Quinta-feira, 28 de Maio de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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FEITOS & DESFEITAS >

O jornalista como antropólogo

Por Tamara Santos em 05/11/2013 na edição 771

O ofício do jornalista como aquele que relata os fatos e os transforma em notícia já está fadado ao fracasso da produção do próprio fato e da compreensão de seus leitores quanto ao que está sendo enunciado. É preciso mais do que relatar e informar; é necessário presenciá-los e contextualizá-los.

Quando os fatos são ditos por pessoas secundárias que descrevem o acontecido para que o jornalista transforme em texto informativo, faz-se uma representação da representação, ou seja, o fato que é contado por aquela pessoa que presenciou e em seguida o relata ao jornalista e este, em seu processo de criação, representa o que ouviu e acaba dando ao fato uma forma não tão fiel e verdadeira possível. Consequência da longinquidade de o fato, como o processo de criação, estar longe do seu produtor.

Um dos problemas da imparcialidade que o jornalista ‘‘tem’’ e que prejudica quanto ao ser humano jornalista e o ser humano profissional é a distante experiência dos relatos factícios. Compara-se com um antropólogo, quando este sai de sua vivência familiar e se desloca a um local muitas vezes inóspito e diferente, percebe-se uma contravenção do seu ambiente para o ambiente do outro, o repórter tem um pouco do oficio de um antropólogo no que diz respeito à busca, a investigação e a pesquisa. Para que todo jornalista seja um antropólogo, que se faz fundamental para humanização dos enunciados dos fatos e fundamental para o objeto de pesquisa, é necessário que se compreenda o contexto. Nenhum pesquisador sai de sua vivência sem insistentemente saber do objeto que vai ser especulado, pois ouvir os relatos do objeto de estudo é de suma importância para compreender o contexto, a história e as experiências.

Sistema desumano

Experiências que só podem ser presenciadas quando se sai da zona de conforto. Uma reportagem feita por um jornalista não é tão respeitada quando o objeto estudado ou o fato estar distante. Para os antropólogos, o estudo do objeto distante acarreta na ausência de credibilidade da pesquisa, para os jornalistas gera a ausência precisa das informações. Devido a isso, a saída da zona de conforto é o pressuposto para que a pesquisa tenha sucesso efetivo.

A humanização do trabalho de um antropólogo em estar perto do objeto e poder ouvi-lo, entendê-lo e poder revelá-lo ao final da pesquisa é essencial para a compreensão do que pode ser noticia dentro do jornalismo e da não efemeridade de um antropólogo em divulgar seus trabalhos, o contrário, entretanto, do jornalista como integrante do sistema monetário e capitalista, que se importa em apressar a divulgação do objeto noticia e não aprofundá-lo caindo em descredibilidade pelas informações falsas; consequência da pressa. Se nós, jornalistas, compreendêssemos o sentido de que os fatos não são apenas histórias, mas sim, pessoas que estão na história e fazem parte dela, seríamos um profissional mais consciente quanto à velocidade com que damos uma noticia sem antes, compreender o contexto, os relatos e as representações.

As nuanças virão quando a antropologia fizer parte do objeto de um jornalista e assim, a pesquisa-notícia se tornará mais precisa e relevante. Pois deixamos de humanizar a profissão e de se deixar ser jornalistas antropólogos, aquele que vai a campo, busca, pesquisa e se inquieta, para sermos profissionais que lidam com um produto sensacionalista que precisa sair daqui a pouco, presos a um sistema desumano e econômico.

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Tamara Santos é estudante deJornalismo

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