Terça-feira, 07 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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22/06/2010 na edição 595

SARAMAGO
Senhor polêmica

‘Único prêmio Nobel de Literatura da língua portuguesa, José Saramago morreu em Lanzarote, nas Ilhas Canárias, na sexta-feira 18, aos 87 anos. Foi cronista, poeta, contista, dramaturgo, jornalista – mas consagrou-se no romance, gênero que exerceu com fôlego enciclopédico. Seus temas incluíram a revisão histórica (Memorial do Convento, História do Cerco de Lisboa), tributos a personalidades literárias (O Ano da Morte de Ricardo Reis) e alegorias críticas da condição moderna (Ensaio sobre a Cegueira). A carreira do escritor português foi marcada pela polêmica, sobretudo com a Igreja – ateu e comunista militante, ele fez provocações com a religião em O Evangelho segundo Jesus Cristo e em Caim, seu último livro.

Nascido na aldeia de Azinhaga, em 1922, Saramago teve uma infância pobre e nunca frequentou uma universidade. Estreou com o romance Terra do Pecado, em 1947, mas depois passou quase vinte anos sem publicar. Sua consagração, tardia, deu-se sobretudo a partir de Levantado do Chão, de 1980. Agraciado com o Nobel em 1998, Saramago é dos poucos autores contemporâneos em língua portuguesa que conseguiram cristalizar um estilo particular e inconfundível. Ao lado da criação literária, manteve-se sempre ativo, e equivocado, na política. Embora tenha feito críticas insignificantes a execuções de opositores em Cuba, declarava-se um ‘amigo’ da ditadura dos irmãos Castro. Saramago morreu tranquilamente, em sua casa, na Espanha, vítima de complicações pulmonares. Nos países cujos regimes ele defendia, nenhum escritor que ousou discordar teve o luxo de uma morte tranquila.’

 

INTERNET
Jadyr Pavão Júnior e Rafael Sbarai

O pássaro que ruge

‘Ferir com palavras, pondo para circular histórias falsas com o objetivo de irritar ou destruir alguém, é uma prática tão antiga quanto a história humana. A humanidade viajava ainda à velocidade de 16 quilômetros por hora das carroças, mas as notícias ruins e fofocas já pareciam ter asas. As línguas de trapo mal esperavam o conquistador romano Júlio César, talvez o mais celebrado general e estadista de todos os tempos, sair de Roma para começar seu trabalho de intriga e destruição. Conforme registrou o historiador Gaius Suetonius Tranquillus, morto por volta do ano 122 da era cristã, o patriciado ‘punha para circular histórias’ dando conta de que César arrancava todos os pelos do corpo com pinças e era chamado de ‘marido de todas as esposas e esposa de todos os maridos’. Foi assim antes com gregos, macedônios e egípcios. As maledicências continuaram viajando mais rápido na Idade Média, durante e depois da Revolução Industrial. O que há de novo nesse campo? A internet. Se já voavam de ouvido em ouvido, as fofocas e falsidades ganharam o dom da instantaneidade com os milhões de computadores, celulares e tablets de todo o planeta interconectados por uma rede em que, pela primeira vez na história, todas as máquinas se comunicam na mesma linguagem, sem incompatibilidades nem fronteiras.

A fofoca digital pode criar verdadeiros tsunamis que chicoteiam o globo jogando as opiniões de milhões de pessoas de um lado para o outro. Antes que alguém possa verificar a verdade de um fato, sua versão ou versões já se tornaram o fenômeno. O caso que engolfou o locutor Galvão Bueno, a voz oficial das Copas do Mundo e das Olimpíadas nas transmissões da Rede Globo, é uma amostra do poder dessas novas correntes de pensamento criadas na internet. ‘Cala a boca, Galvão’ era uma tirada que já circulava por aí fazia anos. Há pouco mais de uma semana, contudo, ela ganhou o mundo. Postada por usuários no Twitter, a rede social de troca de mensagens de até 140 caracteres, a frase CALA BOCA GALVAO – assim mesmo, em letras maiúsculas, sem vírgula e sem acento – virou hit e se manteve entre os dez assuntos mais comentados do serviço da internet durante toda a semana. Os brasileiros aumentaram a fervura, atribuindo sentidos absurdos à frase: segundo uma das versões, em português, cala boca significaria salve, e galvão, o nome de um pássaro em extinção. Alguns dos maiores sites e jornais do mundo, como o The New York Times, tentaram decifrar a brincadeira, e assim a difundiram ainda mais.

