Segunda-feira, 01 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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FEITOS & DESFEITAS >

O colunista e o censor

Por Léo Nogueira em 01/02/2011 na edição 627

A censura não acabou. E, provavelmente, nunca vai acabar. Afinal, ela se manifesta de várias formas. Não é preciso um ditadorzinho para que ela aconteça. Basta o indivíduo ter algum poder e a vontade de exercê-lo pode falar mais alto do que qualquer pendor libertário. Juízes brasileiros de diversas instâncias têm praticado a censura. Políticos, idem. O caso envolvendo o atual governador do Paraná, Beto Richa, é um exemplo disso. Para quem não lembra, explico: durante a campanha ao governo daquele estado no ano passado, a coligação de Richa entrou na justiça para proibir a divulgação de pesquisas eleitorais que, aparentemente, não lhe eram favoráveis. Beto Richa, ex-prefeito de Curitiba, foi eleito.

Donos de veículos de comunicação, por meio, principalmente, de aduladores que se dizem jornalistas, também praticam a censura cotidianamente. No ano passado, a psicanalista Maria Rita Kehl foi demitida por ter escrito um texto que desagradou aos donos do jornal O Estado de S.Paulo. Ironicamente, o diário, que pune quem não comunga com o seu ideário, estampa em suas páginas que está há 546 dias sob censura (levando-se em conta a data em que este texto foi redigido, 28/1).

Populismo e esquerdismo

A censura não acontece somente nos veículos da imprensa tradicional, mas também na chamada blogosfera. Em julho de 2009, Ricardo Kotscho (ou o ‘moderador’ do seu blog) censurou um comentário de minha autoria. Um comentário em nada ofensivo, mas que talvez tenha sido impertinente. Publiquei, em 18 de agosto de 2009, um texto sobre o caso no Observatório da Imprensa (‘O caso da adoção de duas meninas‘). No dia 12 de janeiro de 2011, fui novamente censurado por um blog bastante conhecido. Reinaldo Azevedo ou, quem sabe, o responsável pela ‘moderação’ do seu blog, censurou um comentário de quem vos escreve.

O primeiro caso me surpreendeu bastante. O segundo nem um pouco. Naquela data, Reinaldo Azevedo escreveu um texto sobre as chuvas que castigavam, sobretudo, os estados de São Paulo e Rio de Janeiro (‘Os mortos que já vêm com sepultura’). ‘Um estudo sério da renda dos moradores de áreas irregulares, incluindo as favelas de São Paulo, surpreenderia muita gente. Boa parte teria condições de morar em outros locais, pagando certamente aluguel’, escreveu Azevedo.

Atualmente, trabalho na Secretaria de Desenvolvimento Social do Estado de São Paulo e posso garantir: estudos sérios sobre o tema apontam exatamente o contrário. Nem precisaria, aliás, ser uma pessoa que atua na área da assistência social para desconfiar do equívoco do autor em questão. Basta ver o preço dos imóveis e aluguéis na capital paulista e compará-los com a renda média do cidadão local. Surpreendente é alguém escrever uma bobagem dessas e ainda ser levado a sério por muita gente. Mas a realidade, nessas horas, só atrapalha, não é mesmo? Contudo, a pérola mais reluzente do texto ainda estava por vir: ‘Mas o misto de populismo e esquerdismo que impera na área impede que se faça a coisa certa.’

‘Sei que vou ser censurado’

Resumindo: a argumentação de Reinaldo Azevedo, sobretudo no trecho acima, foi tão frágil que me senti impelido a fazer algum comentário. Escrevi, mais ou menos, o seguinte:

‘Reinaldo Azevedo escreve que um `misto de populismo e esquerdismo´ impera na área (impedindo qualquer solução). Até parece que entre 1964 e 1985 tivemos no Brasil uma ditadura do proletariado (leia-se: de esquerda). Afinal, foi nesse período, principalmente, que as cidades brasileiras começaram a crescer desordenadamente, provocando um aumento do déficit habitacional e também da ocupação de áreas irregulares do país. Conhecer a história é importante para escrever sobre o presente. Honestidade intelectual também vem a calhar de vez em quando…’

Reinaldo Azevedo, ou o responsável pela ‘moderação’ do blog, deve ter ficado bem magoado com o meu comentário, pois, quase imediatamente, a minha opinião foi retirada do ar. Para mostrar que realmente fui censurado, decidi reescrever o comentário e, em seguida, ‘salvar’ a página em questão. Foi isso que fiz às 19h27 daquela quarta-feira:

