Sexta-feira, 05 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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A ‘enunciação delocutiva’ de Lula

Por Verbena Córdula Almeida em 30/06/2015 na edição 857

As críticas do ex-presidente Luiz Inácio da Silva, Lula, ao próprio partido, o PT, na segunda-feira (22/06), não devem ser encaradas como um simples discurso, ou como uma autocrítica. As afirmações do petista precisam ser “lidas” a partir de uma perspectiva mais analítica, pois se trata daquilo que o teórico francês Patrick Charaudeau classifica como “enunciação delocutiva”, na obra intitulada Discurso Político (2006).

Lula foi o governante brasileiro que alcançou os maiores índices de popularidade. Em 2010 seu governo chegou a 87% de aprovação – conforme a CNT, a maior do mundo. Isso deu ao então presidente Lula um protagonismo incontestável. Embora haja governado o Brasil por oito anos consecutivos, durante os quais facilitou a concessão de crédito, reduziu impostos de montadoras de automóveis para impulsionar a venda de veículos automotores, investiu pouco em infraestrutura, entre outros fatores cujas consequências são visíveis no cenário atual. A maioria da população em geral, e da imprensa em particular, não atribui o fracasso da economia brasileira à gestão Lula; pelo contrário. Em geral, o ex-mandatário é preservado, já que as críticas à “desastrosa” situação do Brasil são direcionadas à sua sucessora, a presidente Dilma Rousseff. Uma exceção ocorreu, inclusive, nesta mesma segunda-feira, quando a comentarista de política da Globos News Cristiana Lobo, afirmou que, ao criticar o PT, o ex-presidente deveria ter feito a autocrítica porque, conforme ressaltou a jornalista, em sua administração Lula distribuiu cargos porque “era mais confortável ter aliados”.

Ao tecer críticas ao próprio partido, afirmando que o sonho fora deixado para trás, e que as pessoas que fazem parte do PT só pensam em ser eleitas e em cargos, Lula fez uma “enunciação delocutiva”, que, conforme o pensamento de Patrick Charaudeau (2006), “faz o auditório entrar em um mundo de evidência” e que, “empregada no discurso político, paramenta o orador como se fosse um soberano (grifo do autor)”. Forte candidato à sucessão presidencial em 2018, Lula necessita assegurar o seu protagonismo. E tecer críticas ao PT – que, assim como a presidente Dilma Rousseff, encontra-se em “queda livre” no que se refere à confiabilidade da população e do eleitorado –, pode significar para ele o respaldo de que necessita para voltar à cena eleitoral, com êxito.

O contrato de comunicação política

Ao afirmar que “O PT está velho”, ou que o partido “perdeu um pouco a utopia”, o ex-mandatário aparece como aquele que sabe o que fazer para realinhar o partido ao seu antigo programa, com o qual venceu as eleições por primeira vez. Faz dele (Lula, o orador) “portador de uma verdade estabelecida”, uma marca da enunciação delocutiva, conforme Charaudeau. O ex-presidente “esqueceu-se” de afirmar, no entanto, que a utopia a que se referiu foi abandonada antes mesmo de ele se eleger por primeira vez presidente do país. As alianças com os neoliberais – entre os quais o vice-presidente eleito José Alencar – já davam indícios de que a administração petista não seria aquela que figurava no programa original do Partido dos Trabalhadores.

De acordo com Charaudeau (2006) todo em ato discursivo o objetivo é aquilo que se enuncia, ou o propósito que se tem ao se apropriar da palavra. E é exatamente isso que o ex-presidente Lula pretende: alavancar o seu projeto para 2018, fazer reviver o PT de outrora, o partido que ajudou a fundar, com o qual saíra grande vitorioso em 2002 e 2006. Ou, talvez, lançar-se por outra sigla partidária. Só o tempo dirá. O fato é que, tecer críticas ao Partido dos Trabalhadores põe Lula na posição daquele que constrói uma “figura de grandeza” (CHARAUDEAU, 2006, p. 179). Essa atitude pode ser analisada, também, como “um dispositivo do contrato de comunicação política” que é, de certa forma, “uma máquina de forjar discursos de legitimação que constroem imagens […] que reforçam a legitimidade da posição de poder” (CHARAUDEAU, 2006, p. 61-62); posição da qual o ex-mandatário petista não tem a intencionalidade de se desprender, e, por isso mesmo, precisa defender valores históricos, porque isso poderá contribuir para que ele possa (re)compor um “ethos de potência” rumo a 2018.

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Verbena Córdula Almeida é doutora em História e Comunicação no Mundo Contemporâneo pela Unversidad Complutense de Madrid e professora adjunta da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) – Ilhéus, BA

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