garantiram grande popularidade aos militares.


A decisão de não reprimir a população revoltada na Praça da Libertação – na verdade uma tarefa transferida para a polícia e os paramilitares – nos dias mais duros da revolta consolidou a popularidades das FFAA. Contudo, o regime inaugurado dia 11 de fevereiro é, em verdade, uma brutal ditadura militar, onde o Conselho Supremo Militar governa por decretos inapeláveis.


A esperança de uma transição pacífica para a democracia é, contudo, real e concreta. A proclamação do Conselho Supremo Militar promete ‘eleições livres, novo marco constitucional e políticas de ajuda e assistência social para a população’.


O marechal Tantawi (ao lado do chefe dos serviços secretos Omar Suleiman, o vice-presidente nomeado por Mubarak no auge da crise), de 75 anos, o homem forte do novo regime, possui um longo histórico de negociações com os americanos e os israelenses, servindo de garante para o status quo pós-1973 (ano da Guerra do Yom Kippur). Não sem motivos, Tantawi fez contato, logo após assumir o poder no Cairo, com Ehud Barak, ministro da defesa de Israel, para garantir – ao contrário do sentimento popular, claramente pro-palestinos, que nada mudaria na política externa e de defesa do Egito.


A cólera das ruas


Os cientistas e acadêmicos ocidentais, seguidos apressadamente pela mídia, sempre declararam a inexistência de uma ‘opinião pública’ no Mundo Árabe. Mesmo no Egito, onde uma poderosa elite e uma importante classe média bem educada, falante de inglês, possuem raízes profundas, era negada qualquer possibilidade de existência de uma ‘sociedade civil’.


Claro, que o olhar dirigido pelo Ocidente ao Mundo Árabe era (e ainda é) baseado na sua própria história, nas experiências vividas nas margens do Atlântico Norte, tais como a Revolução Americana (1776) e a Revolução Francesa (1789). Em face do fato de que a história do Egito (bem como da Índia ou da China) não possuírem experiências similares, concluía-se pela impossibilidade da democracia implantar-se nos antigos países ‘coloniais’.


Assim, o Egito (e os demais países não-europeus) estaria condenado a viver regimes autoritários, a única forma de garantir a ordem e o progresso em face de massas atrasadas e, normalmente, fanatizadas pelo Islã ou outra religião não cristã.


Assim, o próprio conceito de ‘opinião pública’ foi, para os analistas ocidentais, substituído pela idéia de ‘rua árabe’. Apenas a rua, as praças e o bazar seriam locais de reunião e de troca de opinião, em substituição precária e esporádica da noção ocidental de ‘opinião pública’. A ‘rua árabe’ funcionava ora como espaço amedrontado do murmúrio, ora como o local de explosões violentas e sem direção. As redes tradicionais de sociabilidade árabes – como as mesquitas, os cafés e a ampla rede de instituições de ensino e, no caso egípcio, a Universidade de Al-Azhar, além da sociabilidade profunda nos locais de trabalho – nunca mereceram a necessária apreciação. Assim, criava-se a noção de uma ‘excepcionalidade árabe’, uma espécie de beco sem saída político, onde a escolha seria entre regimes autoritários capazes de controlar a multidão feroz ou o caos fanatizado das massas.


Camelos e Facebooks


O processo em curso no Egito – depois da experiência na Tunísia – mostra outra realidade, mais complexa e nuançada, onde a ciência política ocidental, e a percepção leiga, não foram capazes de entender os elementos constitutivos mais importantes.


Não só a população urbana dos grandes centros mostrou-se capaz de ampla mobilização – foi assim em Túnis, no Cairo ou Alexandria e aponta para ser em Argel e em Sanaa – como ainda foi capaz de fazê-lo sem apelo à violência endêmica e a xenofobia ou, o que se dizia acontecer, cair em mãos do islamismo radical. A surpresa adveio, assim, do conhecimento superficial do Mundo Árabe e, ao mesmo tempo, dos preconceitos ocidentais.


De forma muito apressada, a mídia ocidental – saturada de sua própria tecnologia e idolatrando produções como ‘Rede Social’ – denominou o movimento de rebeldia como uma ‘Facebook Revolution’, dada a relevância, concreta, dos meios eletrônicos na dispersão das ideias de revolta. Ainda aqui, mais uma vez, as redes tradicionais de sociabilidade árabes, as formas de comunicação diárias nas escolas, mesquitas, nos cafés e no trabalho, são ignoradas em favor de uma percepção tecnologizante e ocidentalizada.


A piada do ‘Le Monde’ mostrando um Mubarak atento à explicação do que é Facebook pelo seu camelo no caminho do exílio para Sharm el-Sheik é boa, mas é só uma piada.


