Quinta-feira, 06 de Agosto de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Tabloides no tribunal

Por Helena Celestino em 12/11/2013 na edição 772

Mesmo para os padrões da imprensa sensacionalista, a notícia foi um choque e virou até editorial do “New York Times”: Rebekah e Andy mantiveram um caso amoroso secreto por seis anos, enquanto os jornalistas do “Sun” e do “News of the World” praticavam crimes para entrar na intimidade da realeza, celebridades, políticos e até nos últimos momentos da vida de uma jovem estudante sequestrada e assassinada – uma crueldade que agravou o sofrimento da família ao fazê-la acreditar na hipótese de a filha estar viva.

A revelação do amor adúltero foi feita pelo promotor no tribunal, com base numa carta de Rebekah encontrada no seu computador pessoal. “Não estou entrando na privacidade deles, mas quero mostrar como esses dois altos executivos eram próximos e como a relação passava por uma conspiração na redação do “News of the World”, com o grampeamento dos telefones para produzir manchetes”, disse Andrew Edis.

É uma deliciosa ironia do destino. Editores de tabloide, em julgamento por descumprirem a lei para exporem os mais íntimos segredos das pessoas, têm sua mais secreta história revelada em detalhes diante dos jurados. “Você é meu melhor amigo, a você eu conto tudo, em você eu confio, eu procuro conselhos, eu amo você… Não sei como enfrentaria a minha vida sem esta relação”, escreve Rebekah. No mesmo período, Andy gravou 330 mensagens trocadas entre o ministro do Interior britânico e uma namorada, um caso extraconjugal publicado nos dois tabloides com a repercussão que se pode imaginar.

Rebekah tentou destruir as marcas do passado. Fez o motorista levar seus computadores pessoais e os da empresa para um lixão enquanto a polícia vasculhava as redações e sua casa de campo. Parecia um esconderijo perfeito, mas um lixeiro esperto desconfiou e entregou tudo para a polícia. Seu rocambolesco plano para escapar da Justiça acabou também revelado com detalhes pelo promotor esta semana.

Efeito colateral

A previsão é que esse processo dure seis meses. É o resultado da investigação de uma comissão liderada pelo lorde Brian Leveson em que 62 jornalistas foram presos, policiais – alguns de alta patente – foram demitidos e as relações promíscuas de políticos e jornalistas expostas – quase todo o governo Cameron já passou por esta primeira fase da investigação e e-mails mostraram a intimidade do premier com a ex- diretora do império Murdoch no Reino Unido.

O momento não podia ser pior. Um ano de revelações sobre estes comportamentos odiosos evidentemente não fez nada bem à reputação da mídia, mas o remédio receitado pelos políticos para combater a indignação popular é puro veneno. Rejeitada por todos os grupos de comunicação, foi aprovada no Parlamento há dez dias regulamentação prevendo a criação de um conselho, teoricamente independente, com poderes para velar pela aplicação de um férreo código de ética a ser elaborado pelos jornais. A adesão ao órgão seria voluntária, mas ele teria poderes para aplicar multas de até 1,6 milhão de libras em caso de abusos, a afiliados e não afiliados.

De longe, pode parecer razoável, mas o diabo está nos detalhes. O código de ética poderia ser modificado pelo Parlamento a qualquer momento, jornalistas obrigatoriamente estariam fora desse conselho, e os leitores poderiam bloquear a publicação de informações com enorme facilidade – a última cláusula parece sair do “Procure Saber” brasileiro.

Pelo mundo todo, a discussão entre privacidade e intrusão na vida das pessoas incendeia corações e mentes, mas restringir a liberdade de expressão é a pior solução. Todas essas coisas horríveis cometidas em nome do jornalismo pelos tabloides são crimes pela lei britânica. Não precisa inventar nada para punir tanto o grampo na caixa de telefones dos cidadãos quanto pagamento de propina, relações corruptas com a polícia e políticos. Falta aqui – e todos concordam – um sistema rápido para examinar queixas de abusos e de erros dos jornais A tentativa de controlar pela primeira vez em 300 anos a mídia britânica já teve um péssimo efeito colateral: o governo está ameaçando impedir o “Guardian” de continuar publicando os documentos vazados por Snowden, sob o argumento de que é antipatriótico.

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Helena Celestino, do Globo

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