Segunda-feira, 21 de Setembro de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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FEITOS & DESFEITAS >

Imagens que não mentem

Por Cadão Volpato em 24/02/2015 na edição 839

Na madrugada de 21 de agosto de 1968, Josef Koudelka foi acordado pelo telefonema de uma amiga. “Os russos estão chegando”, ela avisou. O instinto, a sensação de que alguma coisa grande estava para acontecer, fez que o fotógrafo fosse para a rua levando a máquina e muitos rolos de filmes. Koudelka chegara da Romênia no dia anterior, trazendo suas fotos de ciganos. Ele foi para a rua e o resto é história.

Os tanques russos entraram em Praga nas primeiras horas do dia e encontraram uma população estupefata, estarrecida com a violência das máquinas. Mulheres choravam, jovens argumentavam com soldados invisíveis, escondidos no interior dos veículos, moças imploravam, um velho portando uma respeitável pasta de trabalho arremessava uma pedra contra um tanque, um rapaz agitava uma bandeira tcheca em cima de um deles. Em seguida, os primeiros corpos, o desespero final dos habitantes. Tudo isso foi retratado por Koudelka, num estilo de fotojornalismo que deixaria os grandes mestres da área, como Henri Cartier­Bresson, perplexos e encantados.

Além dessas imagens, houve aquela que eternizaria o trabalho do fotógrafo ­ a de um relógio de pulso em primeiro plano, marcando a hora exata em que os tanques russos começavam a tomar as ruas e acordar a cidade atônita. Eram seis horas e dois minutos da manhã. Ao fundo, uma alameda deserta, à espera do pior.

Koudelka passou uma semana saltando de evento para evento, documentando tudo, até que foi avistado na janela de um edifício e confundido com um atirador. Ele escapou da polícia, mas perdeu alguns filmes, que afinal foram parar no exterior.

Essas imagens da Primavera de Praga pisoteada pela União Soviética correram o mundo. Mas o autor das fotografias permaneceu anônimo até 1984. Koudelka temia represálias contra os familiares. Ele mesmo conseguiria escapar do país em 1970, depois de obter um visto temporário de trabalho na Inglaterra, onde pretendia fotografar outros ciganos. Nunca mais fez nenhuma imagem de fotojornalismo. E, no entanto, suas fotografias da invasão de Praga pelas tropas do Pacto de Varsóvia estão mais vivas do que nunca.

Grandes amigos

O Museu da Imagem e do Som (MIS) exibiu algumas delas no ano passado. Mas é no museu J. Paul Getty, no Getty Center, em Los Angeles, que se encontra até 22 de março a mais completa exposição de trabalhos do fotógrafo (o museu, em si, nas colinas da cidade, já é uma obra de arte a céu aberto e vale uma visita demorada). O nome da exposição diz tudo: “Nationality Doubtful”, nacionalidade duvidosa. Era isso que os funcionários da alfândega inglesa escreviam nos papéis do fotógrafo, depois que ele perdeu o passaporte num “fish and chips” de Londres.

Nada mais adequado para um homem que perambulou pelo mundo usando as estrelas como cobertor e levando apenas roupa de baixo, meias, duas câmeras, um diário, mapas e filmes. A exposição revela o trabalho obsessivo do artista, sua intransigência, sua ética quase puritana: as imagens não mentem.

Curiosamente, o humor não faz parte do pacote. As fotos de Koudelka parecem feitas por um asceta. O apelido do fotógrafo entre os colegas da Magnum era “Saint Josef”. Da mesma forma, tal pureza esconde a cara do artista, que nunca aparece, ocultando­se decididamente atrás da máquina fotográfica e deixando apenas que o pulso com um relógio fale por si.

“Nationality Doubtful” reúne os pontos mais luminosos de uma carreira aventurosa. Não foram só os ciganos da Romênia, os habitantes de Praga, os atores da cena teatral da cidade e os exílios possíveis que chamaram a atenção do fotógrafo. Ele também manteve os olhos bem abertos para paisagens vastas e desoladas, fotografando­as em panorâmicas que fizeram Cartier­Bresson surpreender­se diante de um lote delas, espalhado pelo chão: “Mas onde estão as pessoas?” Koudelka e Cartier­Bresson, aliás, foram grandes amigos. E amigos de Koudelka estão por toda parte, desde que ele se associou à Agência Magnum, ainda em 1975, e correu o mundo escorando­se na hospitalidade deles.

Aos 77 anos, o fotógrafo ainda é um incansável perseguidor de imagens que nunca precisaram de palavras para expressar a sua força.

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Cadão Volpato, para o Valor Econômico, em Los Angeles

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