O CONCORRENTE

Nascido em 2006 como ferramenta para facilitar a troca de mensagens de trabalho via celular, o Twitter teve uma vida discreta por aproximadamente um ano, até que, durante um festival de música americano, percebeu-se que ele não precisava ficar restrito às empresas. Durante o evento, o número de posts diários saltou de 20 000, em média, para 60 000. Uma luz se acendeu na cabeça de seus criadores – jovens empreendedores do Vale do Silício, na Califórnia, com o programador Biz Stone à frente. A ideia das mensagens curtas não era propriamente uma novidade: os torpedos de celular (SMS) já permitiam apenas 160 caracteres. Mas ao adotar o slogan ‘O que você está fazendo?’ o Twitter se apresentou como uma ferramenta que oferecia algo diferente: um canal para as pessoas dizerem ao mundo o que sentem, pensam ou fazem no exato momento em que teclam. A outra característica crucial do Twitter era permitir que aqueles que de outra forma jamais se aproximariam se ligassem numa rede de seguidos e seguidores. Inicialmente, o esforço para acumular seguidores tinha ares de brincadeira. Ostentar um grande número de fãs era um galardão vazio. Mas, no começo de 2009, quando o ator Ashton Kutcher e a rede de TV CNN disputaram tweet a tweet quem atingiria antes a marca de 1 milhão de seguidores (ele venceu), já estava claro que o Twitter não precisava ser apenas um amplificador de vaidades e irrelevâncias.

Atualmente, há 105 milhões de usuários do Twitter espalhados pelo mundo. Todos os dias, 600 milhões de buscas e 65 milhões de mensagens movimentam a rede. Por mês, são 190 milhões de visitas únicas. Esses números fazem do Twitter a segunda maior rede social do planeta, atrás do Facebook, com mais de 400 milhões de pessoas (a rede Qzone tem 310 milhões de usuários, mas só na China, em mandarim). No Brasil, a ferramenta é vice-campeã em número de acessos, ao lado do Facebook, com 10,7 milhões de visitantes únicos ao mês, atrás do Orkut, com 26,9 milhões.

A sede do Twitter, em São Francisco, reúne um pequeno corpo de funcionários: 175. Como tantas iniciativas revolucionárias da internet, o modelo de negócio da empresa ainda não está claro. Gigantes da web já tentaram ‘abocanhar o passarinho’, símbolo do Twitter. Em 2008, o Facebook teria posto sobre a mesa de seus donos uma oferta de meio bilhão de dólares. Um ano depois, foi a vez do Google. Biz Stone explicou por que as ofertas foram recusadas: ‘O Twitter está focado em desenvolver novas funcionalidades e em permanecer independente’. Em 2009, a empresa fechou as contas no azul graças a uma parceria com Microsoft e Google. Pelo acordo, avaliado em 25 milhões de dólares, as gigantes passaram a incluir tweets nos seus resultados de buscas na web.

DESAFIO AOS AIATOLÁS

Em quatro anos, o Twitter já provocou impactos na política, nos negócios, na cultura do entretenimento. O exemplo mais extraordinário de suas potencialidades deu-se há um ano, nas eleições iranianas. Em repúdio à reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad, alinhado com o regime ditatorial dos aiatolás, uma fatia da população recorreu à rede para denunciar fraudes na apuração, organizar protestos nas ruas de Teerã e divulgar imagens da repressão policial. O movimento chegou a ser saudado como ‘revolução do Twitter’. ‘Numa rede como essa, a voz das pessoas comuns ganha enfim dimensão pública’, diz Tim Hwang, do Web Ecology Project, centro de estudos sobre a internet da Universidade Harvard.

O Twitter também se mostrou eficaz num contexto político democrático. Nas eleições americanas de 2008, o então candidato democrata Barack Obama fez uso da ferramenta para mobilizar a militância, arrecadar fundos e conquistar novos eleitores. No Brasil, os três principais candidados à Presidência – José Serra, Dilma Rousseff e Marina Silva – tuítam. ‘Todos os políticos brasileiros vão querer ser o Obama da eleição deste ano’, vaticina Alex Primo, pesquisador de redes sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Com base nos dados do IBGE e do Comitê Gestor da Internet no Brasil, o consultor em marketing digital Cláudio Torres calcula que 18% do eleitorado é formado por jovens entre 18 e 24 anos com acesso à internet – e, portanto, expostos às campanhas on-line.

