Segunda-feira, 01 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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O ‘jornalismo’ de um lado só

Por Sylvia Debossan Moretzsohn em 19/11/2013 na edição 773

O embate ideológico com o jornalismo produzido nas grandes corporações de mídia e uma compreensão equivocada do significado de se assumir uma posição clara em relação à escolha e ao enfoque das pautas, por parte de quem atua na mídia alternativa, têm provocado distorções que às vezes entram em conflito com princípios elementares da ética exigida no desempenho profissional. Foi o que ocorreu em fins de agosto, quando a publicação eletrônica de um sindicato de trabalhadores divulgou, na rubrica “direitos humanos”, matéria que convocava para uma reunião do Movimento Negro a partir de denúncia de racismo contra uma professora universitária (ver “Estudante denuncia aula de racismo na UFF“ ), que entretanto não havia sido ouvida e poderia demonstrar que tudo não passou de um mal-entendido.

Mais tarde, o jornal O Globo noticiaria o fato de maneira bem diversa (ver aqui), expondo os vários lados da questão.

O caso foi apreciado pela Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio, que na semana passada emitiu nota de esclarecimento (ver abaixo “Comissão de ética esclarece caso de denúncia de racismo”), diante da inevitável repercussão que uma história dessas ganha nas redes sociais, do prejuízo que acarreta a quem é denunciado sem ter a oportunidade de se defender e das distorções ocorridas desde então.

À parte a relevância da situação em si, importa discutir a concepção de jornalismo que está na sua origem: em síntese, a ideia de que defender uma causa implica dar voz apenas aos correligionários, e ignorar quem pensa diferente.

Descartar o lado do outro

O trecho reproduzido a seguir, retirado do longo texto em que a editora do site procura justificar a publicação da referida matéria, é muito significativo:

“Quando divulgamos uma passeata em favor dos direitos de uma categoria de trabalhadores ou contra as políticas de remoção dos governos Paes e Cabral ou, ainda, contra a privatização e a entrega das riquezas naturais do país como o petróleo e a água à exploração da iniciativa privada, não nos sentimos na obrigação de ouvir Paes, Cabral, Lobão e os lobbistas da iniciativa privada. Eles já contam com toda a mídia grande para expor suas ideias, muitas vezes mentirosas, e para convencer a população. Nós, mídia alternativa, tentamos dar Voz a quem habitualmente não tem. Não é razoável sermos considerados ‘sem ética’ por essas escolhas”.

É claro que não faria nenhum sentido comparar uma professora universitária – que, a propósito, não teve “voz” para contestar a denúncia – a autoridades, governantes e empresários com poder para influenciar o noticiário. Mas o trecho, a rigor, diz respeito a algo que vai além do caso específico, já de si muito grave. Pois significa que as autoridades que contestamos não devem ser ouvidas, já que têm “a mídia grande” para fazer sua propaganda.

Isto não é um absurdo apenas porque se ignora o direito ao contraditório, que toda mídia democrática deveria garantir, mas porque – já considerando a perspectiva contestadora da mídia alternativa – abre-se mão da oportunidade de confrontar a autoridade que se deseja criticar, a partir de questões que, em princípio, a “mídia grande” não colocaria.

Porém, para isso é preciso preparo, qualificação, competência. Não é fácil enfrentar um político ou empresário treinado por sua assessoria. O episódio em que a Mídia Ninja entrevistou com exclusividade o prefeito do Rio, no auge das manifestações de junho, é bem demonstrativo do quanto é preciso aprender para botar o inimigo “ensaboado” contra a parede.

O caso da denúncia de “racismo”, como se vê, expôs um aspecto preocupante que pauta a conduta de boa parte dos militantes das inúmeras iniciativas de mídia alternativa que vêm proliferando nos últimos tempos: essa confusão que os leva a entender que defender um lado implica ignorar o lado do outro. Podem prosseguir nessa linha, se estiverem convictos de que esta é a forma mais correta de exercerem sua militância. Mas estarão fazendo propaganda, doutrinação, qualquer coisa parecida. Menos jornalismo.

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Comissão de Ética esclarece caso de denúncia de racismo

A Comissão de Ética do SJPMRJ vem a público esclarecer a polêmica indevidamente criada pelos jornalistas Fernando Paulino e Fátima Lacerda, que divulgaram textos na internet com afirmações falsas sobre os motivos que levaram a Comissão a lhes pedir explicações sobre uma reportagem na qual uma professora acusada de racismo não fora ouvida. 

