Terça-feira, 04 de Agosto de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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FEITOS & DESFEITAS >

Defesa canhestra do deísmo

Por Jorge Alberto Benitz em 10/01/2012 na edição 676

Curiosamente, não foi em nenhum e-mail da internet que ouvi a mais canhestra e absurda defesa do deísmo, que agora voltou com toda a força. Foi em um Café Filosófico, sofisticado e culto programa da TV Cultura que passa nos domingos à noite, às 23 horas, e naquele dia teve como protagonista o escritor e professor universitário Felipe Pondé (também psicanalista e doutor em Filosofia), que não só está se destacando na defesa do deísmo como na defesa de todo o kit ideológico conservador e reacionário posto a disposição pelo deus-mercado. É o típico caso de alguém que cultua duas divindades aparentemente antagônicas que se fundem no fundo em um ponto: o ódio explícito aos ateus, à esquerda e a seus intelectuais.

Com este perfil, nada mais natural do que ser alçado ao posto de formador de opinião em jornalões e palestrante de entidades empresariais que hoje se autointitulam defensoras da liberdade e que são as mesmas que ontem, durante a ditadura, bancavam os usurpadores da liberdade. No fundo, são entidades na sua maioria comandadas por herdeiros interessados apenas na defesa de seus direitos e privilégios que ficam encobertos pelo manto da nobre palavra liberdade.

Grata surpresa

Voltando à sua performance no referido programa e à questão do deísmo que me moveu a escrever este comentário: na sua fala marcada por sarcasmo, ironia e gracejos mis, havia toda uma desconstrução do ateísmo com argumentos os mais variados possíveis e pretendendo demonstrar racionalidade e erudição superior aos seus oponentes. Vindo de uma mente com cultura privilegiada, era inegável a qualidade e a quantidade dos argumentos críticos do ateísmo arrolados por Felipe Pondé.

Inegável, ao meu juízo, até o grand finale, quando “desandou a maionese”. Por que digo isso? Porque ele culminou o seu raciocínio comentando de que ter fé era, enfim, mais do que justificável já que, na dúvida (ele tem dúvida?), a decisão mais sábia era crer considerando que, em caso contrário, corria-se o risco de arder no inferno o resto dos tempos. Claro que ele disse isto com ar de galhofa. Sabemos desde Freud o quanto as pessoas se entregam via atos falhos e gracejos.

Fica assim demonstrado – embora ele seja capaz de jurar de pés juntos que foi só mais um gracejo entre tantos – que o móvel principal de sua fé é o medo do sofrimento eterno no pós-morte. Para mim é um motivo chinfrim que depõe contra toda a argumentação pretensamente racional – convenhamos, é um feito construir racionalmente a defesa hoje em dia do deísmo. Tudo conspira contra. As evidências trabalham para negar esta possibilidade – que culminou no seu oposto, que é a irracionalidade centrada no sentimento de medo e temor.

Mesmo na hipótese de aceitarmos a conveniência do argumento de que é melhor crer do que correr o risco de arder no inferno, fica em suspenso uma questão que, grata surpresa, me foi posta por meu filho de 17 anos: qual Deus apostar? O Deus judaico (Elohim)? O Deus cristão? Buda? Alá? Hailé Selassié?

***

[Jorge Alberto Benitz é engenheiro e administrador de empresas, Porto Alegre, RS]

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