O mundo empresarial já abraça o Twitter, uma ferramenta poderosa para anunciar e interagir com os consumidores. Uma pesquisa realizada em fevereiro com companhias americanas reflete a tendência. Segundo a Society for New Communications Research, mais de um terço das 500 maiores empresas listadas pela revista Fortune usa o Twitter de forma consistente. Companhias de diversos segmentos utilizam a rede para se relacionar com o seu público de forma mais íntima e instantânea, além de oferecer promoções exclusivas aos seus seguidores. O ator Ashton Kutcher, que, antes de bater a CNN, era mais conhecido como o namorado bonitão da atriz Demi Moore, foi outro que aprendeu a fazer negócios no Twitter. Ele dominou tão bem a arte de falar com seguidores em 140 caracteres que se tornou uma espécie de guru. Abriu uma consultoria, a Katalyst, voltada às novas mídias.

No campo do entretenimento, o Twitter transforma anônimos em famosos e abre novos horizontes para os célebres. No Brasil, quem despontou graças aos microposts foi Tessália Serighelli de Castro, que até adotou o apelido Twittess em homenagem à mãozinha recebida do Twitter. Colecionadora de 60 000 fãs quando ainda era anônima, ela foi convidada pela Globo para participar do Big Brother Brasil 10. O âncora do Jornal Nacional, William Bonner, está no segundo time, dos usuários que, já célebres, abriram uma nova seara na rede. Ele aumentou sua claque de seguidores à base de comentários fortuitos sobre o noticiário, recados para a mulher, Fátima Bernardes, e consultas como: ‘Que gravata usar na próxima edição do Jornal Nacional?’. As mensagens curtas se mostraram propícias a bate-bocas inusitados. Na semana passada, em um de seus monólogos radiofônicos, o ditador venezuelano Hugo Chávez jurou que Ricky Martin era um chavista. O cantor acionou imediatamente seu 1,2 milhão de seguidores para desmentir o coronel. O ex-menudo ainda emendou, usando uma hashtag, marcação típica do Twitter: ‘# free Venezuela’. (‘Libertem a Venezuela’).

Em boa parte do tempo, o Twitter é uma espécie de vuvuzela da internet, que apenas amplifica o nada. Mas, por sua velocidade, mobilidade e alcance, é uma plataforma que, em certas circunstâncias, parece ‘dar poder ao homem comum’, como gostam de dizer alguns teóricos. ‘É como se cada indivíduo tivesse seu próprio meio de comunicação’, diz o sociólogo francês Michel Maffesoli. Empresas e celebridades já se viram em apuros por causa do Twitter. Formou-se um certo conhecimento sobre como agir nessas situações. No episódio do CALA BOCA, a Globo mobilizou artistas de seu elenco acostumados a usar a rede para que defendessem Galvão Bueno. Na terça-feira, dia da estreia do Brasil na Copa, a emissora fez com que Galvão falasse do episódio numa entrevista. Ele disse aceitar tudo como brincadeira, e isso minimizou os danos à sua imagem. Mas o passarinho do Twitter deixou sua marca no ombro do locutor.

A VOZ DO BRASIL

Com façanhas marcantes e gafes inesquecíveis, Galvão Bueno é, há mais de trinta anos, o narrador esportivo número 1 do país

Desde 1978, quase todas as glórias e tristezas do esporte brasileiro chegaram aos olhos, ouvidos e corações dos telespectadores pela narração rascante, emocionada e ufanista do locutor carioca Carlos Eduardo dos Santos Galvão Bueno, que está às vésperas de completar 60 anos. Fosse a conquista do pentacampeonato mundial de futebol de 2002 – quando transmitia os gols de Ronaldo, Ronaldinho e Rivaldo multiplicando os erres até não poder mais, uma de suas marcas registradas -, a morte na pista, em 1994, de seu amigo Ayrton Senna, cujos 41 triunfos ele anunciava ao som do Tema da Vitória, ou as medalhas olímpicas do vôlei, lá estava no ar a voz mais ouvida do país.

