Quinta-feira, 09 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Um largo caminho

Por Gláucia de Melo Ferreira em 22/06/2010 na edição 595

Em artigo publicado em 12 de maio, a revista Veja presta um serviço e um desserviço à comunidade. Alguns pais, preocupados com as afirmações do jornalista, nos procuraram para tirar dúvidas. Agradecemos a eles e ampliamos nossa resposta, pois suas dúvidas talvez sejam sentidas por outros.

O serviço que o artigo presta resume-se à afirmação de que o construtivismo não é um método de ensino, e sim, uma teoria sobre o aprendizado desenvolvida pelo pesquisador Jean Piaget. Ponto. De fato, Piaget era um estudioso dos mais brilhantes do século passado, preocupado em responder a questões do tipo: qual é a gênese do conhecimento? Como se dá a aquisição do conhecimento pela criança? Dizer o mínimo da obra desse grande pesquisador seria dizer que sua pesquisa foi séria e extremamente importante. É claro que uma obra dessa magnitude teria repercussões na educação. Mas ele não teve como foco do seu trabalho a preocupação em desenvolver um método de ensino.

O pesquisador, o psicólogo, o epistemólogo têm como foco de trabalho questões como essas apresentadas anteriormente. Porém, a questão do educador é outra. Para nós, educadores, a pergunta é: ‘Sabendo que a criança aprende de tal e tal maneira, o que eu posso fazer na sala de aula, na relação com meus educandos, para ensiná-los?’

Comentário grave

As portas abertas pelos trabalhos de Piaget e Vygotsky nos trazem uma enorme responsabilidade sobre o modo como devemos organizar o trabalho na sala de aula para favorecer o aprendizado da criança. Se aprendemos com Piaget que o trabalho de aprender realizado pelo aluno é ativo, que passa por um processo no qual a criança formula várias hipóteses sobre o objeto que ela tenta apreender, então temos que criar as condições para que ela possa explicitar sua forma de pensar e, a partir daí, possa corroborar ou não suas hipóteses.

Embora o artigo corretamente explicite que não há um construtivismo e que existem muitas interpretações (muitas delas bastantes distantes do que dizia Piaget), na sequência o autor passa a fazer comparações entre a pedagogia tradicional e o construtivismo sem explicar de qual construtivismo ele está tratando. No exemplo sobre alfabetização (para ficar apenas em um exemplo), afirma que no construtivismo se faz a associação da palavra à imagem. Sinceramente, seria importante saber de qual construtivismo ele está falando, pois todo o estudo de Emília Ferrero (uma discípula de Piaget) sobre as etapas do pensamento infantil e a evolução das hipóteses que a criança faz para apreender esse objeto de conhecimento que tanto a instiga, foram simplesmente ignoradas no exemplo dado pelo jornalista. Mais grave é o comentário que vem logo abaixo: ‘Pesquisas mostram que a maioria das crianças não faz associação automática entre a palavra e a imagem…’ Sem especificar de que tipo de pesquisa ele está falando, o autor busca o argumento de autoridade no termo ‘pesquisas’ para combater uma pesquisa séria e sólida desenvolvida por Piaget, Emília Ferrero e outros ao longo de muitos anos de trabalho acadêmico e científico.

Sociedade já não comporta passividade e tarefismo

Usar como argumento palavras bombásticas do tipo ‘está provado’ ou ‘pesquisas mostram’ cria uma falsa impressão de apoio científico para questionar de forma leviana pesquisas sérias e rigorosamente desenvolvidas e que inspiram a busca de formas mais modernas e adequadas de ensinar, transmitindo às novas gerações tudo que a humanidade tem produzido tanto de informação quanto de conhecimento sobre como se pode transmitir essa informação.

Muitas são as inconsistências do artigo, algumas até mesmo gritantes como a afirmação de que Vygotsky teria sido seguidor de Piaget. Ambos foram respeitáveis pesquisadores cujos trabalhos se aproximaram ou afastaram em diversos pontos que não caberia aqui aprofundar. Vale, contudo, explicitar que ambos se tornaram referências imprescindíveis na compreensão do fenômeno da aprendizagem.

Nossa pergunta de educadores sobre como criar as condições para promover a aquisição do conhecimento pela criança e adolescente, tem encontrado respostas no educador Célestin Freinet. Apoiados nos conhecimentos que vêm sendo produzidos pelas ciências da educação, encontramos nas concepções freinetianas do trabalho pedagógico respostas ao desafio de educar, colocando em ação todos os mecanismos da aprendizagem, evitando nos restringir aos antigos modelos de mera repetição e cópia. Para um mundo em constante transformação e produção acelerada de conhecimento e informação, reivindicar a volta aos antigos métodos tradicionais seria negar os avanços feitos pela pesquisa das ciências humanas.

A sociedade em que vivemos já não comporta passividade e tarefismo como modo de se relacionar com o mundo, com o conhecimento e com os outros. É preciso buscar novos caminhos para educar a infância e a adolescência, que também já não são as mesmas de outros tempos.

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Diretora da Escola Curumim, Campinas, SP

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