Domingo, 31 de Maio de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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A tragédia do Rio de Janeiro é um alerta

Por Luiz Carlos Santos Lopes em 01/02/2011 na edição 627

A Folha de S.Paulo publicou uma reportagem de Evandro Spinelli, na edição de 15 de janeiro de 2011, segundo a qual o governo do Rio de Janeiro foi alertado desde 2008 sobre os riscos de desastres na região serrana do estado. Os dados do relatório, como diz Spinelli, apontavam a necessidade de ‘mapear áreas de risco e sugeriu medidas como a recuperação da vegetação, principalmente em Nova Friburgo, que tem maior extensão de florestas. Quanto a Petrópolis e Teresópolis, o estudo informou que as cidades convivem com vários fatores de risco diferentes – boa parte da área urbana em montanhas e planícies fluviais – e podem ser atingidas por desastres `capazes de gerar efeitos de grande magnitude´’. Portanto, não faltaram avisos sobre a iminência das catástrofes.

O mais incompreensível é que o estudo foi encomendado pelo próprio governador, sem que ele e os gestores das cidades atingidas tomassem quaisquer medidas preventivas para impedir os desastres. E o resultado aí está – uma tragédia que, até agora, contabiliza mais de 800 mortos e inúmeros desaparecidos. Não é a primeira vez, nem será a última, que nesta época do ano os temporais castigam aquelas regiões do estado fluminense, e muitas tragédias aconteceram ali por conta disso. Mas, ao longo dos anos, os poderes constituídos cariocas, movidos por interesses nebulosos e ideologias enviesadas, permitiram e incentivaram invasões desordenadas em áreas de risco, até em locais de preservação ambiental – lugares impróprios para edificações de casas – em troca de votos.

A diferença entre político e estadista

E nós, baianos, podemos passar pela mesma dolorosa experiência que nossos irmãos cariocas? A história registra que sim. Aqui, em Salvador, nos idos de 1813, ‘(…) a ribanceira, que se eleva em frente do trapiche do Barnabé ao Pilar, desabou de improviso com tal porção de terra e com tal ímpeto que só escapou aquela metade do trapiche que demora para a banda do mar. A rua ficou entulhada de um grande monte de terra e do arvoredo que cobria a ribanceira, e as casas que faziam o frontispício do trapiche ficaram demolidas. Morreram algumas pessoas que neste momento passavam pela rua; e das que habitavam as sobreditas casas mui poucas escaparam…’

Os dados são do livro A primeira Gazeta da Bahia: Idade d´Ouro do Brazil (2005, p. 50-51), da professora Maria Beatriz Nizza da Silva. Dois fenômenos contribuíram para o desastre, segundo a autora: as chuvas torrenciais que desabaram na capital baiana naquele ano e a ocupação indevida das escarpas da cidade. Só depois do acontecimento as autoridades de então despertaram e proibiram novas construções naqueles lugares.

O tempo passou e com ele se foram as lembranças do trágico acidente. Os governantes baianos atuais talvez estejam à espera que outros cataclismos voltem a se repetir e fazem vista grossa para as ocupações desordenadas em todos os cantos da cidade – em especial nas encostas. Um tipo de terreno que não oferece a menor segurança a quem busca construir um lugar para morar, como informam os especialistas. E as invasões pipocam por todos os lados em Salvador, inclusive uma perigosamente instalada sobre o túnel Américo Simas, exatamente nas cercanias de onde aconteceu a calamidade do início do século 19. Nenhum político se lembra que os fenômenos causadores daquele sinistro continuam tão ativos quanto antes: as chuvas, que se repetem todos os anos; e as apropriações desordenadas do solo urbano, que eles (os políticos) permitem.

A tragédia da região serrana do Rio – lamentavelmente – serve de alerta para os gestores municipais de Salvador, que não discutem o assunto, nem se lembram que o tema é do interesse de toda a população soteropolitana, ansiosa para ter de volta a beleza, a singularidade e a segurança de sua terra. Um lugar em que todos possam viver sem que o cidadão precise morar dependurado nos morros, sem conforto, sem higiene, expondo suas vidas e a dos outros a perigos constantes. O descaso dos poderes constituídos brasileiros com as grandes cidades fortalece a formulação de um conceito elaborado por James Freeman Clarke (1810-1888) sobre a diferença entre um político e um estadista. O político, diz ele, é aquele que só pensa nas próximas eleições; o estadista, nas próximas gerações…

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Jornalista, Salvador, BA

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