Domingo, 20 de Setembro de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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FEITOS & DESFEITAS >

O sacrifício diário de todas as manhãs

Por Ulisses Capozzoli em 09/08/2006 na edição 272

Ler os jornais pela manhã, a cada dia, é um ato crescente de tortura que infligimos a nós próprios. A edição de terça-feira (8/8) da Folha de S. Paulo é um exemplo disso, embora valha também para O Estado de S. Paulo, mesmo com seu maior comedimento crítico.


A manchete da Folha refere-se aos novos atentados do PCC, com 100 alvos em 18 cidades, atingindo pela primeira vez instalações do Ministério Público e retomando a destruição de ônibus de transporte público, viaturas policiais e agências bancárias, e poupando, ao menos na capital e por esta vez, os supermercados.


Na editoria de Política (pág. A4), o oportunismo descarado de candidatos ao governo estadual, todos eles interessados em um naco de convencimento dos eleitores como forma ‘democrática’ de abotoar-se no poder. Na página A6, na falta de melhor qualificação, o mega-escândalo de Rondônia, onde boa parte da nata do poder executivo e legislativo é acusada, com evidências claras, de saquear, como salteadores primitivos, o patrimônio público.


Na A7, a acusação feita pelo deputado Fernando Gabeira (PV-RJ) balança como um pêndulo sobre o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), ao menos em princípio – ou como parte do imaginário popular – isento de comprometimentos dessa natureza. Afinal, a imagem estereotipada que se tem de um cientista remete a alguém desapegado das coisas mundanas, interessado em desvendar os mistérios da natureza com a determinação de promover bem-estar social, tanto pelo conhecimento direto quanto pela possibilidade de transformar suas descobertas em produtos ou processos.


Falso estereótipo


Enquanto estereótipo, nada mais distante da realidade. Se a população tomasse conhecimento de parte do que ocorre nos bastidores do meio científico teria razões de sobra para repelir muitas das imagens respeitáveis que falam em nome da coletividade.


O que temos na página seguinte, a A8? Aqui a manchete refere-se a uma impugnação de 47%, praticamente a metade, das candidaturas em São Paulo, pelas razões mais variadas. Se na fase de disputa os candidatos já têm alto índice de impugnação, pensemos com os nossos botões, o que costumam fazer quando conseguem enganar certos filtros para serem ‘democraticamente eleitos’, como costumam cuspir nos nossos ouvidos.


Ainda na A8, o candidato à presidência pelo PSDB e sua fala no Jornal Nacional: defesa da política de segurança e redução do imposto de renda. Desta vez com seus botões, o candidato deve imaginar que somos todos idiotas. Quem era até recentemente o governador de São Paulo, onde os atentados explodem como pipoca e não nos garantem o direito de irmos à padaria para comprar o pão&leite do café da manhã?


Reduzir o imposto de renda? Desde que Cabral e seus gajos puserem os pés nesta terra somos vítimas de um tributarismo bárbaro. O santo-do-pau-oco, entre todas as criações e iniciativas para amenizar o apetite inesgotável do Estado sobre tributos, até hoje não deu em nada. Por que deveríamos acreditar que o candidato do PSDB seria esta absoluta exceção?


Na página A9 da mesma Folha temos o presidente da República que, quando estava fora do poder, falava grosso contra os ‘300 picaretas’ e todas as atitudes sumárias de que somos vítima por parte de qualquer porteiro de repartição pública ou privada. Agora, o presidente comporta-se como um malabarista. Salta de corda em corda. Está em todos os lugares e, ao mesmo tempo, em lugar nenhum.


Na mesma página faz-se referência ao ex-ministro José Dirceu com um blog que estaria fazendo furor. Fiel ao seu estilo stalinista, o ex-ministro enfia por nossas máquinas o tal blog como se tivéssemos obrigação de saber o que pensa. E, contrariando princípios elementares da comunicação pela rede, não há como nos comunicarmos com alguém para dizer que parem de nos perturbar com coisas que não nos interessam.


Então entramos na página de internacional, onde Israel tira a máscara para impor ataques impiedosos contra velhos, mulheres, crianças e mesmo adultos inocentes no Líbano. Se formos contrários a que israelenses sejam vítimas da violência da guerra, por que deveríamos concordar com os argumentos do governo de Israel para fazer o que Israel está fazendo no Líbano, com complacência patife de George W. Bush?


Cenário internacional


A página seguinte, a A11, fala do que todo mundo está cansado de saber: a impotência da ONU para oferecer uma alternativa promissora de suspensão dos assassinatos no Oriente Médio.


Na A12, acusações contra o Hezbollah que, evidentemente, não são gente que se cheire, em qualquer sentido desta expressão, por crimes de guerra. A brutalidade gera os brutos ou, ao menos, a brutalidade reproduz os brutos como cogumelos depois da chuva. A página A13 refere-se a Fidel Castro em Cuba e Álvaro Uribe, na Colômbia.


O leitor pode escolher sob qual dos ambientes se arriscaria a viver se não tiver satisfeito em ficar por aqui, pelas razões expostas no noticiário das páginas anteriores.


Fidel, que estaria com câncer, passa o poder para o irmão, Raul. Por que Cuba não instala de vez a monarquia? Assim os jornais não gastariam papel e tinta com especulações. Morreu o irmão mais velho, o primogênito? Sobe o mais novo e o problema está resolvido. A desvantagem disso é que um exército de jornalistas e comentaristas ficaria sem ter o que fazer.