A matéria, intitulada “Estudante denuncia aula de racismo na UFF“, é de autoria de Fernando Paulino e foi publicada no dia 29 de agosto no site da Agência Petroleira de Notícias, coordenado por Fátima Lacerda. Teve mais de 2.200 acessos e logo foi compartilhada em redes de e-mails, muitos deles acompanhados de manifestações de espanto e surpresa. 

O caso, entretanto, já havia sido analisado pelo Colegiado de Unidade do IACS no início daquele mês, onde foi lido documento (ver abaixo “A carta da professora”) em que a professora, do Departamento de Ciência da Informação, explicava que havia aplicado uma prova baseada num texto repleto de preconceitos (não apenas contra negros, mas também contra homossexuais e judeus) para testar a capacidade dos alunos de contestar aqueles argumentos (ver abaixo “A prova polêmica”). O Colegiado acolheu as justificativas da professora, amparadas ainda por um abaixo-assinado de 24 alunos, e deu o caso por esclarecido, conforme ata da reunião do dia 8 de agosto.

Entretanto, independentemente de quaisquer considerações sobre o mérito da questão, o problema que levou a Comissão a pedir explicações aos jornalistas foi o descumprimento do princípio ético elementar de ouvir quem é acusado de um crime. O que, aliás, é explicitado pelo nosso Código de Ética, que diz:

Art. 12. O jornalista deve:

I – ressalvadas as especificidades da assessoria de imprensa, ouvir sempre, antes da divulgação dos fatos, o maior número de pessoas e instituições envolvidas em uma cobertura jornalística, principalmente aquelas que são objeto de acusações não suficientemente demonstradas ou verificadas. (grifo nosso)

Os fatos e as distorções

No dia 4 de outubro, a Comissão enviou mensagem a ambos expondo a situação e solicitando uma justificativa, por escrito ou numa conversa presencial. Ambos escolheram a segunda opção e a reunião foi marcada. Os contatos foram feitos reservadamente, como manda o Regimento da CE. 

Porém, os dois jornalistas resolveram dar publicidade ao caso, fazendo circular na internet um texto que ignorava o sentido original da nossa demanda e deturpava o motivo da reunião, afirmando que, “pela primeira vez na história”, a CE iria tratar da “questão racial na mídia” (ver “Enfim, Comissão de Ética dos jornalistas pauta a questão racial na mídia“). Isto, como se vê, era flagrantemente falso.

O texto funcionava, ainda, como uma convocação a que os interessados participassem da reunião, o que seria impossível, de acordo com o Regimento. 

Consideramos essa atitude impertinente, abusiva, intimidatória. Por isso, cancelamos o encontro presencial e solicitamos o envio das justificativas por escrito. 
O resultado foi mais um texto mentiroso (ver “Comissão de Ética foge da discussão racial e cancela audiência“), amplamente divulgado na internet, que condenava a Comissão de Ética por “fugir da discussão racial”, algo que jamais esteve na pauta. Mais uma vez os dois jornalistas se fizeram de vítimas.

Num longo texto também veiculado pela internet (ver abaixo “Racismo em debate”), Fátima identifica os membros da Comissão com as “elites intelectuais” que “preferem repreender e/ou punir aqueles que ousam colocar o dedo nessa dolorosa ferida [do racismo]” e considera “indevidooenquadramento” supostamente promovido pela ComissãodeÉtica. Supostamente, porque não houve “enquadramento” algum: houve um pedido de esclarecimento, enviado reservadamente a ambos os jornalistas. Por isso, tampouco houve, da parte da Comissão, qualquer tentativa de expor ao constrangimento esses profissionais, como acusa a autora.

Fátima expõe sua versão dos fatos, baseada exclusivamente nas impressões e informações da aluna denunciante, seguida de uma detalhadíssima apuração que avança para o que seria lícito ou não lecionar na disciplina ministrada pela professora. Insiste em que a matéria publicada no site da APN teve o objetivo de convocar para uma reunião em que o Movimento Negro de Niterói discutiria o caso. Só se esqueceu da necessidade de ouvir o “outro lado”, o que não teria sido difícil, inclusive porque o assunto já havia sido discutido pelo Colegiado de Unidade do IACS.

Mas, aparentemente, isso não é importante, para o jornalismo da “mídia alternativa” ao qual a autora se filia:

“Quando divulgamos uma passeata em favor dos direitos de uma categoria de trabalhadores ou contra as políticas de remoção dos governos Paes e Cabral ou, ainda, contra a privatização e a entrega das riquezas naturais do país como o petróleo e a água à exploração da iniciativa privada, não nos sentimos na obrigação de ouvir Paes, Cabral, Lobão e os lobbistas da iniciativa privada. Eles já contam com toda a mídia grande para expor suas ideias, muitas vezes mentirosas, e para convencer a população. Nós, mídia alternativa, tentamos dar Voz a quem habitualmente não tem. Não é razoável sermos considerados ‘sem ética’ por essas escolhas”.