Dono de uma audiência cativa, Galvão Bueno é tão admirado que em qualquer estádio em que esteja presente são desfraldadas faixas nas arquibancadas com seu nome. E ao mesmo tempo tão achincalhado – nos jogos, na imprensa, nos programas humorísticos, na internet – que teria todos os motivos do mundo para andar de mau humor. Ele acha graça de tudo, sempre sorridente, falando sem parar, cheio de si, dono da verdade, a começar pelo episódio da campanha ‘Cala boca Galvão’.

Capaz de narrar com precisão qualquer esporte, dono de timbre impecável e raciocínio rápido, Galvão é autor de façanhas como a de pedir aos telespectadores que piscassem as luzes de casa durante os jogos que passavam de madrugada na Copa de 2002, realizada na Coreia do Sul e no Japão. O país inteiro virava um vaga-lume. Só um personagem com seu poder, em uma emissora como a Globo, poderia provocar uma reação desse tamanho. Mas, da mesma forma que se orgulha disso, ele lamenta alguns momentos constrangedores que protagonizou. Dois ficaram para a história. Um foi seu grito esganiçado, quase histérico, ‘é tetra, é tetra!’ em 1994, ao lado de Pelé e do comentarista de arbitragem Arnaldo Cézar Coelho. O outro aconteceu na Copa de 1974, quando narrou por um pool de três emissoras paulistas, diretamente de um estúdio brasileiro, a partida entre Alemanha Oriental e Austrália pensando que estivessem jogando Bulgária e Sué-cia. Só percebeu o desastre depois que as imagens transmitidas da Alemanha mostraram no placar do estádio quais seleções de fato estavam em campo. Apreciador de vinhos de qualidade, lançará em agosto um tinto e um espumante gaúchos com seu nome. Com um salário estimado em 1 milhão de reais por mês, Galvão mora a maior parte do tempo em Mônaco, mas tem também endereços no Rio de Janeiro e em Londrina (PR), cidade de sua segunda mulher. Acusado de ufanismo, tira a referência de letra, como fez no caso do Twitter. ‘Sou um torcedor-narrador, e daí?’, responde. ‘Meu trabalho é passar emoção a quem está em casa.’ Bem, amigos, o homem é mesmo um prodígio.’

 

COPA
Carlos Maranhão, de Johannesburgo

A Força Expedicionária Brasileira

‘Eles parecem uma tropa. Vestem reluzentes uniformes, cada um ocupa sua posição determinada na unidade de infantaria, cumprem com rigor as ordens do comandante em chefe e quase não falam. Protegidos em seu QG ou entrincheirados, comportam-se como se estivessem em campanha – não futebolística, na disputa de um campeonato mundial, mas numa operação militar. Além de enfrentarem os adversários encarados como inimigos – primeiro a Coreia do Norte, batida na estreia de terça-feira passada pelo magro e preocupante placar de 2 a 1, neste domingo a Costa do Marfim e na próxima sexta Portugal –, eles foram longamente instruídos sobre como defrontar o que seu superior hierárquico considera outro tipo de obstáculo: a imprensa.

Nada de ficar dando entrevistas ou aparecer na TV. Só podem abrir a boca, sem nenhuma crítica ao batalhão, dentro de um código rígido. A cada dia, como num rodízio de sentinelas, dois deles são designados para a missão de participar de uma coletiva de imprensa, em que cerca de 200 jornalistas, mantidos a distância em suas cadeiras, disputam o direito de formular perguntas durante meia hora. Na véspera e depois das partidas, cumprindo uma determinação da Fifa, todos passam por uma espécie de corredor polonês em zigue-zague, entre o vestiário e o ônibus, a chamada zona mista, e os que concordarem param diante dos repórteres que se acotovelam. Alguns seguem marchando, como fez o lateral Maicon após a estreia, com a justificativa de que estivera na coletiva anterior. O atacante Robinho ‘ouve’ a primeira indagação sem tirar do ouvido o fone do iPod. O comandante, esse, atravessa o corredor de nariz erguido, passos cadenciados, um, dois, feijão com arroz. Suas únicas aparições são nas tais coletivas obrigatórias, quando dá espetadas com sua baioneta e afirma que essa ‘é uma forma nova de trabalhar’. Na hora dos treinamentos, ninguém chega perto da soldadesca nem da intendência – roupeiro, massagista, auxiliares, igualmente proibidos de se pronunciar. Com frequência, são manobras secretas. Ou, ainda na definição do comandante, privadas. ‘Manda quem pode, obedece quem tem juízo’, comentou o goleiro Júlio César na coletiva de sexta passada.