A vantagem, para os leitores, é que poderiam gastar o tempo com atos mais produtivos como olhar para o céu e refletir que nossa passagem por este mundo equivale a um piscar de olhos na escala de tempo do Universo. Mas isso, certamente, é o que analistas que se levam a sério – o risco maior que alguém pode assumir – chamariam de utopia inconseqüente.


Na página A 14 lê-se que a Rússia quer vender armas para a Argentina. No lo creo… E o que a Argentina vai fazer com estas armas russas? Retomar os ataques às Malvinas?


Violência contra mulheres


O caderno de Cotidiano dispensa comentários para poupar os prováveis leitores deste escrito de maior sofrimento psíquico. É pura desgraça e termina com a notícia de que violência contra as mulheres, dentro de suas próprias casas, será punida por maior rigor.


A pergunta que deveria ser feita por quem escreveu a matéria, aos que se decidiram pelo endurecimento da pena, é por que registramos tanto violência doméstica? Se a violência está em todo lugar, por que não estaria no interior dos lares e não desabaria sobre as mulheres e, talvez ainda mais, sobre crianças?


Essa pergunta não é uma tentativa de minimizar a brutalidade doméstica, mas de compreender por que ela ocorre na intensidade em que ocorre e quais os meios mais promissores para amenizá-la. Por exemplo: maridos desempregados, com a auto-estima destruída, encharcados pelo álcool, tenderiam a espancar suas mulheres e filhos?


Se fatos como estes forem reconhecidos, teríamos o diagnóstico de um problema, o que acena com a possibilidade de solução. A pura repressão não resolve nada.


Então temos o caderno de Economia. O jornalismo econômico nasceu sob o ‘milagre econômico’, quando gente como o então ministro do Planejamento, João Paulo dos Reis Velloso, apreciava trocadilhos como ‘exportar é o que importa’ e ‘o Brasil tem rios à vontade para ser poluídos’.


O jornalismo econômico no Brasil é altamente ideologizado e por isso ninguém se escandaliza com as mais afrontosas das notícias. Nenhum comentarista de porte denuncia os lucros terroristas dos bancos, como o do Bradesco que bateu os R$ 3,132 bilhões no semestre passado (sem falar das cifras astronômicas dos períodos anteriores). Por que os bancos arrancam tanta riqueza da sociedade, sem dar em troca outra coisa senão uma cesta humilhante de taxas e cobranças, além de filas e péssimos serviços?


Esta atitude dos bancos explica que os fora-da-lei do PCC tenham concentrado contras as agências parte de sua indignação? Os fora-da-lei e assassinos do PCC são extraterrestres ou produtos de uma sociedade violenta e injusta?


O abuso dos bancos


Ninguém escreve contra os bancos e porque não é politicamente correto. Por que um ‘nomão’ respeitável vai arriscar-se a denunciar o saque criminoso dos bancos sob proteção das leis? Melhor fazer raciocínios em círculos – jogar areia nos olhos dos leitores – e não se comprometer.


Na B3 uma notícia diz que ‘crescimento dos lucros dos bancos deve perder fôlego’.


Certamente. E devido à exaustão social. Tudo tem limite. Mesmo o Universo tem limites e esta é a verdadeira razão de a noite ser escura. Se o Universo fosse infinito, a quantidade de estrelas do lado oposto da Terra iluminado pelo Sol iluminaria a noite e ela não seria escura. É o que os astrônomos conhecem como ‘Paradoxo de Olbers’. Isso para dizer que ‘crescimento dos bancos deve perder fôlego’ é uma manchete no mínimo cínica.


As páginas seguintes tratam da novela da Varig, empresa que sempre nos tratou mal, com preços elevados em seus vôos e que, durante o governo militar, integrou o sistema de vigilância autoritário, sempre simpática aos generais. Especialmente os conterrâneos do Sul. Os funcionários da Varig, que não têm culpa disso, estarão atirados na rua como os passageiros. Neste país o cliente nunca tem razão e com o caso Varig não seria diferente.


A Economia ainda traz notícias sobre aumento do petróleo, retração das montadoras de automóveis em julho, acusações de favorecimentos na Susep.


A única boa notícia está no esporte, onde o São Paulo pode, mais uma vez, conquistar a Libertadores da América. Um pouco de diversão, de sabor de vitória, uma dimensão lúdica, porque, como humanos, não temos alternativa a não ser viver. Até que a morte nos embarque em seu grande navio que nunca pára de navegar.


Parte dos leitores, observadores que se levam a sério e gente tida como conseqüente, pode dizer que essas considerações não levam a nada. Não passam de um amontoado de considerações. Digo que levam a uma utopia, palavra que, etimologicamente, refere-se a ‘lugar que não existe’, mas que tem sido buscado insistentemente, nos tempos modernos, ao menos desde Thomas Morus.


Esta utopia está em reconhecer que somos impotentes para mudar o mundo, colocar cada engrenagem nos seus eixos. Mas podemos, dentro deste país que faz com que falemos a mesma língua, ao menos anular o voto, nas próximas eleições, para não sermos cúmplice de uma enorme trapaça, urdida em nome da ‘democracia’ e da ‘responsabilidade social’.


Nada do que dizem os candidatos é verdadeiro. É pura receita barata de marketing, o que dá sustentação à iniciativa da MTV, voltada para um público jovem, de defender o voto nulo. Se não compactuarmos com a farsa nacional, não estaremos resolvendo os problemas do mundo, que é vasto, antigo e complicado.


Mas, por aqui, já estaremos fazendo alguma coisa em nome de um mínimo de verdade, dignidade e de responsabilidade social.

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