Sábado, 11 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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FEITOS & DESFEITAS >

Partituras esquecidas

Por Jefferson Paradello em 22/06/2010 na edição 595

Quando Dom Pedro II enviou o jovem compositor Carlos Gomes à Itália para estudar com Lauro Rossi, diretor do Conservatório de Milão, nenhum dos dois imaginava o prestígio que o músico conquistaria na Europa. Popular em meio à elite brasileira, lá Gomes tornou-se conhecido, principalmente, pelo sucesso alcançado com a ópera O Guarani, sua mais célebre criação [leia mais detalhes em MAMMÌ, Lorenzo. Carlos Gomes. São Paulo: Publifolha, 2001].


Embora tenha recebido a incumbência de importar a cultura musical europeia para o Brasil, Carlos Gomes viu o quadro curiosamente se inverter: tornou-se um representante nacional entre os especialistas da época [MAMMÌ, Lorenzo. Carlos Gomes. São Paulo: Publifolha, 2001, p. 44] No entanto, assim como outros compositores eruditos brasileiros anteriores e posteriores a ele, hoje, 114 anos após sua morte, suas contribuições não se tornaram tão conhecidas como poderiam, fazendo dele quase um anônimo em sua terra natal. Um exemplo disso é o fato de que talvez grande parte da população nem sequer imagine que a vinheta de abertura do programa radiofônico A voz do Brasil é composta pelos primeiros acordes de O Guarani, embora hoje ela apresente uma versão remixada, misturando samba, forró, moda de viola e uma diversidade de gêneros [versão original composta por Carlos Gomes, disponível aqui;  versão atual apresentada no programa radiofônico A voz do Brasil, disponível aqui. 


Por outro lado, por aqui as obras dos grandes compositores europeus, como as de Bach, Beethoven, Verdi e Puccini, citando apenas os mais conhecidos, continuam vivas nas salas de concerto e na vida dos poucos apreciadores desse gênero musical. Um ponto positivo no Brasil é que as informações em relação aos programas das orquestras, seus músicos e solistas convidados ganham, há décadas, divulgação nos jornais impressos. Já o trabalho dos compositores brasileiros, nem tanto.


Influência não atinge apenas o Brasil


Antes que o leitor pense que comparar a música desses dois continentes seja algo incoerente, é necessário destacar que o objetivo central deste texto não é verificar qual delas é a melhor, mas entender por que motivo a imprensa brasileira não destaca com regularidade a obra de nossos diversos compositores.


Uma das possíveis explicações para isso é o fato de que esse gênero nasceu e se consolidou na Europa, e posteriormente foi importado pelo Brasil. Embora o país já possuísse uma produção musical quando a corte portuguesa se mudou para o Rio de Janeiro, no início do século 19, foi depois de sua chegada que a influência europeia ficou mais evidente, já que a música era a arte mais apreciada pela família real.


Em seu best-seller 1808, o jornalista e escritor Laurentino Gomes relata que ‘Debret [Jean-Baptiste Debret, pintor francês que trabalhou no Brasil entre 1816 e 1831] estimou que, em 1815, D. João gastava 300 mil francos anuais na manutenção da capela real e seu corpo de artistas, que incluíam `cinquenta cantores, entre eles magníficos virtuosi italianos, dos quais alguns famosos castrati, e 100 executantes excelentes, dirigidos por dois mestres de capela´ [citado em Luiz Norton, A corte de Portugal no Brasil, p. 145]. Em 1811, chegou ao Rio de Janeiro o mais famoso músico português, o maestro Marcos Antônio Portugal. Até a partida da corte, em 1821, ele comporia inúmeras peças e músicas sacras em homenagem aos grandes eventos da coroa.’ [Gomes, Laurentino. 1808. Planeta do Brasil: São Paulo, 2007. P. 221].


Mas essa influência não atinge apenas o Brasil, uma vez que em todo o mundo o repertório orquestral esteja baseado, em sua maioria, nas obras sinfônicas austro-germânicas, enquanto que o operístico está alicerçado pelas dos compositores italianos, franceses e alemães.


