Terça-feira, 02 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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O preço de uma verdade

Por Bruno Rebouças em 13/03/2012 na edição 685

Se a verdade é inerente à profissão de jornalista, é justo perguntar o quanto ela vale. Pode-se responder tal questionamento tratando de cifras, o que não é o mais interessante. A verdade é o maior produto do jornalismo e da imprensa. É devido a ela que existe a necessidade da liberdade de imprensa, que abordei em artigo neste Observatório (ver aqui), e que contém duas formas. Devemos diminuir a liberdade para evitar erros? Ou devemos evitar erros para aumentar a liberdade? É claramente preferível que, mesmo com erros, a imprensa permaneça tendo mais liberdade positiva.

Nesse critério da (falta de) verdade, podemos citar um filme de ótima qualidade que aborda a história de um jornalista norte-americano que criava notícias na revista The New Republic. O preço de uma verdade (2003) traz ao público um confronto ético e moral. Moral porque a mentira ludibriava os leitores e os companheiros de trabalho do personagem Stephen Glass, vivido por Hayden Christensen. Ético porque dentro dos seus costumes estava a falta de compromisso com a verdade, que é de suma importância ao desenvolvimento da carreira jornalística.

As reportagens de Stephen fizeram muito sucesso entre os leitores da revista, fazendo dele um astro dentro das redações nos Estados Unidos. Baseado em fatos reais, o filme apresenta um exemplo marcante da ética no jornalismo. Considerado um dos pilares da democracia, o jornalismo não pode aturar a mentira, pois ela expõe toda a categoria, pondo em xeque até mesmo a função profissional perante ao público. A ascensão de Stephen Glass entra em declínio quando é contratado um novo editor que depara com um artigo-denúncia da revista Vanity Fair questionando a veracidade de algumas reportagens feitas por Glass na semanal The New Republic.

A verdade mascarada pela credibilidade

O editor é o personagem de Charles Lane, vivido por Peter Sarsgaard,que sofre retaliação dos outros jornalistas que começam a questionar a investigação feita por ele sobre as reportagens de Stephen, considerando-a motivo de inveja. É curioso notar que nesse momento aparece o velho argumento equívoco sobre a “liberdade de imprensa” dentro do conceito de não poder se questionar as práticas e ações de um repórter, como é o caso retratado no filme. Para provar suas suspeitas, Peter visita alguns dos cenários das reportagens de Glass, junto com ele, para provar a todos os outros jornalistas, inclusive ao ex-editor da revista, Michael Kelly, vivido por Hank Azaria,que Stephen Glass cometeu o maior e mais grave erro que um jornalista pode cometer: mentir, além de manipular, inventar histórias, fatos, fontes e cenários.

Considero esses fatos não somente um caso isolado de um jornalista, se é que ele pode ser chamado assim. Acredito que esse caso põe em foco toda a ação ética dos profissionais da imprensa/mídia. Após a descoberta das mentiras e atitudes imorais e antiéticas de Stephen Glass, a revista entra no critério da verdade e confessa as mentiras do seu ex-repórter, assumindo o erro pela não verificação e intitulando todas as reportagens que continham a fantasia de Glass em suas linhas.

Esse pedido de desculpas ao público carrega consigo a história de 20 anos da publicação que, segundo seu proprietário, no filme, nunca havia publicado uma nota de “nós erramos”. É nessa hora que avaliamos quão importante é o público. No momento em que a soberba e a autossuficiência ficam de lado e a verdade, antes mascarada pela credibilidade da publicação, aparece diante dos olhos do público, principalmente porque sai das mesmas páginas onde as histórias fantasiosas foram publicadas. No pedido de desculpas, no “nós erramos”, está explícita a história de bom jornalismo da revista The New Republic a fim de salvar sua reputação moral e ética junto ao público.

***

[Bruno Rebouças é jornalista]

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