Sexta-feira, 07 de Agosto de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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ENTRE ASPAS >

Mídia impotente e mulheres estéreis

Por Luis Peazê em 11/01/2011 na edição 624

Um marco histórico mundial, senão da humanidade, e a mídia brasileira reservou apenas notinhas de canto de página. A notícia se refere a uma conquista espetacular das mulheres, do gênero, e as próprias mulheres parecem esterilizadas, não deram nem um pequeno grito, típico de quando veem uma barata pulando na mão. No primeiro dia do ano de 2011 começou a operar oficialmente a ONU Mulheres, uma agência das Nações Unidas dedicada exclusivamente ao gênero, uma conquista que vinha sendo buscada há décadas, séculos, se contarmos o tempo de inanição das mais interessadas.

Mais interessadas, mas não deveriam ser as únicas. A humanidade enveredou errática em algum ponto da sua história e carregamos esta dicotomia absurda entre nós seres humanos, a do gênero. Os homens têm sido fortes, as mulheres frágeis. Homens penetram, mulheres acolhem, eles semeiam, elas germinam, a partir daí o homem começou a tirar o corpo fálico fora e conviver com a falsa noção de que dirigiu o mundo até aqui… Enquanto isso, a mulher foi inventando um jeito próprio de ingerir, interferir, decidir, dirigir também o mundo segundo a sua parcialidade projetada a partir desse viés oportunista – para ambos.

Fora os conceitos de forte e frágil, as últimas diferenças anacrônicas e simbólicas talvez expliquem grande parte do desvio da civilização, mas não justificam mais, em plena era da nanotecnologia, idade da engenharia genética e da instantaneidade digital, ignorar a nossa carência de unissonância – unicidade? Simples, pela metade somos indivíduos frágeis por natureza, incompletos, na pior das hipóteses. Daí, talvez, termos inventado alternativas mais complexas ainda, pois seria tão simples sermos apenas macho e fêmea, casa perfeitamente…

Burcas e turbantes sem sentido

A coisa se arrasta por milênios, mas grande parte desse nó cego é responsabilidade do capitalismo maluco nascido há pouco tempo. Batom vermelho em lábio carnudo vende, pelo menos chama a atenção e invariavelmente é tudo o que se precisa para roubar share of voice, recall, v-e-n-d-e-r. Pernas torneadas, glúteos, seios, um monte de Vênus emoldurado num tecido, continuamos utilizando uma mesma forma de vender. A maioria das mulheres continua usufruindo dessa zona de conforto.

A mídia, ainda menina desde a sua menarca em algum ponto do século 18, é responsável também, por ter apertado o nó de modo quase irreversível – irascível? Mas aposto que somente ela pode desatá-lo, ainda que tenha se transformado numa velha caduca precoce, em crise existencial, sem rumo, desregulada, desregrada, sem identidade, sem personalidade, volúvel, promíscua uma barbaridade – atualmente equilibrada sobre o hímen invisível (como os himens de verdade) entre o formato online e o tradicional.

Os jornalistas que fazem a mídia estão impotentes, disfarçam que fazem jornalismo. Vão levando. As mulheres em nosso meio, estéreis. Ambos escondidos em burcas e turbantes sem mais sentido nenhum.

Precisamos da nudez da alma, de um carnaval global dessa nudez, estampado em todos os jornais. Isso seria a melhor notícia do milênio.

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Jornalista e escritor

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