Os ‘ grandes músicos brasileiros’ são nomes da MPB


Diante disso, apesar de a produção musical brasileira ser contínua até hoje, o que não acontece nos Estados Unidos, por exemplo, o jornalista Irineu Franco Perpetuo, colaborador do jornal Folha de S.Paulo e da revista Bravo!, e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual, de Barcelona, lamenta o fato desse patrimônio cultural composto ao longo dos séculos ainda continuar desconhecido. ‘Orquestras, teatros, regentes e intérpretes deveriam fazer um esforço para executar as partituras brasileiras, gravá-las e fazê-las circular’, sugere.


E se a imprensa privilegia a música europeia, e aqui cabe outro ponto a ser discutido, Perpetuo assegura que isso não é por perversão jornalística, mas apenas o reflexo das orquestras e teatros brasileiros, que raramente executam obras de autores nacionais.


Embora isso não devesse ocorrer, em alguns casos as agendas dos concertos acabam pautando o que será publicado pelos jornais e revistas. ‘É indiscutível que a produção nacional não tem nas programações a importância que tem o cânone europeu’, protesta o jornalista João Luiz Sampaio, crítico de ópera e música clássica do Caderno 2 do jornal O Estado de S. Paulo. Ele acredita que é papel da mídia especializada fomentar o debate sobre os novos autores, composições e tendências.


Perpetuo diagnostica que a música erudita brasileira sofre um duplo descaso do próprio povo: além de perder para ela mesma, perde também para a música popular. ‘Para a mídia, grande público e mesmo boa parte da intelectualidade, os `grandes músicos brasileiros´ são nomes da MPB – Tom Jobim, Chico Buarque, Caetano Veloso etc. – e não nossos compositores eruditos’, identifica.


Yerma ganhou a primeira montagem depois de 50 anos


Por isso, as dificuldades em ter um repertório mais ‘nacional’ envolvem duas questões, partilha o maestro Parcival Módolo, diretor artístico e regente da Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas. A primeira delas é que existe a necessidade de se tocar um programa variado e, obviamente, o ‘básico’: obras do período barroco, clássico e romântico europeu. De acordo com ele, uma orquestra que não executa Beethoven, Mozart etc., não pode ser considerada uma orquestra.


A segunda questão diz respeito aos empecilhos encontrados para executar a música dos compositores brasileiros. Eles escrevem, mas na maioria das vezes suas obras não são editadas, o que atrasa ou até mesmo faz com que essas composições nunca cheguem às salas de concerto e aos ouvidos dos apreciadores e críticos. Para Sampaio, os esquecidos pela imprensa são os compositores românticos, que figuram da segunda metade do século 19. Já os contemporâneos, que vivem num contexto rico em termos de composição, de alguma forma aparecem na mídia.


A ópera nacional também enfrenta sérias dificuldades em relação às partituras, lembra Sampaio. As composições completas de Carlos Gomes, por exemplo, ainda não possuem uma edição revisada. O trabalho de Villa-Lobos, outro grande nome da música brasileira, também passa pelos mesmos problemas. Foi somente depois de aproximadamente 50 anos que sua ópera Yerma ganhou a primeira montagem no Brasil. ‘Antes de qualquer outra coisa, [foi preciso] encomendar uma edição/revisão da partitura, que estava ainda em versão manuscrita’, articula.


Música não tem valor mercadológico


As opiniões sobre esse assunto, porém, nem sempre são uniformes. O jornalista Clóvis Marques, colaborador da revista Concerto e colunista do site Opinião e Notícia, vê a questão por outro ângulo. Para ele, não adianta culpar a imprensa já que os brasileiros não têm uma prioridade em termos de música clássica. Ou seja, se o próprio público não se preocupa, por que, então, os veículos de comunicação deveriam? Marques também não culpa o público, visto que esse gênero não está no sangue da maioria da população, que dá mais atenção à rica e diversificada música brasileira. O que acontece na imprensa, reforça, é um reflexo da sociedade.


