Quinta-feira, 28 de Maio de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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As lições de Michelle Obama

Por Ligia Martins de Almeida em 22/02/2011 na edição 630

As revistas femininas teriam muito a aprender – se estivessem minimamente preocupadas – com mulheres como a primeira dama norte-americana, Michelle Obama. Ela foi notícia, semana passada, por aparecer no programa de televisão Today Show usando um vestidinho preto de 60 dólares (pouco mais de cem reais). Como tudo que Michelle Obama usa vira notícia nos Estados Unidos, o falatório rendeu notícia até no Brasil. E o jornal O Estado de S. Paulo foi além: publicou, no sábado (19/02/2011), uma matéria interpretando para as leitoras brasileiras o fast fashion à la Michelle Obama. Usando como modelo uma moça alta, magra (o tipo físico da primeira-dama uns 20 anos atrás), o jornal apresenta três roupas completas, incluindo um visual ‘noite’, montado com roupas encontradas em lojas de departamentos e até nas seções de moda de um supermercado.

A matéria, que não deveria ser exceção, mas estar presente sempre nas revistas, traz duas surpresas: a imprensa montar um belo visual com preços acessíveis e o fato de que é preciso uma primeira-dama comprar em lojas de departamentos, lá nos Estados Unidos, para um jornal brasileiro despertar para o assunto.

Ao contrário da mídia americana, que fala bem dos esforços de Michelle para mostrar às mulheres americanas como diminuir os gastos com roupa e ao mesmo tempo incentivar a indústria de moda nacional, aqui no Brasil a imprensa só dá ênfase ao assunto para reclamar. Foi assim, por exemplo, quando Dilma Rousseff escolheu, para o dia da posse na Presidência, uma roupa feita por sua costureira. Teve que prometer, dias depois, à indústria da moda, que iria prestigiar os estilistas brasileiros (por estilistas, entenda-se as grifes que têm espaço garantido nas revistas de moda da Classe A ou AA).

Camiseta branca faz milagres

Ao reclamar que a presidente deveria ter prestigiado a moda brasileira (como se uma costureira não fosse capaz de produzir moda), os ‘fashionistas’ esqueceram um pequeno detalhe: uma mulher do tamanho da nossa presidente dificilmente vai encontrar, nas araras dos criadores de moda de renome, uma roupa que fique bem numa mulher que não tem a silhueta dos sonhos dos ‘fashionistas’. Desse ponto de vista, Michelle Obama – alta e magra – não encontra dificuldades. Em qualquer loja de departamento nos Estados Unidos, ou até mesmo nos ateliês de alta costura, as roupas parecem feitas sob medida para ela. Mesmo que não fosse alta e magra, também poderia escolher, nas grandes lojas, entre as seções para mulheres ‘normais’ (manequins de 44 a 50, no caso americano) ou petits, que – magras ou gordas – encontram roupas no seu tamanho exato.

A matéria do Estadão, ilustrada por sete roupas (com preços que vão de 20 reais a 69,90 reais) traz declarações de ‘fashionistas’ (a expressão adotada para designar pessoas que lidam com moda). A tendência sugerida pela primeira-dama americana, no entanto, não encontra defensores entusiasmados no Brasil. Como disse a publicitária Cris Guerra: ‘O preço é a nova grife, uma nova chancela para a roupa. Comprar em loja de departamento virou cult. É mais um modismo. É bacana comprar barato, mas não dá para ser escravo disso. O preço da roupa tem um sentido.’

Se não dá para ser escravo de preço, as revistas especializadas deveriam lutar para não serem escravas de grifes. Se pensassem um pouquinho mais nas leitoras, poderiam prestar um grande serviço mostrando como se vestir bem gastando menos. Como dizia Costanza Pascolato, editora de Moda de Claudia nos anos 1980, uma camiseta branca combinada com os acessórios corretos faz milagre em qualquer visual.

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