É, além de tudo, curioso ver como se associa o poder de fogo de governantes, autoridades e grandes empresários ao de uma simples professora universitária. Mas o sentido desse jornalismo é bem claro: em qualquer caso, daremos apenas a nossa versão dos fatos, sem reconhecer o elementar direito ao contraditório. O que contraria flagrantemente o Código de Ética, no artigo citado no início deste texto.

Tal prejulgamento levou, inclusive, a jornalista a afirmar que a presidente da Comissão tinha “relações próximas” com a professora acusada, o que é falso, a não ser que se pretenda sugerir que basta trabalhar numa mesma instituição ou empresa para ter “relações próximas”. As duas professoras nem sequer se conhecem. Porém, a manobra maledicente é clara: insinuar que a presidente da Comissão agiu por interesses pessoais ou corporativos, e não em defesa do respeito à ética. 

Foi essa sucessão de deturpações que levou a Comissão a prestar publicamente esses esclarecimentos. Porque não apenas esses dois jornalistas descumpriram um princípio ético básico ao não ouvir uma acusada, mas publicaram sucessivas inverdades em relação aos procedimentos da Comissão, tentando jogá-la contra a categoria que, democraticamente, a elegeu, e contra todos os que lutam pelo respeito aos direitos fundamentais dos cidadãos e à boa e competente prática jornalística. 

Rio de Janeiro, 6 de novembro de 2013

A Comissão de Ética

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A carta da professora

Atendendo a solicitação de esclarecimento acerca do texto utilizado na construção da prova de disciplina de Ação Cultural em Unidade de Informação redijo esta carta, que tem o principal propósito de esclarecer que se tratava de um uso primário do texto em questão (analise do discurso), onde os alunos poderiam identificar e conflitar com os conceitos debatidos no decorrer da disciplina, como o determinismo biológico e geográfico, o etnocentrismo, o preconceito, o racismo, a endoculturação, a cultura e a ação cultural.

Para explicar a prova, primeiro discorrerei acerca da aula em si.

No decorrer da disciplina, os alunos foram motivados, a partir da leitura inicial de fragmentos do livro Cultura: um conceito antropológico do professor doutor Roque de Barros Laiara, da UnB, a perceberem a evolução do conceito de cultura, e de como este foi se modificando ao longo dos últimos dois séculos. Leram que no século XIX seguia-se uma perspectiva cultural positivista e evolucionista, em que o conceito era associado às concepções deterministas e utilizado ideologicamente por políticas imperialistas de dominação, já que, segundo esta visão, existiriam povos em estágios de evolução diferentes e/ou de inferioridade/superioridade, pois tratavam a cultura como algo inato.

Ainda no texto de Laiara, aprenderam que a partir das mudanças sociais e do próprio debate acerca do tema, o conceito ganhou nova dimensão com as reflexões de Edward Tylor, que “revolucionou” a visão sobre o que é cultura, introduzindo o conceito de endoculturação, que vê a cultura como um processo de aprendizagem.

Os debates conduzidos durante a aula buscavam sempre suscitar o espírito crítico dos alunos e a compreensão e que a cultura é um processo de aprendizagem humana, e que não se pode aferir a nenhuma etnia um grau de superioridade ou inferioridade. Em aulas expositivas foram ainda expostas as ideias de Chartier acerca das apropriações culturais.

A partir deste amplo debate, e do entendimento que a cultura é um processo humano de aprendizagem constante, foram introduzidos textos que atendiam aos objetivos da aula, que é a atuação da ação cultural em unidades de informação. Percebam que o caminho inicial trilhado pela disciplina era demonstrar, que apesar dos discursos de dominação, a cultura é um processo de aprendizagem e que somente entendendo isso se pode compreender a função e a importância de uma ação cultural.

Para explicar o que é uma ação cultural e o que é um agente cultural, foi apresentado em aula expositiva o texto do professor doutor titular de Ação Cultural da USP O que é ação cultural. Neste texto, o agente cultural é visto como alguém que “serve ao indivíduo, sensibilizando-o para a criação e dando-lhe as armas para repelir a dominação cultural”.