E quando o assunto está ligado aos interessados e até mesmo curiosos no assunto, Módolo não gosta de usar as expressões ‘música erudita ou música clássica’. Na verdade, em nenhum momento estas expressões lhe são bem-vindas aos ouvidos. A explicação é bem simples. No primeiro caso, especificamente, ele acredita que o termo erudito afasta as pessoas, transformando o gênero em algo exclusivo da intelectualidade. Portanto, prefere que ela seja referida como música de concerto.


Aliás, a falta de um público também é uma preocupação para quem lida com esse cenário. Módulo destaca que uma das maiores funções da Sinfônica de Campinas é divulgar a música e fidelizar ouvintes. Para isso, é preciso quebrar algumas barreiras. Uma delas está ligada ao fato de a população que nunca teve contato com esse universo achar que para se assistir a um concerto é necessário ir engravatado, como se fosse uma reunião social da elite. ‘Já chegaram para mim e disseram: Maestro, eu queria tanto ir assistir o concerto, mas eu não tenho um terno’, conta.


Para o maestro, na relação entre a imprensa e o campo das artes existe certa falta de diálogo. Os meios de comunicação nem sempre vasculham ou dão abertura a esse assunto, a não ser os voltados para o gênero popular. ‘É um pouco função da gente como músico em vender o nosso peixe, dar mais mastigado para a imprensa. Ela não tem essa missão cultural, ela não tem essa responsabilidade’, isenta. Mas na sua visão, os cadernos especializados deveriam gerar conceitos e transformar os fatos em notícia de forma interessante para o público. Essa seria, para ele – e para os interessados, uma grande contribuição.


Nelson Kunze, diretor-editor da revista Concerto, periódico dedicado exclusivamente à música erudita no Brasil, explica que ainda há muita desvalorização desse gênero em solo brasileiro justamente porque não se sabe vender esse ‘peixe’. A tarefa da imprensa, identifica, é de tentar tornar a música mais viva, de forma que esta participe do nosso dia a dia, onde se refletem os conflitos da humanidade. Kunze prega que a revista dá atenção especial aos compositores brasileiros, tendo, inclusive, entrevistado todos eles, sempre buscando falar da produção atual [ver ‘Osesp estreia trilha inédita de Almeida Prado‘ e ‘Entrevistas com compositores e intérpretes‘ (para assinantes)].


Embora os programas orquestrais se renovem anualmente, há que ache que novos apreciadores, em grande escala, não apreçam. Ou não se tornem conhecidos. ‘O que eu vejo no Rio são sempre as mesmas caras, o mesmo feitio, pessoas com a mesma idade. Quando vejo um público diferente é sempre eventual, que passa e vai embora. Você não vê a renovação das plateias no Rio’, compartilha Marques. Para ele, a imprensa e o governo poderiam investir mais para que a música atingisse um número maior de pessoas. O problema, aponta o jornalista, é que ela não tem um valor mercadológico, embora para executá-la os custos sejam elevados.


Existem passos que podem fazer a diferença


E, diante dessa série de dificuldades, a imprensa acaba limitando sua atuação na descobertura e divulgação de novos autores. Queira ela ou não, a responsabilidade dos jornais, além de noticiar, deve ser a de levar o leitor à reflexão. Como já dizia o jornalista Clóvis Rossi – Rossi, e não Marques – em seu livro O que é jornalismo, os profissionais da imprensa travam uma batalha [diária e constante] pela mente e coração dos leitores [Rossi, Clóvis. O que é jornalismo. São Paulo: Brasiliense, 2000]. Mas apesar da pouca visibilidade dada aos compositores brasileiros, não pode-se dizer que eles estão totalmente esquecidos.


Apesar de tantos nomes, tantas obras e tantas dificuldades para se levar essa música ao conhecimento do público, para se conseguir resgatar essas relíquias e fazer com que figurem no programa das orquestras, Perpetuo acredita que existem alguns passos, não tão simples, vista as dificuldades apresentadas ao longo deste texto, mas que podem fazer diferença. ‘É necessário revisar, imprimir e distribuir suas partituras; incentivar os intérpretes a executá-las e gravá-las; e sensibilizar a mídia para divulgar esse tipo de iniciativa’, arrisca.

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Estudante do curso de Jornalismo do Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp), em Engenheiro Coelho, SP

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