Sexta-feira, 03 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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O entendimento e os interesses americanos

Por Archimedes F. Lazzeri em 25/05/2010 na edição 591

Salta aos olhos o alinhamento das grandes agências de notícias do país com a CNN, que, em questões de política externa dos EUA, funciona como porta-voz do Pentágono e da Casa Branca. O alinhamento dos jornalões brasileiros aos interesses norte-americanos é uma questão que merece uma boa análise, pois o discurso em defesa da liberdade de imprensa precisa ser seguido do exercício dessa liberdade e, principalmente, da autonomia das redações.

A mídia perdeu uma grande oportunidade para questionar o papel da diplomacia dos EUA em tempos de governo Obama. Afinal, para o império do Norte, a guerra sempre foi condição necessária para se alcançar a paz. Por que a imprensa não explora o silêncio de Obama? O mundo espera o pronunciamento do presidente dos EUA, ele tem de decidir se fica com o Nobel da Paz, recebido dezembro de 2009, ou se devolve o prêmio para a academia. Em Oslo, Obama falou menos em diplomacia e mais em ‘instrumentos de guerra’, meio preferido pelos EUA para a preservação da paz.

Por que a mídia não busca ouvir outras vozes além dos diplomatas do G5 + 1, como pacifistas religiosos, especialistas em geopolítica e pesquisadores do assunto?

Logomarcas bem conhecidas

Para os verdadeiros pacifistas, não existe razão para esperar outra posição da política externa dos EUA que não seja aquilo que está no receituário imperialista e militar: exigir dos não alinhados a rendição incondicional e a submissão em troca da ‘paz’ imposta pela lógica militar e econômica, que promove conflitos armados para aumentar o faturamento da poderosa indústria militar norte-americana.

A diplomacia brasileira embaralhou as cartas, essa é a novidade que a mídia tenta esconder. No Conselho de Segurança, o jogo agora poderá ser jogado com a participação de novos personagens, sem cartas marcadas. O discurso de que sem guerra não há paz foi esvaziado no Iraque, com falsos relatórios sobre ameaças de armas químicas. O que prevaleceu no Golfo do petróleo foi a barbárie, inclusive com o uso de armas químicas norte-americanas, carregadas de logomarcas bem conhecidas, tais como a Dow Chemical Company, principal fabricante do napalm.

Por que acreditar nos senhores da guerra?

O acordo Brasil, Irã e Turquia pode ser o sinal de uma nova geopolítica mundial, com maior protagonismo dos países que não são potências militares, mas que se apresentam como porta-vozes de um grande contingente humano, sem interesses em conflitos armados – afinal, o palco do teatro de guerra nunca é montado nos EUA ou na Europa. Esse é outro aspecto que poderia ser abordado pela mídia, o interesse das populações que habitam áreas de conflito.

Defender esse acordo é o papel dos pacifistas. Os países ricos perderam a credibilidade para se apresentarem como modelos civilizatórios para as demais nações. Desse ponto de vista, a escolha por sanções e ameaças ao povo iraniano demonstra a opção pela barbárie – basta olhar para Iraque de hoje. O século 21 está em aberto e não é preciso repetir a lógica do século passado. É preciso dar nova oportunidade para a diplomacia e para a paz.

A pergunta que deveria orientar o trabalho nas redações diz respeito à utilização de instrumentos de guerra para fins pacíficos na busca da paz. Afinal, por que acreditar cegamente nos senhores da guerra?

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Professor, São Paulo, SP

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