Ao longo do curso o debate foi ampliado a outros textos que já discutiam a ação cultural dentro das unidades de informação. Todos entendiam a ação cultural como uma possibilidade de promover a desenvolvimento pessoal e social da cada um, garantindo o direito a todos, sem distinção, à igualdade e à cidadania.

Uma vez entendido o contexto das aulas, explico mais detalhadamente a prova, pois esta foi uma tentativa de transportação das discussões travadas em sala ao papel, uma vez que utilizando de um texto de cunho racista, de palavras duras e até cruéis, os alunos deveriam demonstrar conhecimento das principais questões apontadas na sala de aula (os conceitos já apontados, o não preconceito, a importância da aprendizagem e da ação cultural).

O texto do qual os alunos deveriam criticar foi retirado de um blog (http://aurorabrasil.blogspot.com.br) cujos artigos são de cunho racista e que foi levado à prova como objeto de análise, para que os alunos pudessem observar como ainda existem pessoas que buscam justificativas científicas para “provar” uma suposta superioridade, assim como no XIX ocorria. Além disso, seu discurso declarado facilitaria ao aluno o entendimento de que se tratava de um texto preconceituoso. O entendimento de que ainda hoje existe preconceito e racismo em nosso país foi por vezes explicito em aula.

A partir disso, as perguntas foram conduzidas de maneira que o aluno de fato apontasse o teor preconceituoso do mesmo, como pode ser visto já na questão 1: “Quais conceitos e concepções de cultura podem ser relacionadas à reportagem extraída do site?” A resposta deveria ser: determinismo biológico e geográfico, e etnocentrismo. Na pergunta 3 também fica declaradamente exposta a não concordância com o conteúdo de texto, onde é perguntado “Por que o conceito de endoculturação diverge da visão apresentada pelo autor do artigo?”, ainda foi questionado se a cultura para o autor era inata ou empírica, o que também evidencia o caráter preconceituoso do texto (segue uma prova em anexo).

As perguntas posteriores, por outro lado, apresentam as idéias defendidas no decorrer da disciplina, como “Qual a importância de Edwatd Tylor, no debate sobre cultura?” Ou quando foi pedido para relacionar o ATUAL conceito de cultura ao conceito de ação cultural, ou ainda quando se questionou “como as ações culturais, em unidade de informação, podem influenciar na vida dos cidadãos?”

Para finalizar este ponto, acrescento ainda que uma semana antes da prova ser aplicada, os alunos receberam um estudo dirigido para auxiliar no estudo da mesma, e nele continha, em meio a 10 perguntas, três questões que podem ainda contribuir para este esclarecimento. “Por que algumas definições de cultura podem levar ao preconceito e ao racismo?”, “qual a importância dos processos de aprendizagem nos processos culturais?”, ou “o meio social define o homem ou o homem define o meio social?”

Diante do exposto, ainda com o intuito de esclarecer definitivamente que o texto não era uma postura pessoal e sim um texto de análise, lembro que ao final do mesmo, constava uma assinatura “Oswaldo Melchior”, mas que logo abaixo indicava se tratar de um Fake, expondo claramente que não era um texto de cunho científico, ou que representasse a academia.

Muito se fala do racismo no Brasil, mas poucos se propõem a debatê-lo de fato. Assuntos como racismo, machismo, homossexualidade, preconceito em geral, são genericamente tratados pela sociedade, e nesse sentido, o lugar onde mais se trava tais discussões é a universidade. Acreditando intensamente que a melhor forma de superarmos os preconceitos é o expondo de forma aberta que utilizei um texto exposto em um blog para alertá-los dos perigos das informações “jogadas” no meio virtual, pois assim levantava duas questões pertinentes ao curso, a questão do preconceito e a questão da procedência da informação, uma vez que esta disciplina é do Departamento de Ciência da Informação.

Confesso que ao receber o pedido de esclarecimento acerca desta prova, muito me surpreendi, uma vez que em sala de aula sempre estabeleci um ambiente harmonioso, em que os alunos expunham seus pensamentos abertamente, mesmo que não fossem acordados por mim. Outro ponto que me provoca estranhamento é o fato de que para que os alunos fizessem adequadamente a prova e tirassem notas desejáveis, estes deveriam identificar que se tratava de um texto ao qual discordava e deveriam criticá-los, e assim foi o que aconteceu, pois dos 47 alunos que fizeram (apenas um aluno não fez a prova) todos identificaram os conceitos debatidos e alcançaram o objetivo da avaliação, atingindo uma média de 8,3 nas notas da turma. Logo, todos identificaram que se tratava de um texto do qual discordava (segue a prova em anexo de uma aluna que atingiu a pontuação máxima).

