Terça-feira, 04 de Agosto de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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FEITOS & DESFEITAS >

Os caricatos da mídia

Por Leudson Coelho em 05/11/2013 na edição 771

A difusão de imagens, corpos nus, exibicionismo, estilos corporais e excesso do belo contribui para as variadas expressões e identidades caricatas dos homossexuais que estampam as capas de jornais e revistas de circulação nacional voltada para o público GLS (gays, lésbicas e simpatizantes). A imagem dos gays também se concretiza diante dos estereótipos e histórias com excesso de humor cômico nas telenovelas, filmes e seriados.

Do cabeleireiro ao estilista, “bonecas”, “bichas”, “entendidos”, “gays” se tornaram alvo do mercado publicitário diante da superexposição caricata de um homossexual que aproveita a vida e principalmente dá valor excessivo a sua aparência. Diante disso, a sociedade de consumo se alimenta diante das imagens equivocadas apresentadas pela mídia em suas páginas, observadas pelo ângulo de mercadoria, oferecendo uma diversidade de produtos e serviços à disposição dos gays caricatos onde a imprensa contribui para essa “realidade”.

A mídia propõe o que tem importância para a sociedade, uma vez que esses meios trabalham na formação da opinião pública. Diante dessa perspectiva, a teoria da agenda-setting é o tipo de efeito social que a mídia pauta para seleção, disposição e incidência de notícias que a opinião pública discutirá. Com isso, existe uma espécie de agendamento em torno da exploração dos homossexuais diante dos veículos de comunicação, apresentando personagens caricatos e estereotipados. As discussões e debates de políticas públicas voltadas para o grupo LBGT (lésbicas, bissexuais, gays, transgêneros, travestis e transexuais) são esquecidos e dão lugar ao espetáculo. Como mostra Debord em seu livro Sociedade do Espetáculo “toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação” (Debord, 2003, p. 13-17).

Imprensa gay

O surgimento da imprensa gay e de movimentos políticos no final da década de70 não foi o primeiro esforço em torno da homossexualidade no Brasil. Desde os anos de 1950, ou até mesmo antes, foi possível encontrar formas de socialização dos homossexuais, principalmente os homens, no que é conhecido como “guetos”. A internet é hoje o principal espaço de socialização, paqueras, discussões e comunicação com diversas páginas dedicadas à identidade homossexual.

O Brasil que vivia na atmosfera cultural e política da ditadura civil-militar instalada em 1964, e no final de 1968 com a promulgação do Ato Institucional nº5, o período mais violento, de tortura, repressão e assassinatos cometidos pelos órgãos de repressão política, nem os espaços de sociabilidade homossexual escaparam da repressão dos militares que usavam o pretexto de combate à vadiagem e ao uso de drogas.

Paralelamente a esse período de repressão militar, essa década também foi de ebulição artística e cultural. Como a grande imprensa estava subjugada pela censura, diversos jornais alternativos eclodem nesse período, em formato de tabloide, longe das redações das empresas de mídia com a bandeira de cunho político e cultural.

O surgimento de jornais de impacto, como foi O Pasquim, criado em 1969, e Lampião, criado em 1978, possibilitou a liberdade de expressão e identificação de homossexuais havia crescido e ganhado força em um contexto histórico de mudanças sociais e inovações culturais com a contestação do regime militar e abertura para um primeiro movimento político homossexual organizado que lutava para ter vez e voz.

Representação

O jornalista que se propõe através da grande mídia a realizar uma representação caricata dos homossexuais, se prepõe, a rasgar todo um contexto histórico de lutas e movimentos que ascenderam nos anos de 1970. Não existe uma representação “pura” da realidade, porém exagerada. Sempre está reproduzindo a visão dos outros, no caso, a empresa midiática em que trabalha. Pode reproduzir ainda que involuntariamente uma representação nem verdadeira, nem justa e nem ética.

“Comunicação como representação da representação leva inevitavelmente de novo a Foucault quando ele ensina que o lugar no qual as metáforas, as comparações e as imagens resplandecem não será aquele que os olhos projetam, mas sim aquele que as sequências sintáticas definem” (COSTA, Caio Túlio, 2009, p.48).

Numa época em que as imagens se tornam sinônimo de representação da realidade, os estereótipos gays continuam a se concretizar ainda mais.

Referências

COSTA, Caio Túlio. Ética, jornalismo e nova mídia: uma moral provisória. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009. 287p.

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997. 238p.

SIMÕES, Júlio Assis; FACCHINI, Regina. Do movimento homossexual ao LGBT. São Paulo: Editora Perseu Abramo, 2009. 196p.

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Leudson Coelho é estudante de Comunicação Social-Jornalismo

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