Sábado, 06 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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A diferença no discurso sobre protestos

Por Anderson David Gomes dos Santos em 15/02/2011 na edição 629

Escrevi neste Observatório como a grande mídia trata os protestos: bons apenas quando distantes no tempo e no espaço (ver ‘Para a mídia, protestos só à distância‘). Na sexta-feira (12/2) pude comprovar a diferença quanto a manifestações próximas nas edições dos jornais impressos diários alagoanos.

Na quinta-feira (11), membros de quatro movimentos de trabalhadores rurais sem-terra (CPT, MST, MLST e MTL) se uniram num protesto contra, em especial, as decisões da Vara Agrária em despejar, somente neste ano, 1.283 famílias em assentamentos do estado – mesmo nos casos em que as famílias já estavam assentadas há mais de cinco anos, com plantações desenvolvidas. Os movimentos fecharam, durante a manhã e boa parte da tarde, a entrada do porto de Maceió como uma forma de chamar a atenção do poder público, que teria se aproveitado do início do ano para tomar atitudes que os movimentos qualificaram como truculentas. Num período em que, também, há a chegada de cruzeiros turísticos e o transporte de açúcar para a exportação.

Destaque para os prejuízos

Dois dos três jornais impressos diários alagoanos destacaram este assunto com a principal manchete das suas capas da edição da sexta-feira (12/2), com direito a fotos em que há o destaque para a presença policial na manifestação, como que numa maneira de qualificá-la como criminosa. Sobre isso, Charaudeau (2009, p. 39) nos diz que:

‘Comunicar, informar, tudo é escolha. Não somente escolha de conteúdos a transmitir, não somente escolha das formas adequadas para estar de acordo com as normas do bem falar e ter clareza, mas escolha de efeitos de sentido para influenciar o outro, isto é, no fim das contas, escolha de estratégias discursivas. […] É, pois, impossível alegar inocência. O informador é obrigado a reconhecer que está permanentemente engajado num jogo m que ora é o erro que domina, ora a mentira, ora os dois, a menos que seja tão-somente a ignorância.’

A Gazeta de Alagoas, periódico com maior circulação no estado e pertencente à família do senador e ex-presidente Fernando Collor de Mello, fez questão de destacar na capa os transtornos que teriam sido causados pelo movimento. Sob o título de ‘Ato de sem-terra fecha o porto’, a legenda da foto que ocupou de um lado a outro da página veio desta forma:

‘Cerca de dois mil integrantes de movimentos sem-terra, como MST e CPT, provocaram transtorno e prejuízo ontem em Maceió ao impedirem o acesso e a saída de cargas do porto. A polícia cercou o local e tentou negociar a desocupação da entrada da área. Depois, eles se juntaram a servidores estaduais em protesto contra o governo.’

Podemos destacar algumas coisas disso. Além do tamanho ocupado pela foto e também da sua legenda, em nenhum momento se explicou o motivo do protesto. Afinal, ninguém protesta por nada, à toa. A Gazeta optou por destacar apenas as consequências negativas do protesto, com destaque para a presença policial, e sequer citou os quatro movimentos presentes, citando os que seriam mais conhecidos. O outro meio impresso que destacou negativamente a manifestação em conjunto dos quatro movimentos sociais foi O Jornal. Neste caso, uma opinião contrária poderia ser esperado já que o grupo que controla o jornal, Grupo João Lyra, possui usinas, e seria prejudicado no que consta ao transporte do açúcar.

Além da foto, menor que na Gazeta, mas também a partir dos policiais, a legenda destacou os prejuízos: ‘Protesto no Porto de Maceió gera prejuízos à economia‘.

Discurso diferente

O único que não deu destaque ao protesto e, consequentemente, tampouco optou apenas pelos aspectos negativos do mesmo foi a Tribuna Independente, que é gerenciada por uma cooperativa de jornalistas e gráficos. Na metade de baixo do jornal, entre algumas chamadas para notícias, uma delas com um chapéu de Reforma Agrária e título ‘Sem-terra fazem protesto e fecham acesso ao porto’, veio com o seguinte texto:

‘A entrada do Porto de Jaraguá foi ocupada ontem pela manhã por trabalhadores sem-terra de quatro movimentos para protestar contra a violência no campo e o despejo de 500 famílias camponesas.’

Aqui podemos perceber que as informações são passadas por completo, apesar do erro na quantidade de famílias despejadas em 2011. Há causa e consequência da manifestação, com a opção de aprofundamento sobre o assunto na notícia publicada ao longo da edição.

O referencial de discurso

O acesso a meios impressos sempre foi de oportunidade restrita a determinados grupos sociais, tanto por causa das habilidades exigidas do consumidor para essa mídia quanto pelo valor a ser pago diariamente pelos jornais. O público leitor é seleto e o seu conteúdo busca atingi-lo como uma verdade dada com o factual.

O universo da informação midiática é efetivamente um universo construído. Não é, como se diz às vezes, o reflexo do que acontece no espaço público, mas sim o resultado de uma construção. O acontecimento não é jamais transmitido em seu estado bruto, pois, antes de ser transmitido, ele se torna objeto de racionalizações: pelos critérios de seleção dos fatos e dos atores, pela maneira de encerrá-los em categorias de entendimento, pelos modos de visibilidade escolhidos. Assim, a instância midiática impõe ao cidadão uma visão de mundo previamente articulada, sendo que tal visão é apresentada como se fosse a visão natural do mundo. Nela, a instância de recepção encontrará pontos de referência, e desse encontro emergirá o espaço público (CHARAUDEAU, 2009, p. 151).

Com esses exemplos, pudemos confirmar a hipótese trabalhada no artigo anteriormente publicado. Como a publicação de jornais não exige nenhum tipo de regulação quanto ao conteúdo, basta ter condições de manter a produção e impressão. O referencial de discurso ligado ao grupo proprietário do meio de comunicação tende a tomar evidência.

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Jornalista, Maceió, AL

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