Sábado, 11 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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O grande jornalista à moda antiga

Por Lúcio Flávio Pinto em 22/06/2010 na edição 595

Luiz Salgado Ribeiro faz questão de assumir: é um jornalista ‘à moda antiga’. Deu esse subtítulo ao seu primeiro livro, Andanças (Primavera Editora, 317 páginas, São Paulo, 2010). O jornalista à antiga precisa ver com os próprios olhos aquilo sobre o qual vai escrever. Precisa escrever, mesmo quando lhe vedem o acesso aos dados. Tem que ir buscá-los mesmo que eles estejam em locais distantes, isolados, hostis. E em lá chegando, de lá tem que voltar o mais rápido que a checagem permitir – sempre trazendo farto material para desenvolver na reportagem.

Pelo relato de tantas e tão diversificadas andanças, não há dúvida que Salgado é um exemplar da espécie, talvez ameaçada de extinção. Ele reconstitui as aventuras que viveu para cumprir pautas recebidas, ou para descobri-las (de plano estabelecido ou por improvisação), com todas as minúcias de quem realmente viu, meninos. Vai e volta a fontes em carne e osso, não apenas ao Google ou a assessorias de imprensa. Peitou autoridades, não se deixou abater por dificuldades e, quando tudo parecia perdido, fez da paciência e da persistência as armas para realizar seus objetivos.

Quem conhecesse Luiz Salgado no início da década de 1970, quando ele assumiu e deu forma à Agência Estado, do jornal O Estado de S. Paulo, podia tomá-lo por um interiorano contumaz (da altissonante Pindamonhangaba) dado à burocracia, condenado a se enquadrar num canto espremido de um escaninho administrativo. Nada mais do que falsa aparência. Com seu jeito manhoso de capiau, Salgado sempre se comportou como um bravo, um cavador, disposto a tomar na unha todo e qualquer desafio.

Grande reportagem

Nunca deixou de ser um paulista do interior, com o umbigo solidamente enterrado em Pinda. Mas se metamorfoseou em amazonense, paraense, matogrossense e brasiliense com uma facilidade notável, por total osmose. Quando tinha tudo para emendar a carreira até a glória final como prestigiado repórter especial do Estadão, largou tudo para fazer um jornal de oito páginas, impresso numa precária off-set portátil, no leste de Mato Grosso.

Estava ligado a um projeto particular de colonização que não deu certo, arrastando consigo a publicação, mas a orientava por critérios jornalísticos. Os mesmos critérios que lhe permitiram passar por empresas privadas e governos sem mácula, mesmo quando ao lado do nada carismático conterrâneo, Geraldo Alckmin. Salgado não é só pessoa maravilhosa: é um cidadão decente e um profissional honesto. Por isso relata suas andanças sem segredo nem pejo. Histórias que se enredam umas nas outras até que chegamos ao fim do livro.

Ele servirá de boa inspiração para todos os jornalistas, à moda antiga ou atual. Talvez estes, descobrindo como se faziam as grandes reportagens de anos atrás, hoje tidas como impossíveis ou inviáveis, forcem a barra para poder contar com suporte pelo menos parecido.

Antigamente, no tempo de Salgado, os repórteres recebiam verba para longas e demoradas viagens, se necessárias para a reunião das melhores e mais completas informações sobre o tema ou a questão em foco. Depois, outro tempo para preparar o copião e, a partir dele, o texto final, vivo, dinâmico, vibrante, que podia ser lido por páginas e páginas com prazer e proveito. Como a grande reportagem que Salgado escreveu sobre sua história neste livro. Ele vale por todos os manuais disponíveis nos currículos dos cursos de comunicação social. E muito mais. Porque ensina o que é, não o que não se sabe se será ou como vai ser.

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Jornalista, editor do Jornal Pessoal (Belém, PA)

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