Segunda-feira, 13 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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ENTRE ASPAS >

Mercado de publicações esportivas cresce 100% em três meses

Por Mauricio Stycer em 01/11/2008 na edição 509

Até julho de 2008, havia duas revistas e dois jornais dedicados ao universo do futebol no Brasil. O mercado parecia não apenas saturado como inelástico – e ninguém, aparentemente, apostava que seria possível ganhar dinheiro com uma nova publicação neste segmento. Da noite para o dia, a situação mudou. Em questão de dois meses, nasceram três novas revistas e foi anunciada a criação de um novo jornal, a ser lançado em dezembro. Em número de títulos, isso significa um surpreendente crescimento de 100%.


As explicações para este fenômeno são muitas e, eventualmente, complementares. A realização da Copa de 2014 no Brasil é apontada por alguns como a principal responsável pelo boom. Há quem imagine, de forma otimista, que se trate do nascimento de um novo segmento editorial. Por outro lado, há quem equipare o momento a uma bolha, que logo vai estourar. Ou pense que seja apenas uma coincidência o surgimento de tantos projetos semelhantes em tão pouco tempo.


A reportagem do iG conversou com os editores das cinco revistas – sendo que dois são também responsáveis por dois jornais – em busca de respostas para estas questões. Descobriu, logo, que a aparente cordialidade em todos os discursos esconde uma pendência que se encaminha para a Justiça.


Disputa por um título


O caso envolve o editor Sergio Quintanilha, responsável pela mais recente publicação no mercado, a revista FourFourTwo, e o empresário Walter de Mattos Jr., criador do diário Lance!‘ e da revista Fut!, lançada em agosto. Quintanilha afirma ser dono da marca Fut, sem o ponto de exclamação, e questiona na Justiça o título da revista do concorrente. Mattos argumenta que a sua revista intitula-se Fut! Lance!, embora o logotipo enfatize apenas a primeira parte do nome. Além disso, ‘não há como se falar de exclusividade de utilização da palavra FUT, que é uma abreviação muito utilizada de futebol’, defende, citando empresas (Abril, Globosat, Unilever e Coca-Cola) que também usariam a palavra em diversos produtos.


Sem a marca ‘Fut’, Quintanilha apressou o lançamento da FourFourTwo. Nascida na Inglaterra, a revista é hoje publicada sob licença em países tão diferentes, mas tão apaixonados por futebol, quanto Turquia, Noruega, Austrália e Coréia do Sul. A edição brasileira é a 14ª da publicação. O número 1 traz o português Cristiano Ronaldo na capa e reportagens que falam de David Beckham, do clássico Roma x Lazio, do fim do ‘futebol total’ holandês, do craque argentino Aguero, genro de Maradona, além de um editorial pedindo a cabeça de Dunga, técnico da seleção brasileira. Com exceção deste último texto, todos os demais são traduzidos da edição original.


‘Seria muito mais difícil entrar no mercado com um produto que fala do futebol brasileiro, que já tem muita cobertura’, diz Quintanilha, citando emissoras de tevê abertas e pagas e rádios. A sua percepção, porém, não é original. Ela está na base do lançamento, em 2006, da revista Trivela, dedicada, no início, exclusivamente ao futebol internacional. E também, em setembro deste ano, da estréia de Fut!, de Mattos, cujo número 1 traz o craque argentino Messi na capa.


‘Sem hipocrisia, acho bom’, diz Caio Maia, editor da pioneira Trivela. ‘Abre o mercado e chama a atenção das pessoas. Temos que conseguir nos diferenciar das duas para manter a nossa posição’, acrescenta. Mattos é ainda mais otimista: ‘Isso é saudável, pois exige maior competitividade dos veículos. Para o anunciante, aumenta a oferta de possibilidades de atingir o seu público com maior eficiência. E, para o leitor, nem se fala: ele se beneficia com um cardápio mais rico em atratividade e diversidade.’


Se três das novas revistas – Trivela, Fut! e FourFourTwo – miram o leitor interessado no futebol ao redor do mundo, uma quarta novata nas bancas, a Gol F.C., tem como alvo um mercado mais próximo, o futebol brasileiro, e essa forma concorre diretamente com a decana – e até recentemente soberana – Placar, nascida em 1970.


‘O mercado é grandioso e pode crescer mais ainda. Não está no seu limite’, diz, otimista, Marcos Barrero, editor de Gol F.C., lembrando que, no passado, houve uma tradição de muitas publicações esportivas no país. ‘Acho que havia um pouco de inércia e um nicho pouco explorado. Por muitos anos, predominou no mercado apenas uma publicação já quase quarentona. É uma retomada’, provoca Barrero, um ex-editor de Placar, da mesma forma que Quintanilha.


Conjuntura, Copa de 2014 ou novo segmento?


Do alto da experiência de dirigir a mais importante e tradicional publicação esportiva do país, Sergio Xavier mantém os pés no chão. Na sua visão, o lançamento de três revistas em menos de três meses pode ser explicado por conta de uma conjuntura econômica favorável – até o mês passado. ‘Tenho minhas dúvidas se estamos diante de um boom esportivo ou de uma situação econômica que favorecia novas empreitadas. Vale lembrar que todas as decisões desses negócios foram tomadas antes da crise financeira’, lembra.


Walter de Mattos, responsável pela criação do Lance!, hoje um dos dez maiores jornais do país, vê no surgimento de tantas revistas o nascimento de uma nova fase da imprensa esportiva brasileira. ‘A exemplo do que ocorreu 15 anos atrás com as revistas de celebridades, o que estamos vendo é a configuração de um novo segmento no mercado de revistas, as Masculinas Esportivas. Outros títulos irão se somar, com certeza. Isso, insisto, é bom para todos’, diz.