‘Léo Nogueira

12/01/2011 às 19:27

Seu comentário está aguardando moderação

Rê Azevedo escreveu que um `misto de populismo e esquerdismo´ impera na área (impedindo qualquer solução). Até parece que entre 1964 e 1985 tivemos no Brasil uma ditadura do proletariado (leia-se: de esquerda). Pois foi nesse período, principalmente, que as cidades brasileiras começaram a crescer desordenadamente, provocando um aumento do déficit habitacional do país e das ocupações de áreas irregulares. Conhecer a história é importante para escrever sobre o presente. Honestidade intelectual também vem a calhar de vez em quando…’

Talvez Reinaldo Azevedo tenha ficado ofendido com a minha falsa intimidade (chamei-o de ‘Rê’). O comentário foi novamente apagado. Dois minutos depois fiz um novo comentário, quase idêntico ao anterior. Às 19h32 do dia 12 de janeiro de 2011 publiquei o meu terceiro e último comentário, muito parecido com os anteriores. Dessa vez acrescentei saber que seria, em breve, alvo de censura:

‘Léo Nogueira

12/01/2011 às 19:32

Seu comentário está aguardando moderação

Sei que vou ser novamente censurado, mas repito:

Rê Azevedo escreveu que um `misto de populismo e esquerdismo´ impera na área (impedindo qualquer solução). Até parece que entre 1964 e 1985 tivemos no Brasil uma ditadura do proletariado (leia-se: de esquerda). Pois foi nesse período, principalmente, que as cidades brasileiras começaram a crescer desordenadamente, provocando um aumento do déficit habitacional do país e das ocupações de áreas irregulares. Conhecer a história é importante para escrever sobre o presente. Honestidade intelectual também vem a calhar de vez em quando…’

Cor de sangue’

Fiquei triste com a censura. Eu gostava de Reinaldo Azevedo… É mentira. Admito: nunca gostei dele. Mas acreditava que ele pudesse aceitar comentários divergentes dos seus em seu blog (assim como eu os aceito no meu). Mas, ao que parece, naquele espaço ele só quer consenso e bajulação (parte dos seus leitores ou, talvez, súditos, o chamam de ‘Rei’). Mesmo se isso significar obscurantismo e mediocridade. Aliás, acho que é exatamente com isso que ele conta para garantir o seu emprego.

Como exemplo, listo alguns dos comentários que não foram censurados (destaque para uma tal de Sueli):

‘sueli

12/01/2011 às 19:03

`Um estudo sério da renda dos moradores de áreas irregulares, incluindo as favelas de São Paulo, surpreenderia muita gente.´

Concordo com você, Reinaldo. Os favelados são explorados por outros favelados, alguns donos de barracos nem moram na favela. Muitos invasores de favelas, invadem, constroem os barracos, vende-os e vão para outros lugares para novas invasões. São bandidos.’

 

‘sueli

12/01/2011 às 18:59

O pessoal das favelas das beiras de córregos e de rios é o eleitorado do PT e os petralhas não irão querer jamais que eles saiam de lá. Nenhum governo petralha em São Paulo fez tantas moradias quanto o do Kassab. Cadê as casas do governo federal? Cadê o Lula? Cadê a Dilma? Bem feito para quem acredita neles.’

 

‘Charles Fernando Gomes

12/01/2011 às 18:53

Nos EUA a esquerda usa a tragédia de Giffords para ganhos políticos, aqui com o PT é a mesma coisa.. nada de novo embaixo de sol.’

 

‘Pinheiro

12/01/2011 às 18:41

A ideologia vermelha tem a cor do sangue. Socialistas são vampiros do sangue alheio.’

Reinaldo Azevedo promete, aos seus leitores, ‘análises políticas em um dos blogs mais acessados do Brasil.’ É uma promessa meio cabotina, mas muita gente gosta de uma promessa. Ela é tão bobinha que tinha decidido, antes mesmo da censura, ironizá-la em minha página: INDIEgesto – Um dos blogs menos acessados do Brasil. Eu não prometo nada, mas também não censuro ninguém. Nem mesmo gente com muita preguiça intelectual. Como é o caso do próprio Azevedo e dos seus leitores.

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