Terça-feira, 26 de Maio de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Nota triste

Por Norma Couri em 12/11/2013 na edição 772

Durante o mês de outubro o jornal espanhol El País coletou um belo relato do “Brasil: Potência Cultural em Marcha” e reuniu tudo no suplemento “Babelia” do sábado (2/11). Quem abre o site fica no mínimo embasbacado com este país, estrela da última Feira do Livro de Frankfurt, e aposta no lado da luz sobre este gigante que um dia viria a ser o país do futuro. São 45 artigos que o leitor resgata de uma vez só e acredita, o Brasil deu certo.

Lá, Walter Salles comenta a eterna oscilação do cinema brasileiro que iniciou sua experimentação dois anos depois da criação do cinematógrafo pelos irmãos Lumière e conta o que se passou na tela depois da Cinédia, Atlântida e Vera Cruz, chegando ao Cinema Novo e desembocando no fértil ciclo de documentários e no reflexo mais agudo da nossa realidade, O som ao redor, de Kleber Mendonça Filho, “o melhor dos últimos dez anos”

A Paixão segundo Clarice Lispector está registrada, a tradição teatral centrada no corpo, “vital e jovem”, a literatura à sombra de Machado de Assis como escreve Nélida Piñon, a arte brasileira passada a limpo destacando Tarsila do Amaral e o “Abapuru”, as diabruras de Débora Colker, o samba, o rock,o vídeo de uma tribo indígena, a melhor cozinheira da América Latina, Helena Rizzo do restaurante Maní, de São Paulo – não faltou nada.

E lá embaixo que vem a nota triste. No mesmo sábado (2/11), o correspondente Juan Arias nos acorda do sonho de Primeiro Mundo com o título “Ir a um restaurante no Brasil começa a dar medo”.

Todos no chão

Arias ressalta que o Brasil é um dos polos de gastronomia da América Latina. Mas, ultimamente, enquanto saboreia uma picanha o cidadão pode ser obrigado a degustar junto um revólver apontado para a sua cabeça. Só em São Paulo, neste ano a modalidade “arrastão” aumentou 14% – e foram 19 os casos registrados. Na semana retrasada, no Rio, que aguarda inúmeros turistas espanhóis para a Copa de 2014, dois restaurantes foram assaltados em Botafogo. Na maioria dos casos os assaltantes são meninos, já que as penas pesadas se destinam a maiores de 18 anos. Em pouco tempo os adolescentes voltam às ruas.

Arias avisa que São Paulo e Rio são os mais visados, mas os restaurantes de Salvador e Belém também entraram na dança dos revólveres que “limpam” todos os clientes. Os bandidos saem ilesos. Uma das cenas preferidas dos assaltantes é entrar em festas de casamento como penetras e, em minutos, roubar carteiras, relógios, joias, até parte dos doces antes de sair correndo, disparando.

E Arias adverte: não pensem que isso acontece só em restaurantes. Quem está passando a pé por ali também é assaltado.

No dia seguinte Arias atacou outra vez alertando o governo. O assalto a restaurantes desembarcou em Brasília num dos locais preferidos dos empresários e políticos, o tradicional Figueira, ao lado dos palácios da Alvorada e Jaburu. Armados, saltando de um carro de luxo importado, eles entraram obrigando todo mundo a deitar no chão enquanto “limpavam” os bolsos e levavam celulares e joias. Um dos clientes era o deputado estadual e presidente do PT, Rui Falcão. Foi no dia 29 de outubro, uma terça-feira, dia em que normalmente os políticos lotam a cidade.

Arias leu esta notinha na coluna de Ilmar Franco na página 2 da edição de sexta-feira (1/11) do Globo, sob o título “Mãos ao alto”, e lançou-a ao mundo. Acrescentando que 50% dos cidadãos paulistanos já foram vítimas de alguma violência. Os cariocas, idem. Quem estava mais preservado até agora era o político enclausurado em Brasília. Agora, nem ele.

A nota triste saiu no site ao pé de “Brasil: Potência Cultural em Marcha”.O leitor espanhol vai ter de decidir onde apostar. No futuro do Brasil ou no medo.

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Norma Couri é jornalista

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