Segunda-feira, 10 de Agosto de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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CIêNCIA >

A Terra muda, o homem não

Por Julio Ottoboni em 12/12/2006 na edição 315



Pra provar, por B mais H/ que o homem, animal suicida,/ já sabe fabricar estrelas…/ Se é que Deus disto duvida’. (Cassiano Ricardo, in O Cactus)


As mudanças climáticas globais são estão em curso. Assim o planeta reage e responde ao homem em sua parca percepção universal. Enquanto isto os governos discutem sobre o ambiente como commodities e o relegam como condição essencial à vida. Esquecem-se, porém, de tudo e todos que habitam essa rocha espacial presa a um movimento elíptico por forças gravitacionais, 71% coberta por água, envolvida por uma atmosfera redutora e hospedeira de uma pequena lua que consegue estabilizar seu eixo em 23 graus 26 segundos.


Combinações aleatórias que possibilitaram a vida, os ciclos em seus 4,5 bilhões de anos de existência até a chegada deste momento. Entretanto, algo ainda muito longe dos que só conseguem vê-la sob o ângulo capitalista desenvolvimentista, mas em contraponto tão perto do olhares dos que a vêem pelo prisma da vida.


Cretinice grotesca


Essas contradições da sociedade moderna chegaram ao jornalismo. Esse exercício profissional, um dos pilares dos sistemas econômicos criados pelo homem social, vê-se atônito diante de seus comprometimentos e de sua latente crise de percepção.


Nesta nau sem rumo, derivando pelos oceanos da inconstância e por vezes nas águas da ignorância, aguarda – como muitos – a data, local e horário do evento apocalíptico. A conseqüência são coberturas de eventos político-científicos desconexas, superficiais. Como se dali, em algum momento, fosse se convocar uma coletiva de imprensa para anunciar o dia fatal.


Nossa capacidade como comunicador social está proporcional a nossa mediocridade em analisar o contexto em que vivemos a dificuldade de vermos o planeta como algo único, com seus sistemas naturais intimamente interligados, sem a existência fronteiras políticas, comerciais e ideológicas. Qualquer forma de observar a Terra sem sua unicidade é cretinice grotesca.


Atrás do profeta


Vivemos, como jornalistas, o conflito dialético. Por um lado paira a dúvida se devemos romper com a comodidade de ver o mundo pelos estreitos horizontes do cotidiano? Ou mergulharmos na ampla e incômoda complexidade gerada pela diversidade de cenários, principalmente no segmento científico, e interesses envolvidos na questão ambiental, numa aventura aos grotões do desconhecido?


Podemos até identificar tese, antítese, mas quando chegamos à síntese esperamos passivamente. Quem sabe pela força do hábito aguardamos o surgimento de uma fonte e essa assuma a responsabilidade pelo discurso sobre o futuro planetário. Isto nos conferia a redenção, pois retornaríamos a simples e digna condição de tradutores da realidade – mesmo que o conceito de realismo esteja totalmente subvertido.


Ao longo do tempo, principalmente os que acompanham com maior rigor crítico a veiculação pela imprensa das questões de cunho ambiental, fica evidente que o jornalista não busca neste universo encontrar apenas um cientista e suas hipóteses, mas sim um profeta. Rejeitamos o caótico, a profusão de eventos aleatórios sem controle e suas conseqüências. Estudos sob essa ótica não nos interessam. Cravamos nossos esteios no falso pragmatismo, exigimos respostas e soluções.


Mais fortes e furiosos


Surgem sobre a face desta Terra novos eventos naturais que desafiam o conhecimento de seus 6,5 bilhões de humanos. Enfim essa mutação ruma ao desconhecido. ‘O clima da Terra está se comportando de maneira completamente diferente de qualquer padrão passado no planeta e por isso é quase impossível saber como ele vai se comportar no futuro’. Informou um dos mais conceituados cientistas brasileiros do mundo, Luiz Gylvan Meira Filho à reportagem da BBC na Conferência do Clima, em Nairobi, no Quênia.


Basta argumentar sobre os espaços dados com boa parte dos profissionais de imprensa para se ter uma resposta pronta. Ou já será um jargão do jornalismo de alienação? ‘Mas a quem interessa isto? O problema é o trânsito caótico, a estagnação do crescimento econômico do país, a crise e escândalos nos poderes, as malditas contas para pagar, o seqüestro do empresário, a violência urbana e tantos outros fatos que tangem diariamente o cotidiano das pessoas. Isto sim é notícia’.


Esse é o conceito que rege as redações. Nosso umbigo é mais importante que a existência do homem quanto à espécie sobre a face desta rocha achatada nos pólos, atualmente em degelo. Mesmo que surja a previsão meteorológica mostrando um volume maior de furacões em 2007 em todo Oceano Atlântico, além de mais fortes e furiosos.


Evolução geológica


O relatório inglês ‘A economia da mudança climática’, divulgado no dia 30 de outubro de 2006, mostrou que o aquecimento global causará impactos na economia mundial. Um alerta do autor, o economista e ex-chefe do Banco Mundial Nicholas Stern, sob encomenda do Ministério da Fazenda britânico. Entre outras coisas, o Relatório Stern ressalta que o aumento da temperatura, o mundo poderá perder de 5% a 20% de sua atividade econômica já no próximo século. Pouco, se comparado o que nos esperam nos próximos anos. O documento revela que a elevação do nível dos oceanos desalojará cerca de cem milhões de pessoas, as secas afetaram uma pessoa em seis com escassez de água e haverá a extinção de até 40% das espécies animais.


Os estudos desenvolvidos numa parceria entre o Programa de Meio Ambiente da Organização das Nações Unidas e instituições financeiras privadas, os prejuízos causados por condições meteorológicas extremas podem ultrapassar a casa da US$ 1 trilhão em um único ano até 2040. Neste momento os alertas ambientais deixam de ser ‘catastrofismo da neo-esquerda’ ou ‘sensacionalismo apocalíptico’ como adjetivam dirigentes de grandes multinacionais e governos.


Apenas uma coisa é certa. A Terra se adequará às novas condições, pois isto faz parte da evolução geológica desde seu surgimento e possibilitará novas espécies de habitarem seu dorso azulado. E seguirá sua rota espacial por quantos bilhões de anos o caos universal permitir. Já o homem – imagem e semelhança do criador – terá de provar por B mais H que já sabe fabricar estrelas e planetas… se é que Deus disto duvida!

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Jornalista, pós-graduado em Jornalismo Científico

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