Sábado, 08 de Agosto de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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ENTRE ASPAS >

Miriam Leitão

03/11/2005 na edição 353


‘Os jornalistas fizeram perguntas ao presidente Lula sobre Cuba. Lula achou um absurdo que eles não se ativessem à Jamaica, que ele, Lula, considerava ser o assunto oportuno no momento. Chamou os repórteres de mal-educados. Depois eles foram repreendidos por um assessor que disse que o presidente considerava ‘inaceitável’ o comportamento dos jornalistas.


Inaceitável é o comportamento do presidente e do governo dele. Deu apenas uma entrevista coletiva durante três anos, tentou expulsar um jornalista americano, tentou aprovar um conselho para censurar a imprensa e uma agência para ameaçar os meios de comunicação, concedeu uma entrevista com cara de coisa arranjada em Paris, seu então ministro das Comunicações, Luiz Gushiken, disse que jornalistas têm de dar notícias otimistas, multiplicou as publicações e órgãos oficiais, transformou a Agência Nacional em centro de propaganda e demonstra por atos e palavras que não entendeu até agora por que os governantes devem falar com os jornalistas.


Governantes não falam com a imprensa porque gostam dos jornalistas. É aceitável que o presidente Lula não goste. Falar com jornalistas é um dos meios de prestação de contas à sociedade. O governo Lula já pode ser considerado o mais autoritário do período democrático no trato com a imprensa. E disputa cabeça a cabeça com alguns do regime militar.


O presidente João Figueiredo não gostava de jornalistas, em particular, e do povo, em geral – tinha preferência por cavalos – mas sempre respondia a perguntas quando abordado em solenidades do Itamaraty e em viagens internacionais. Na falta de uma rotina democrática de entrevistas, essas abordagens, anárquicas, eram a única forma de entrevistá-lo. Participei de várias dessas entrevistas arrancadas pelos nossos maus modos. Uma das vezes, no Paraguai, tive os documentos retidos pela polícia de Stroessner, que achara meu comportamento, de abordar o presidente Figueiredo, inaceitável. O ex-ministro da Comunicação Social Said Faraht resgatou meus documentos e a noção do que era aceitável ou não.


Tim Padgett, outro dos vencedores deste ano do prêmio Maria Moors Cabot, da revista ‘Time’, num dos debates em Nova York, disse que tem mais facilidade de falar com Hugo Chávez do que com as autoridades petistas.


– Lula não dá entrevista. Na época de (Fernando Henrique) Cardoso, tínhamos mais informação, mas com Lula no governo somos tratados como gringos dos quais querem distância. A ironia é que quando estavam na oposição eram bem acessíveis.


Numa reunião no ‘New York Times’, ouvi referência ao episódio da quase expulsão do correspondente Larry Rohter, como exemplo da dificuldade de atuar na América Latina. Lembrei que essa estranha idéia fora do presidente Lula e dos seus assessores de imprensa, mas que a sociedade brasileira e os jornalistas haviam reagido instantaneamente contra o ato autoritário, forçando o governo a recuar.


Liberdade de imprensa é algo a ser conquistado e ampliado sempre. É uma longa caminhada, onde às vezes ocorrem retrocessos. No ranking do Repórteres Sem Fronteiras, os Estados Unidos caíram vinte pontos, para o 44 lugar, por causa da prisão da jornalista Judith Miller e iniciativas do governo Bush para pressionar jornalistas a evitar coisas como as fotos dos mortos no Iraque. No Canadá também ocorreram pressões judiciais contra jornalistas para que eles divulguem suas fontes, e o país também caiu para o 21 lugar. O temor é que isso inaugure uma era de destruição da prerrogativa do jornalista de manter reservada a identidade das fontes. O direito inclui o dever do jornalista de evitar a manipulação, como a que ocorreu com alguns jornalistas americanos em relação à suposta existência de armas de destruição em massa no Iraque. O Brasil está no 63 posto – também caiu no último ano. Classificações mundiais são sempre bem discutíveis, mas a do Repórteres Sem Fronteiras é feita por 14 instituições de defesa da liberdade de imprensa, que usam informações de 130 correspondentes no mundo inteiro.


