Sábado, 06 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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FEITOS & DESFEITAS >

Com palavras ou sem elas

Por Deonisio da Silva em 15/02/2011 na edição 629

A palavra caricatura procede do italiano caricatura, do verbo caricare, exagerar. Designa a representação deformada de imagem ou ideia. Firmou-se como gênero nos séculos 18 e 19, com a popularização da imprensa, mas vinha sendo praticada por grandes pintores, desde os séculos 16 e 17, que na verdade foram os fundadores do gênero. Gianlorenzo Bernini e Tiepolo foram caricaturistas, assim como Picasso e Monet.


No Brasil, o primeiro caricaturista foi Manuel José de Araújo Porto Alegre, que estudara pintura com Jean Baptiste Debret, o grande autor francês de gravuras sobre paisagens, usos e costumes de nosso país, reunidas em Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, publicado na França em 1831, quinze anos depois de ele ter vindo para o Brasil integrando a Missão Artística Francesa, organizada a pedido de Dom João VI.


Uma de suas obras serviu para definir cores e formas da bandeira adotada pela República, ainda em 1889. Com a queda de Napoleão, artistas franceses ficaram sem o apoio financeiro que recebiam. Uma parte deles foi para a Rússia, a pedido do czar Alexandre I. Outros, como foi o caso de Debret, vieram para o Brasil. Quem organizou a Missão foi o Conde da Barca, proprietário da tipografia utilizada para Dom João VI fundar a Imprensa Régia. Aliás, o conde morreu no prédio da Imprensa Régia, onde morava.


Carregar nas tintas


O Brasil teve também primeira mulher caricaturista do mundo, Nair de Tefé, primeira-dama entre 1913 e 1914, por ser esposa do marechal Hermes da Fonseca. Ela publicou seus primeiros desenhos na revista Fon-Fon, sob o pseudônimo de Rian (Nair de trás pra frente). Ao casar-se com o presidente da República, parou de fazer caricaturas, mas voltou a fazê-las aos 73 anos.


Nair morreu no Rio, em 1981. Era 31 anos mais nova do que o marido, sobrinho do Marechal Deodoro da Fonseca. Dava saraus no palácio, onde recebia Chiquinha Gonzaga e foi grande incentivadora da música brasileira, mas isso não impediu que Rui Barbosa fosse um de seus mais ácidos críticos, dizendo que ela rebaixava os costumes presidenciais.


Há uma grande linhagem de caricaturistas brasileiros. Desde 1836, quando Manuel de Araújo Porto Alegre publicou a primeira, grandes nomes praticaram o gênero. Muitos dos que renovaram a caricatura estão aí na ativa: Millôr, Lan, Chico Caruso, Loredano, Cláudio Paiva, Angeli, Jaguar, Dante Mendonça (catarinense radicado no Paraná), o gaúcho Santiago etc.


Numa caricatura do século 19, Dom Pedro II é recebido num Congresso Internacional acompanhado de um escravo. Ao ser impedido de entrar com aquela companhia, argumenta que é o escravo quem o veste, alimenta e cuida de tudo para o monarca. O anfitrião diz que se é assim, todos haverão de compreender as razões de tão esclarecido e bondoso imperador.


A caricatura é mais conhecida hoje por charge, palavra de origem francesa, ligada ao verbo charger, carregar. Quem caricatura carrega nas palavras, tintas e traços, mas ultimamente há alguns excessivamente indulgentes com certos poderosos.

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Escritor, doutor em Letras pela Universidade de São Paulo, professor, pró-reitor de Cultura e Extensão da Universidade Estácio de Sá, do Rio de Janeiro e autor de A Placenta e o Caixão, Avante, Soldados: Para Trás e Contos Reunidos (Editora LeYa)

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