Domingo, 07 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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Balança no vermelho, cobertura deficitária

Por Rolf Kuntz em 12/11/2013 na edição 772

Para alcançar o superávit comercial de US$ 2 bilhões previsto para 2013 pelo Banco Central (BC), o Brasil precisará acumular no último bimestre um excedente de US$ 3,83 bilhões na conta de mercadorias. Não deve ser uma tarefa simples, em vista do desempenho nos meses anteriores. Outubro terminou com um duplo vermelho – um déficit de US$ 224 milhões no mês e um buraco de US$ 1,83 milhão no ano. Um bom relatório com muitos números foi divulgado, como sempre, pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, mas parece ter atraído pouca atenção dos jornalistas. Na mesma tarde, em 1º de novembro, repórteres de vários jornais compareceram à entrevista habitual do secretário de Comércio Exterior, Daniel Godinho. No dia seguinte a imprensa publicou pouco mais que as explicações e previsões do secretário.

Houve pouquíssima diferença entre as matérias dos grandes jornais de São Paulo e do Rio. O vermelho das contas foi atribuído às compras de petróleo e derivados. Além disso, os jornalistas citaram a previsão do funcionário: o resultado final do ano será algum superávit. O cenário é pouco animador, mas por vários anos o país tem conseguido, nos últimos dois meses, saldos bem superiores ao necessário para fechar o buraco e proporcionar alguma sobra. Falta ver se isso se repetirá. Mas, por enquanto, a modéstia de repórteres e editores tem deixado os leitores mal servidos.

Ninguém precisaria de um grande modelo matemático para produzir uma história mais rica, mais interessante e mais útil para quem deseje uma razoável informação sobre o quadro econômico. Bastaria ter o relatório com um mínimo de atenção e fazer umas continhas simples.

Estranho artifício

O país gastou com importação, de janeiro a outubro, US$ 202,3 bilhões. A diferença em relação ao valor acumulado em igual período do ano anterior chegou a US$ 17,29 bilhões. A maior fatia desse acréscimo, 38,4%, corresponde à despesa adicional de US$ 6,64 bilhões com as compras de combustíveis e lubrificantes. Mas uma boa análise deveria também dar conta, mesmo de forma sumária, de todo o resto – 61,59% do total.

Um repórter pouco mais atento perceberia, por exemplo, este detalhe: o aumento do dinheiro destinado a matérias-primas e bens intermediários, US$ 6,36 bilhões, foi praticamente igual ao acréscimo do dispêndio com petróleo e derivados. E ainda levaria em conta os US$ 2,57 bilhões gastos a mais com bens de capital e o valor adicional de US$ 1,72 bilhão usado para bens de consumo.

Há muito mais que petróleo nessa história – e mesmo o aumento da despesa com esse item deve remeter a outra história, a dos problemas de produção da Petrobras. Afinal, há poucos anos o governo proclamou a autossuficiência do país nessa área. Houve autossuficiência, de fato, em algum momento? Se houve, como desapareceu?

Os dados mais amplos também valeriam um pouco mais de atenção. O dispêndio com a importação foi 8,8% maior que o de um ano antes, pela média dos dias úteis. Mas a receita com a exportação foi 1,4% menor, quando se usa o mesmo tipo de comparação. Mesmo quando se desconta o gasto com petróleo, sobra um importante problema, a dificuldade evidente das vendas ao exterior.

Todas as categorias de produtos – básicos, semimanufaturados e manufaturados – proporcionaram menos dólares que no ano passado. Atribuir esse resultado só ao câmbio seria um excesso de simplificação, até porque o dólar se valorizou neste ano e isso deveria ter facilitado a exportação e dificultado a importação. Outros fatores devem ter influenciado os grandes números do ano.

Além do mais, o valor da exportação foi inflado com a venda meramente contábil de plataformas de petróleo. Esse item rendeu US$ 4,75 bilhões, mas essas plataformas nunca deixaram o país. Esse tipo de operação, com efeito meramente fiscal, foi autorizado pelo governo há muitos anos, mas passou a influenciar a balança comercial de forma significativa só há pouco tempo.

Alguém poderia argumentar com um detalhe do lado oposto das contas: parte da importação de petróleo registrada neste ano foi realizada em 2012. O atraso no registro é mais uma estranha particularidade da legislação brasileira. Certo, mas essa importação ocorreu, de fato, e seria preciso incluí-las nos cálculos em algum momento. Se a tivessem contabilizado em 2012, o superávit comercial do ano passado teria sido inferior aos US$ 19,43 bilhões publicados oficialmente. A história das plataformas – assinalada apenas de passagem, numa das matérias – é inteiramente diversa.

Exemplo de vitalidade

Qualquer matéria menos burocrática sobre comércio exterior remete a questões importantes para a compreensão do cenário geral da economia – como as condições da demanda, a capacidade de oferta, a evolução dos custos e os padrões de competitividade.

Não seria possível, é claro, cuidar de todas essas questões para complementar uma informação sobre a balança comercial. Mas pode-se oferecer ao leitor, sem muita dificuldade, pistas suficientes para perceber a moldura da notícia. Não se trata de editorializar a reportagem, mas de ir além da mera entrevista concedida por um porta-voz do governo. Nesse caso, nem se pode acusar as autoridades de ocultar o essencial. O material divulgado pelo Ministério do Desenvolvimento é suficiente para uma história interessante. Basta examiná-lo com alguma atenção e fazer umas continhas muito simples.

Os jornais brasileiros podem fazer muito mais e isso foi provado, mais uma vez, com as boas matérias sobre o estado das contas públicas, depois da divulgação dos números de setembro. O secretário do Tesouro, Arno Augustin, chegou a acusar a imprensa de conduzir um ataque especulativo à política fiscal. A resposta dos grandes jornais foi uma porção de reportagens sobre a evolução das despesas, a deterioração das finanças do governo e a reação dos mercados à piora dos dados fiscais. Foi uma bela demonstração de vitalidade. Exibições como essa tornam mais difícil entender a passividade diante de outros grandes temas, como a erosão das contas externas.

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Rolf Kuntz é jornalista

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