No Brasil, há muitas ameaças, além das diversas insinuações autoritárias do governo, à liberdade da imprensa regional, por parte dos grupos de interesse e econômicos locais. O repórter paraense Lúcio Flávio Pinto foi um dos escolhidos este ano para o prêmio International Press Freedom do Committee to Protect Journalists em Nova York, no próximo dia 22. Lúcio Flávio não pode viajar para receber porque está respondendo a 18 processos. A maioria movida pela família Maiorana – ele foi vítima até de agressão física por parte de Ronaldo Maiorana – e outro processo de Cecílio Rego de Almeida, que alega ser dono de uma extensa área na Terra do Meio. O Brasil vai fazer um papelão no Waldorf Astoria, diante da imprensa internacional, se Lúcio Flávio for impedido de ir.


Há muito ainda o que caminhar no Brasil. Nessa caminhada, jornalistas, por vezes, serão considerados mal-educados por governantes que preferem os amestrados. O grande risco é o governante sem a devida educação institucional. Uma jornalista francesa, Adèle Toussaint-Samson, que viveu alguns anos no Brasil no século XIX, publicou suas impressões, em capítulos, no ‘Figaro’. Alguns brasileiros acharam os textos inaceitáveis e pediram a D. Pedro II que pressionasse o jornal. Ele se negou a fazer isso e explicou que ‘os povos, como os indivíduos, não podem julgar a si próprios’. Um governante educado!’



DEMOCRACIA PARTICIPATIVA


Luiz Weis


‘Consultas populares, por que e para quê ‘, copyright O Estado de S. Paulo, 2/11/05


‘Apenas uma parcela mínima dos leitores de jornais e revistas consegue ver publicados os seus comentários sobre os fatos e o modo como são noticiados, analisados e julgados. Já na Internet, sem as limitações de espaço da mídia impressa, todos, a começar de quem noticia, analisa e julga, podem saber o pensam todos aqueles que tomaram a iniciativa de se manifestar. E haja manifestações quando o tema é quente!


No dia seguinte ao do referendo, este jornalista publicou no blog Verbo Solto o texto Vitória do não gera surto de plebiscitismo, sobre as propostas de outras consultas, apresentadas assim que saiu o resultado sobre o desarmamento. O texto recebeu 330 comentários – um recorde no blog para um único artigo. O que se segue é uma amostra de 33 deles, que procurou ser fiel ao conjunto. Se este expressa as opiniões gerais, só uma pesquisa poderia dizer.


Em todo caso, alguma utilidade há de ter o compartilhamento dessas mensagens. Artigos de especialistas sobre o assunto, os jornais publicaram vários. No entanto, muito pouco se sabe, mais uma vez, do que vai pela cabeça do público. A maioria das contribuições, por razões de espaço e clareza, foi editada. A elas:


M., engenheira, Vitória: ‘O Brasil possui uma minoria moral que inconscientemente usa a máxima do Pelé – brasileiro não sabe votar. E só acha válido o que agrada às esquerdas.’


M., professor, Patos (PB): ‘A população não está preparada para certas decisões.’


R., advogado, Belo Horizonte: ‘Espero que não se torne uma constante a ocorrência de plebiscitos/referendos, por seus custos e pelo nível dos questionamentos.’


S., psicanalista, São Paulo: ‘Referendo, sim, mas sem voto obrigatório. Aí eu quero ver.’


E., almoxarife, cidade não informada: ‘Referendos não devem se tornar uma coisa banal, só para responsabilizar o povo pelas decisões.’


M., funcionário público, Carlos Chagas (MG): ‘Plebiscitos e referendos, apenas em casos extremos.’


J., aposentado, Brasília: ‘A palavra plebiscito vem de plebe. É isso mesmo: os menos esclarecidos não entendem do que se trata, votam no que mandam as frentes.’


E., aposentado, Rio de Janeiro: ‘Afinal que medo é esse do povo? A sabedoria do povo está acima de qualquer preconceito.’


P., advogada, Brasília: ‘Iniciativa popular, plebiscito e referendo exigem amplo esclarecimento da população, o que agora não ocorreu.’


F., administrador de empresas, Campo Grande: ‘Nosso país precisa que as leis sejam cumpridas. Não de novas invenções.’


F., assalariado, Jaboatão dos Guararapes (PE): ‘Somos nós, povo, que sofremos com as conseqüências. Deixem-nos então participar para decidir o que é melhor para nós.’


