Sexta-feira, 14 de Agosto de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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FEITOS & DESFEITAS >

A informação perde cada vez mais espaço

Por Renato Oliveira em 12/12/2006 na edição 314

Dias atrás vimos mais um exemplo de como a mídia apresenta à sociedade o que e como devemos pensar. O caso da modelo Ana Carolina Reston Marcan, vítima de anorexia, foi mais um demonstrativo de como, cada vez mais, a grande impressa brasileira (e todas as outras que se alimentam dela) insiste em seguir modelos estereotipados de se fazer jornalismo e confundem cada vez a cabeça dos que tentam entendê-la.

O tema estampou não só todos os jornais e telejornais da semana como a capa das revistas Época, Veja e IstoÉ, com direito à mesma foto nas duas últimas. Ao curioso coube uma pergunta antes de escolher qual revista comprar: qual delas me dará alguma informação nova? Sim, o atento leitor já sabe que todas terão fotos trabalhadas em arte digital e infográficos apresentando estatísticas da anorexia no Brasil e no mundo, além de sábios conselhos de especialistas, sem contar, é óbvio, um tapa no tema central. Para quem não sabe, tapa na gíria significa serviço rápido, para melhorar a aparência do original.

A discussão sobre vícios de pauta ficaria restrita às rodas acadêmicas, não fosse pelo sábio comentário de uma menina apressada, de aproximadamente 12 anos, ao falar com o pai que insistia em folhear, indeciso, cada uma das três revistas: ‘Vamo, vamo! Leva qualquer uma, é tudo a mesma coisa…’ Talvez aquela garotinha fosse uma estudante de Jornalismo precoce.

Era costume ler nos jornais críticas, muitas vezes ferozes, à maneira como alguns programas de TV exerciam o jornalismo: ‘sensacionalistas’, ‘imprensa podre’; alguns insistiam em dizer que não se podia enquadrá-los na categoria de imprensa. Lembram-se do Aqui Agora? A questão é que não vejo muita diferença entre esse padrão e os telejornais populares que invadem nossas residências todos os dias com matérias de meia hora via helicóptero. Afinal, não é neles que o locutor em vez de falar se esgoela? Não é aí que são apresentados sempre temas explosivos, em que matérias de um minuto viram redundâncias até a hora da novela? Lembrem-se do vôo da Gol.

Talvez a diferença esteja na qualidade do serviço prestado à comunidade, esclarecendo os monstros que podem atormentá-la. Esse tipo de pauta aparece como um foguete e some na mesma velocidade. Explico: é que não consegui ver nesse emaranhado de folhas algo que me convencesse de que a anorexia apareceu nas páginas dos jornais e revistas como problema de saúde pública. O que mais irritou foi a incapacidade da mídia de fazer um link do assunto com o de tantas outras pessoas ‘normais’. A mim, a você e qualquer um que faz sacrifício para ganhar um lugar ao sol na profissão escolhida, seja de advogado, médico ou jornalista.

Nas redações

Ana Carolina tinha anorexia, mal parecido com o da bonequinha da novela das oito, a bulimia, sem contar o fato de que histórias de modelo estão na moda e sempre rendem ibope. Ainda mais modelo internacional que posou para grandes grifes… Pergunta: a pauta então era Ana Carolina ou a anorexia? Um doce para quem adivinhar.

Não me chamem de monstro antes da hora. É claro que considero essa doença um problema que merece discussão, é assunto de interesse público. Mas o motivo apresentado pela mídia talvez tenha sido a tão conhecida variante desse termo: o interesse do público. Falar da história da linda jovem vítima do fanatismo fashion cativa mais que uma doença que afeta constantemente milhares de pessoas, e não só modelos.

Seria o tal do furo, jargão jornalístico popular até para quem não é do meio? Se não, onde ele foi parar? Ouvi certa vez que não existe mais furo em telejornais, que se limitam a investigar matérias de revistas. Pelo visto, em algum tempo não existirá mais furo em imprensa alguma. Os vícios da pauta são estudados e discutidos apenas nos cursos de Comunicação, até que nas redações se pratique realmente tudo o que estuda na universidade. Se não pensarmos em outras formas de fazer jornalismo, chegará o dia em que qualquer criancinha de 5 anos poderá detalhar as maneiras de se pautar um assunto na mídia.

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Estudante de Jornalismo, São Paulo

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