As revoluções sempre ocorreram na história onde a repressão política e o mal-estar econômico e social perduraram sobre as populações. A revolução Russa (1917) ou a longa Revolução Chinesa (até 1949), bem como a Luta pelas Diretas Já, na redemocratização do Brasil, por exemplo, não foram produtos – e nem o poderiam ser – da Internet (ou mesmo do rádio ou da televisão). Havia, ontem como hoje, redes de sociabilização do protesto e da resistência, e a Internet pode ser um ótimo meio para a divulgação de novas (e velhas) ideias. Mas, a Internet não pode ser considerada a causa das revoluções.


Estaríamos, neste caso, em face de um novo preconceito, agora explicando a história das revoluções através de tecnologias recentíssimas. Seria apenas mais uma forma de etnocentrismo.


Uma revolução moderna


Um outro preconceito aceito sem debates no Ocidente é a certeza que os movimentos sociais no Mundo Árabe, quando movimentos de massa, são sempre islâmicos radicais. O que vemos hoje – apesar do claro processo de re-islamização das sociedades árabes pós-coloniais – é uma explosão de ideais e projetos de futuro em busca de uma vida melhor, adequando islamismo e bem-estar social. A ‘onda islamizante’ já passou. Os jovens que protestam no Cairo são irmãos daqueles que protestam em terão contra a ditadura dos aiatolás.


A geração islamistas radical não está no Cairo e sim em Kandahar.


É bem verdade que tais preconceitos são sempre favoráveis aos interesses ocidentais. A crença arraigada na impossibilidade de uma democracia árabe, ou muçulmana, servia à perfeição para justificar o apoio ocidental aos regimes repressivos mais cruéis e abusivos existentes no mundo em face de um hipotético risco de ascensão do caos e fanatismo. Assim, a Europa comunitária (CE), pretensa pátria da democracia, manteve até bem tarde calada em face das revoluções em Túnis e no Cairo. Em Munique, na reunião anual sobre segurança e defesa, o chefe da OTAN – a aliança militar ocidental – apontou para as mudanças políticas no Mediterrâneo como a causa imperiosa para o aumento dos gastos militares.


Por sua vez, Israel – ‘a única democracia do Oriente Médio’ – não só lamentou a revolta egípcia, como ainda desenvolveu sérias gestões junto a Washington visando demover o Presidente Obama em seu apoio aos militantes da Praça da Libertação no Cairo. Para o premier Netaniahu a segurança de Israel não se adéqua com a democracia no Oriente Médio.


Os espetaculares acontecimentos em Túnis e no Cairo abrem caminho para o debate série e não mais eivado de etnocentrismo sobre os diversos caminhos, autônomos, em direção a uma democracia sólida e humanitária. A preeminência ocidental, a modelagem única baseada na história desta pequena e hoje cada vez mais pobre península da Eurásia, não seria mais modelo obrigatório para todos.


A conciliação entre Islã e democracia, lançando por terra prateleiras inteiras de ‘saber ocidental’, encontra-se hoje, no Cairo, com seu próprio destino. Conforme a proclamação do Conselho Supremo do Egito busca-se a construção de um sistema ‘em que a liberdade do ser humano, o império da lei, a fé no valor da igualdade, a democracia plural, a justiça social e a erradicação da corrupção constituam as bases da legitimidade de qualquer sistema de governo que dirija o país’.


Palavras. Mas, são palavras que vieram de 18 dias de revolta e luta e custaram até o momento 300 mortos.


Professor Visitante da Universidade Técnica de Berlim.


 


 


Carta Capital, 9/2


Felipe Marra Mendonça


Por via das dúvidasO poder da internet nos correntes protestos no Egito e na recente insurreição na Tunísia ainda não pode ser efetivamente qualificado, mas é certo que ela teve algum papel nos acontecimentos. Entre os comentários feitos por diplomatas americanos e divulgados pelo WikiLeaks estavam relatos de um governo ‘corrupto’, ‘odiado’ e ‘esclerótico’. A divulgação foi parte do impulso para o começo dos protestos que culminaram com a queda do ex-presidente Ben Ali na sexta-feira 14.


No Egito, a influência da internet foi considerada tão nociva pelo regime de Hosni Mubarak que o governo decidiu simplesmente fechar as conexões dos provedores locais com o resto do mundo no dia 28, assim como as redes de telefonia celular. Isso evitaria qualquer tentativa de organização de protestos via redes sociais ou a divulgação de instruções por mensagens de texto ou mesmo ligações entre cidadãos. É difícil apontar o estopim virtual dos protestos egípcios, embora a influência tunisiana seja clara. Um dos pontos de partida teria sido um vídeo feito por Asmaa Mahfouz, uma egípcia de 28 anos, que circulou no YouTube (http://www.youtube.com/watch?v=SgjIgMdsEuk) e depois foi compartilhado no Facebook.


A fala de Asmaa é emocionante. Ela faz um depoimento sobre um primeiro protesto fracassado, em que foi acossada por agentes da polícia egípcia, e depois conclama seus conterrâneos a deixarem de lado o medo para protestar contra o governo. ‘Aos que dizem que as mulheres não deveriam ir protestar porque serão surradas, que tenham alguma honra, sejam homens e me acompanhem no dia 25 de janeiro.’