A., assistente administrativa, Recife: ‘Quando mudaram a lei que tratava de um assunto do interesse do trabalhador, a aposentadoria, não realizaram plebiscito.’


H., advogado, Belo Horizonte: ‘Plebiscitos e referendos são extremamente necessários, em face de um Congresso Nacional analfabeto e inoperante.’


S., funcionário público, Campinas (SP): ‘Não precisamos de vereadores, deputados ou senadores. Podemos resolver tudo por referendo, pois eles não querem assumir nada.’


B., supervisor patrimonial, Ipojuca (PE): ‘Acredito que poderíamos legislar por referendo e plebiscito em vez de manter o Congresso Nacional na ativa.’


J., militar, Florianópolis: ‘É preciso um referendo para o povo decidir sobre as regalias dos políticos.’


R., músico, Belo Horizonte: ‘Deveríamos estabelecer o salário dos políticos.’


J., corretor de café, Santos (SP): ‘Referendo, sim, para transformar o crime de enriquecimento ilícito em crime hediondo e inafiançável.’


E., economista, Brasília: ‘Perguntem ao povo quanto deve ser aplicado do PIB em educação e ele prontamente responderá.’


C., biólogo, Rio de Janeiro: ‘Gostaria de votar sobre questões muito mais relevantes: prioridade máxima à educação pelos próximos 40 anos, com verba carimbada de 10% do PIB.’


A., vigilante, Aracaju: ‘O povo também gostaria de decidir outras situações, mas os governantes não nos dão esse direito.’


M., educadora, Ururá (PA): ‘Por que não somos consultados sobre a obrigatoriedade da gestão participativa?’


M., engenheiro, Belo Horizonte: ‘Sim a plebiscitos para o voto distrital e para extinguir municípios que só esvaziam os cofres públicos.’


C., estudante, São Paulo: ‘Deveríamos ter outros referendos, para decidir se os deputados podem renunciar para não serem cassados ou se queremos penas maiores para os bandidos.’


L., corretor, Belo Horizonte: ‘Por que não um referendo para a pena de morte?’


J., funcionário público, Machadinho do Oeste (RO): ‘Plebiscito para a pena de morte, não; para diminuir a idade penal, sim.’


M., funcionária pública, Guaíba (RS): ‘Deveriam fazer um plebiscito sobre a pena de morte, pois não há mais vagas nos presídios.’


A., jornalista, São Paulo: ‘É bom que se faça um plebiscito sobre a pena de morte. E não vejo razão para ironias, como em certas camadas da mídia, que desqualificam o contraditório.’


P., empresário, São João (PR): ‘A pergunta do referendo estava errada. Devia ser pena de morte, sim ou não?’


A., advogado, São Paulo: ‘Quem quer plebiscito para a pena de morte ou a prisão perpétua ignora que a Constituição as proíbe expressamente.’


M., administrador, Campo Mourão (PR): ‘Faça-se um referendo para ver se a Constituição deve continuar válida.’


J., administrador, Guapimirim (RJ): ‘Um referendo sobre a imunidade dos políticos e autoridades.’


P., engenheiro, Curitiba: ‘Lendo grande parte dos comentários aqui, fico aliviado de ainda haver deputados fazendo leis no Brasil. Viva a democracia representativa (ou quase)!’


Os comentários e o texto que os motivou estão em http://www.observatoriodaimprensa.com.br/blogs/verbosolto.asp


Luiz Weis é jornalista’



ATENTADO EM MARÍLIA


O Estado de S. Paulo


‘Campoy acusa donos de pagar atentado a jornal ‘, copyright O Estado de S. Paulo, 3/11/05


‘Amaury Delábio Campoy, preso pelo atentado ao Diário de Marília e às rádios Dirceu AM e Diário FM, acusou diretores das empresas de contratar o crime para receber o seguro. Ele disse terça-feira ter ganho R$ 10 mil para vigiar enquanto um grupo incendiava o prédio, em 8 de setembro. A direção da Central Marília de Notícias, dona do jornal e das rádios, afirmou que a versão é risível e uma tentativa do prefeito Abelardo Camarinho, que seria o verdadeiro mandante, de escapar da acusação.’


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