Sábado, 08 de Agosto de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Barbeiragem em matéria sobre acidentes nas estradas

Por Roberto Takata em 12/12/2006 na edição 314

A edição do quinta-feira (7/12) do Jornal da Globo reportou um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sobre acidentes nas estradas divulgado em 3/10/2006 – na ocasião de um seminário sobre o tema.

É um tópico relevante, sem dúvida, envolvendo perdas pessoais, sociais e econômicas de grande monta. A reportagem destacou as cifras representadas pelos prejuízos econômicos envolvidos. E também apontou que os jovens são as maiores vítimas nas estradas brasileiras.

Mas o que chama a atenção é a barbeiragem cometida na interpretação dos números dos acidentes segundo as condições de direção. Diz a reportagem:

‘É que, ao contrário do que se pensa, a maioria dos acidentes nas estradas não acontece à noite, e sim durante o dia, com tempo bom e em pistas de mão única. O estudo do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea), do Ministério do Planejamento, mostra que menos da metade dos acidentes acontece em estradas de mão dupla. O índice à noite não chega a 40%, e em apenas 20% dos casos estava chovendo.

‘A pesquisa mostra ainda que o cansaço nem sempre é o responsável. Os acidentes mais freqüentes são com motoristas dirigindo há no máximo uma hora. Segundo a Polícia Rodoviária Federal, é a imprudência a principal causa.’

Mais seguro

Menos da metade dos acidentes acontece em estradas de mão dupla? E que fração das viagens passa pelas estradas de mão dupla? Menos de 40% dos acidentes ocorrem à noite? E que fração das viagens é feita no escuro? Em apenas 20% dos casos estava chovendo? E qual a fração das viagens feitas sob chuva? A maioria dos acidentes acontece em até uma hora? E qual a fração das viagens que duram mais de uma hora?

No sistema Anchieta-Imigrantes, em fins de semana prolongado, passam 8 mil carros por hora rumo ao litoral quando o tempo está bom. Em dias de chuva o movimento chega a apenas um décimo. Se essa proporção de movimento puder ser extrapolada para as estradas em geral, menos de um onze avos de carros se envolvendo em um quinto dos acidentes indicaria exatamente que em dias de chuva as chances de acidentes aumentam. (É menos de um onze avos porque os dias de chuva são menos do que 50%.)

Sem esses dados, o JG induz a se pensar que é mais seguro viajar à noite, cansado, em estrada de mão dupla e sob chuva. É a velha piada – ‘23,3% dos motoristas que se envolvem em acidentes estão alcoolizados; isto é, 77,7% dos motoristas acidentados não ingeriram uma gota de álcool; logo é muito mais seguro dirigir sob efeito alcoólico’.

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Mestre em Biologia

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