É assim que vem sendo a vida dos pentacampeões mundiais em seu teatro de operações na África do Sul. Aqui o que menos importa são as dificuldades de trabalho dos jornalistas. A questão é que, ao trancar os jogadores, impedir o acesso aos treinamentos e limitar ao máximo as entrevistas, o comandante Dunga, radicalizando seu maquiavelismo, transmite a seguinte mensagem: assistam aos nossos jogos, torçam pela nossa vitória, mas por favor não nos importunem com críticas e pedidos. Faz com isso uma inversão de papéis, pois não são os jornalistas que ele afasta, mas todos os brasileiros que acompanham apaixonadamente a seleção a distância e ficam privados de informações. Entre uma Copa e outra, o futebol é alvo de interesse exclusivo dos torcedores de clube. Durante os trinta dias do Mundial, porém, é a nação de 193 milhões de habitantes que veste a camisa amarela.

Jamais ocorreu nada semelhante na história dos canarinhos. ‘Na Copa de 70, três vezes por semana, dois jornalistas almoçavam com a delegação e falavam com quem queriam’, lembra o ex-lateral Carlos Alberto Torres. ‘É preciso manter essa boa relação, porque o país inteiro está interessado em acompanhar o que acontece com nossa seleção.’ Em competições passadas, o técnico e os jogadores davam entrevistas diariamente, antes e depois dos treinos. Havia exagero, é claro, com a publicação de uma avalanche de notícias e uma batelada de irrelevâncias, embora nesse período leitores, telespectadores, ouvintes e internautas fiquem curiosos para saber se a dor nas costas de Júlio César poderia impedi-lo de atuar, se o meia Kaká comentou com a mulher sua falta de ritmo de jogo ou se o atacante Luis Fabiano estaria preparando uma nova coreografia para comemorar os gols. Durante a semana passada, foi impossível apurar coisas banais como essas. No período mais duro do regime militar, com a vigência da censura e do AI-5, os ditadores não davam entrevista. Dentro da seleção brasileira, chefiada na Copa de 70 por um brigadeiro e presidida em 1978 por um almirante, chegaram a trabalhar na comissão técnica o capitão Cláudio Coutinho, que seria o treinador ‘campeão moral’ na Argentina, o major Raul Carlesso e mais três militares. ‘Mesmo assim, em plena ditadura, a liberdade era maior do que hoje’, compara o experiente comentarista esportivo Orlando Duarte. ‘Os jornalistas passeavam pelo hotel da seleção à vontade e entrevistavam quem bem entendiam. Nas catorze Copas que cobri, nunca vi nada parecido com o que acontece agora.’’

 

TELEVISÃO
Marcelo Marthe

As vovozinhas malvadas

‘Dias atrás, a atriz Daisy Lúcidi foi abordada por um anônimo em um café no centro do Rio de Janeiro. ‘Mas como a senhora é ruim, hein, dona Valentina?’, disparou o sujeito. Desde que Daisy, de 80 anos, assumiu tal papel na novela Passione, a confusão entre intérprete e personagem a persegue nas ruas – como sempre ocorre quando se corporifica com competência uma vilã da laia de Valentina. Por baixo da casca de avó boazinha há uma criatura horrorosa, que obriga a neta de 15 anos, Kelly (a novata Carol Macedo), a se prostituir. A vovó maldosa remete, com realismo, ao noticiário sobre exploração sexual de crianças e adolescentes. E é também ilustrativa da visão peculiar que o atual folhetim das 8 da Globo tem a oferecer sobre a propalada ‘terceira idade’.