Caio Maia, de Trivela, é mais irônico e, também, parece mais cético. ‘Me parece que a Copa de 2014 no Brasil mobiliza as pessoas, que acham que têm que se firmar no mercado o quanto antes. Não sei também se a própria sobrevivência da Trivela não anima editores maiores, que acham que, se a gente consegue sozinho, eles também têm que conseguir.’


Diferentemente de Mattos, Maia acha que a onda é passageira: ‘Não há mercado para todo mundo, e a qualidade, em geral, é muito baixa. Poucas, se alguma, vão passar de três números’, prevê. Sergio Xavier também acha pouco provável que essa onda perdure. ‘Lemos muito pouco esporte no Brasil’, diz. ‘Poucos ficarão para contar a história. Tem sido assim no Brasil’, acrescenta.


Tiragens magras


Entre os que estão chegando, naturalmente, a visão é muito mais otimista. Marcos Barrero, de Gol F.C., enxerga na ocorrência das duas próximas copas (2010 na África do Sul e 2014 no Brasil) uma feliz coincidência a estimular o mercado editorial. ‘Os negócios do ramo – cada vez mais profissionais e globalizados – vão girar mais rápido, com cifras altíssimas’, prevê. E, como Mattos, mas com outras palavras, entende que as novas revistas dedicadas ao mundo do futebol preenchem uma nova necessidade de informação. ‘Hoje, um boleiro como Ronaldo é capa de Caras e, depois de ser removido de um subúrbio graças à bola, casa em castelo francês. É celebridade. Há um novo mundo da bola, no qual o Maracanã é Hollywood, e a imprensa precisa dar conta dele’.


Quintanilha, de FourFourTwo, fala ainda com mais entusiasmo dos reflexos da globalização no futebol. ‘Hoje, no Brasil, há muitos fãs do Cristiano Ronaldo, tantos quanto do Ronaldinho Gaúcho. Todo mundo tem um time em cada país’, diz.


É verdade que estamos falando de cinco revistas, um número que impressiona, mas é preciso sublinhar que as tiragens ainda são muito modestas. Placar, diz Xavier, fechará 2008 no azul pelo quinto ano consecutivo e apresenta vendas entre 65 mil e 75 mil exemplares mensais, contando assinaturas e bancas. Trivela, informa Maia, tem uma tiragem de 30 mil exemplares. Fut!, segundo Mattos, que ainda não fechou os dados do número de estréia, está entre 90 mil e 100 mil exemplares de circulação total e planeja uma tiragem para a segunda edição de 130 mil exemplares. Barrero afirma que Gol F.C., por ser muito recente (está no número 3) ainda não tem números consolidados. Quintanilha conta que FourFourTwo está saindo com uma tiragem inicial de 25 mil exemplares.


E o novo jornal?


Por último, mas não menos importante, o mercado de publicações esportivas se anima com a notícia do projeto de lançamento de um novo jornal – uma iniciativa da editora Abril, que publica Placar, em associação com o grupo Destak, que edita um jornal gratuito com este nome em São Paulo, entre outras quatro dezenas de cidades do mundo.


A última novidade nesta área data de 25 de outubro de 1997, quando o Lance! chegou às bancas do Rio de Janeiro. Em pouco tempo, tornou-se o principal jornal esportivo do país e, de certa forma, contribuiu para o fechamento, em 2001, de seu principal concorrente em São Paulo, a Gazeta Esportiva, e no emagrecimento de seu único concorrente no Rio, o Jornal dos Sports, hoje com tiragem de 15 mil exemplares.


O projeto da Abril está sendo anunciado publicamente como ‘experimental’. Serão inicialmente 22 edições, a partir de 10 de dezembro, de segunda à sexta, distribuídas gratuitamente com o Destak. Serão 16 páginas de jornal ‘com o jeito Placar de ver o futebol’, conta Sergio Xavier. ‘Não precisamos ser sensacionalistas, ainda bem, porque nem saberíamos ser. O jornal não precisa ser apelativo, queremos `vender´ pela qualidade, pela análise, pela clareza.’


Para ser mais do que experimental e se firmar, o projeto depende do sucesso comercial. Conta Xavier: ‘Já vendemos cinco cotas de patrocínio e o sucesso publicitário é decisivo nesse negócio. É ela que paga a conta. Se os anunciantes entenderem que o jornal está sendo bem percebido e, conseqüentemente, seus anúncios lidos, é porque deu certo. Teremos 12 pessoas diretamente envolvidas no projeto, além do apoio todo da redação da revista e da Abril em geral’.


Caio Maia, de Trivela, enxerga no projeto de jornal de Placar uma afronta clara à concorrência: ‘Há alguns meses discutimos por aqui a idéia de lançar um jornal gratuito de esportes, mas abandonamos porque o investimento certamente vai demorar para se pagar. Se a Abril e o Destak não desistirem, não tenho dúvida de que dará certo – o que, por conseqüência, vai arrebentar o Lance!. Para nós nada muda, já que buscamos um público diferente do dos jornais gratuitos’.


Principal alvo da operação, Walter de Mattos reage, como de hábito, com fair-play: ‘Novas propostas são bem-vindas, pois abrem espaços e oxigenam – ainda mais quando elas têm por trás uma empresa da tradição e seriedade da Abril. Estas movimentações fazem bem ao segmento como um todo, pois chamam a atenção das agências e dos anunciantes e arejam o mercado.’ Tomara que Mattos esteja com a razão.

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