Ela também critica os que só acompanham os acontecimentos com a distância segura da mídia e da internet. ‘Sentar em casa e acompanhar as notícias pela mídia ou pelo Facebook leva à nossa humilhação. Leva à minha humilhação. Se você tiver honra e dignidade como um homem, venha e me proteja, a mim e às outras meninas no protesto. Se ficar em casa, merecerá o que acontecer com você, e será culpado perante a sua nação e seus conterrâneos. E será culpado pelo que acontecer conosco nas ruas enquanto você fica em casa. Vá para as ruas, envie mensagens de texto, faça com que as pessoas saibam do movimento.’


E as pessoas souberam e apoiaram, como visto nos últimos dias no Egito. As repercussões agora abrangem a Argélia, a Jordânia e o Iêmen, mas muitos se perguntam se um movimento semelhante poderia suscitar na China. Por via das dúvidas, as autoridades chinesas tomaram medidas para evitar uma disseminação dos eventos, com medo de que eles pudessem inspirar a população local. O sinal foi dado por um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês na sexta 28 de janeiro, quando disse que o governo chinês apoiava as autoridades egípcias e seus esforços para manter a estabilidade social. O termo ‘Egito’ foi bloqueado das ferramentas de busca na maioria das redes sociais chinesas e os meios de comunicação receberam instruções para moderar a cobertura do que acontecia no exterior. Mais do que uma plataforma de comunicações, a internet se tornou uma ameaça aos regimes autoritários.


 


 


 


O Estado de S. Paulo, 14/2


Ned Parker


Jovens ativistas e a ‘revolução 2.0’


Se revoluções anteriores nasceram em mesquitas e cafés esfumaçados do mundo árabe, esta foi o produto de idealistas que levaram ao Egito a cultura da internet


Eles chamaram a si mesmos de ‘revolucionários 2.0’. Eram cineastas, ativistas políticos e jovens entendidos em computadores – homens na casa dos 20 ou 30 anos que passaram a representar a arredia e informatizada juventude egípcia. Numa sala de estar no Cairo, esperavam notícias do levante que ajudaram a fomentar.


Tinham sido surpreendidos pelo discurso de Hosni Mubarak na noite anterior. Mesmo com a vitória parecendo tão próxima, o ditador anunciou que não deixaria o poder. Agora, no fim da tarde de sexta feira, se reuniam perto da televisão, sem tirar as mãos dos laptops. Parecia que outro discurso seria feito.


‘Estamos vendo uma revolução sem paralelo na história. Ela tem dois lados’, disse Khalid El-Baramawy, de 33 anos, editor do masrawy.com, popular site de notícias que se dedica à cobertura de casos de corrupção e violência policial. ‘O lado ruim é o fato de não podermos controlá-la. Não sabemos o que está ocorrendo do outro lado da rua.’ Do ponto de vista positivo, disse ele, ‘Mubarak não sabe como lidar conosco’.


No grupo estava Wael Ghonim, o esguio jovem executivo do Google que ajudou a organizar os protestos por meio de uma página do Facebook que atraiu mais de 70 mil seguidores. A recente detenção de Ghonim nas mãos das forças de segurança o transformou num poderoso símbolo da oposição. Também estava Ahmed Maher, de 28 anos, engenheiro e organizador de protestos que atua na oposição egípcia desde 2002, suportando repetidas prisões. E Ahmed Salama, cineasta. Todos eram produto de um Egito que abriu suas portas ao comércio ocidental e à cultura da internet, trazendo imensas novidades para a atuação destas pessoas.


Todos pararam de digitar e se voltaram para a TV. A declaração do vice-presidente Omar Suleiman foi sucinta: Mubarak entregaria o poder às forças armadas. Eles pularam de suas cadeiras aos gritos de ‘Viva o Egito’.


Se revoluções anteriores nasceram em mesquitas e cafés esfumaçados, esta nasceu online. Ao menos foi esta a sedutora narrativa adotada pelos jovens ativistas. Já existe um debate considerável quanto à real influência de sites como Facebook e Twitter na rebelião. O mais célebre dos céticos, Malcom Gladwell, da New Yorker, disse que tais formas de comunicação online não afetaram a natureza da revolução. ‘As pessoas organizavam manifestações e derrubavam governos muito antes da invenção do Facebook’, escreveu ele na semana passada.


Mas outros argumentaram que a tecnologia amplificou a mensagem dos manifestantes, ajudando a reunir o apoio internacional em torno de sua causa. Ghonim conheceu Maher em abril durante um comício de Mohamed ElBaradei, político da oposição, ex-diplomata da ONU e ganhador do Prêmio Nobel. Por dois meses o grupo se reuniu uma vez por semana. A página que criaram no Facebook atraiu mais de 70 mil pessoas e serviu de ferramenta para o lançamento dos protesto na Praça Tahrir, no dia 25.


com tradução de Augusto Calil.

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