Em uma trama que chama atenção pelo fato já por si incomum de trazer quatro octogenários em papéis de realce, ela não é a única velhinha safada. Encontra sua contraparte, digamos, ‘do bem’ na ricaça Brígida, representada por Cleyde Yáconis, de 86 anos. A matriarca – sogra de Bete (Fernanda Montenegro) e vinte anos mais velha do que esta, embora as duas atrizes tenham só seis anos de diferença – é esnobe e preconceituosa. Além disso, dá suas escapadas com o chofer da família, Diógenes (Elias Gleiser, de 76) tão logo o marido, Antero (Leonardo Villar, de 86), cai no cochilo. A misteriosa atividade a que patroa e chofer se dedicam é provavelmente inocente, mas as falas de duplo sentido carregam as cenas de libido. ‘Quero que o público imagine que os dois velhos podem, sim, estar fazendo sexo’, diz o noveleiro Silvio de Abreu.

Brígida e Valentina destoam do padrão de velhice decantado nas novelas. Normalmente, atores na faixa etária de Daisy Lúcidi e Cleyde Yáconis ou são relegados a papéis de vovôs e vovós simpáticos ou mostrados como coitadinhos. O ápice dessa tendência foi o casal nonagenário (formado por Oswaldo Louzada e Carmem Silva, ambos mortos em 2008) que padecia nas mãos de uma neta sádica em Mulheres Apaixonadas (2003), de Manoel Carlos. Mas, como lembra o especialista Mauro Alencar, é possível pescar, na história do gênero, exemplos eventuais de velhinhos transviados. ‘Em tramas dos anos 70 como Os Ossos do Barão, de Jorge Andrade, ou O Casarão, de Lauro César Muniz, havia idosos com vida sexual bem apimentada’, diz o estudioso. O próprio Silvio de Abreu tem tradição nessa matéria: em seu sucesso Sassaricando (1987), Paulo Autran (1922-2007) fazia um senhor que não resistia a um rabo de saia. Na novela atual, o autor avança ainda mais, tanto na idade dos atores quanto na voltagem de seus personagens.

Embora Passione venha ostentando uma audiência capenga para o horário das 8 desde sua estreia, há um mês, a Globo já detectou que a personagem de Cleyde Yáconis cativa o público. Veterana do teatro e dos folhetins, a atriz tempera a incorreção política com certa fleuma de dama quatrocentona (como são conhecidos os clãs tradicionais paulistanos). Brígida não poupa nem os idosos de discriminação: chama o próprio marido de ‘caduco’. Apesar disso, trata-se de um registro ameno. Já a personagem de Daisy Lúcidi revolta os espectadores (e se soma ao arsenal de ‘temas-denúncia’ explorados por Abreu, que inclui ainda o aborto e as drogas). Ex-deputada estadual no Rio, com quatro mandatos, e radialista há mais de sessenta anos (foi atriz de radionovelas e até hoje comanda um programa assistencialista), Daisy está debutando como vilã. ‘O maior desafio foi me despir da vaidade. Tive de engordar 5 quilos e venho me sujeitando aos vestidos sem manga e à maquiagem borrada para fazer aquela desqualificada’, diz. Desqualificada é pouco. Para convencer Kelly a se prostituir, Valentina apela para a chantagem emocional: finge acessos de tosse e se faz de idosa vitimizada. No passado, ela fazia o mesmo com a neta mais velha, a golpista Clara. Vivida por Mariana Ximenes, essa última é a vilã ‘oficial’ de Passione. Até agora, porém, a vovozinha vem lhe passando a perna.

BRÍGIDA (Cleyde Yáconis)

Idade da atriz: 86 anos

Safadezas da personagem: a paulistana quatrocentona tem alergia àqueles que não vêm de sua classe social, maltrata o marido (que considera senil) e tem encontros furtivos com o chofer Diógenes (Elias Gleiser) – com quem mantém diálogos cheios de sugestões sexuais

Frase típica: ‘Chegou a viciada perdida. Nunca pensei que ia ter esse tipo de gente dentro de casa’ (sobre a noiva do neto)

VALENTINA (Daisy Lúcidi)

Idade da atriz: 80 anos

Safadezas da personagem: cafetina asquerosa disfarçada de vovó boazinha, ela obriga Kelly (Carol Macedo), a neta de 15 anos, a prostituir-se com clientes de sua pensão. Também gosta de invocar sua condição de idosa para levar vantagens indevidas e manipular os incautos

Frase típica: ‘Tomara que eu tenha logo um infarto, para você se roer de remorso. Ai, Deus, explode logo esse coração, me ajuda a castigar essa neta ingrata’’

 

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