Assim como em 2013-2 lecionei esta matéria, em 2012-2 também o fiz, inclusive utilizando este texto como fonte primária na prova. Nestes dois semestres tive alunos de diversas etnias, religiões e orientações sexuais, e em momento algum os tratei de forma diferenciada, e especificamente em 2012-2 fui professora de um aluno que atuou por muitos anos em movimento estudantil e no Movimento Negro, e este nunca se mostrou ofendido com a forma em que conduzi a disciplina, ao contrário, sempre contribuiu para um debate mais profundo acerca do assunto. Ainda sobre os alunos, digo que, se por um lado estou sendo questionada, por outro, recebo o carinho e preocupação voluntária de alguns alunos deste semestre, que ao sabem dos fatos, fizeram uma carta explicativa apresentando o entendimento do grupo sobre o ocorrido. (A carta segue em anexo).

Além disso, o uso de fontes primárias polêmicas e de conteúdo preconceituoso sempre foram utilizados em meios acadêmicos para análises sociais. Isto inclusive é visto frequentemente em vestibulares, para que os alunos analisem os discursos. No ano de 2012, por exemplo, a UERJ utilizou de um fragmento do livro de Hitler Minha Vida para fazer uma pergunta sobre a ideologia nazista, e em 2009 usou uma imagem de atletas em saudação ao Fuhrer, num campeonato esportista, com o mesmo objetivo. No entanto, não há dúvidas do caráter democrático da instituição, ao contrário, esta foi a primeira no país a implementar o sistema de cotas, buscando assim uma democracia plena em nosso país.

E se, diante do exposto alguém ainda, em seu íntimo, tenha se sentido ofendido e magoada como palavras tão cruéis e desumanas, peço desculpas. Pois mesmo NÃO as defendendo, sei que este assunto é muito caro a nossa sociedade e que abrem feridas que doem, e eu nunca quis provocar dor, e sim o debate.

Por fim, explico que o motivo pelo qual os alunos receberam esta prova via internet foi em função de sua aplicação estar marcada para o dia 19 de junho, dia que também estava marcada uma grande manifestação no centro de Niterói. Um dia antes, recebi 13 e-mail diferentes, de alunos demonstrando preocupação com a insegurança a que estaríamos expostos, inclusive argumentando que três alunas encontravam-se grávidas. Como até então a UFF não se pronunciara acerca do assunto, e sentindo o peso de tantas vidas sob minha responsabilidade, permiti que os alunos fizessem a prova fora da sala. No dia seguinte, a própria UFF suspendeu as atividades. [Niterói, 04 de agosto de 2013. Renata Regina Gouvêa Barbatho]

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A prova polêmica

UFF – UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE
IACS – INSTITUTO DE ARTE E COMUNICAÇÃO SOCIAL
GCI – DEPARTAMENTO DE CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO
DISCIPLINA: AÇÃO CULTURAL EM UNIDADE DE INFORMAÇÃO – 2013-1
Professora: Renata Regina Gouvêa Barbatho

Prova

Regras para elaboração da prova:

– A prova poderá ser feita individualmente ou em dupla;

– Não poderá haver citações diretas com mais de três (3) linhas;

– Leia o texto (em anexo) antes de responder as questões.

Após a leitura do artigo de Oswaldo Melchior, “Estudo provando que o negro é inferior”, responda as questões:

1- Quais conceitos e concepções de cultura podem ser relacionados à reportagem extraída do site?

2 – Explique o significa dos conceitos de “determinismo biológico” e “determinismo geográfico”:

3 – Porque o conceito de endoculturação diverge da visão apresentada pelo autor do artigo?

4 – Para o autor do artigo a cultura é inata ou empírica? Justifique:

5- Qual a importância de Edward Tylor, no debate sobre cultura?

6 – Relacione a atual conceito de cultura, na antropologia, com uma ação cultural:

7 – Como as ações culturais, em uma unidade de informação, podem influenciar na vida dos cidadãos?

ANEXO

Estudo provando que o negro é inferior

[…] Os primeiros exploradores da África Oriental foram os árabes muçulmanos, eles escreveram como ficaram chocados com a nudez, o paganismo, o canibalismo e a pobreza dos nativos. Um deles afirmou que os negros possuíam a natureza de animais selvagens. Outro se espantou ao descobrir que as crianças não sabiam quem era o pai. Centenas de anos mais tarde, os exploradores europeus tiveram as mesmas impressões. Eles relataram que os africanos pareciam ter pouca inteligência e poucos vocábulos para expressar pensamentos complexos, também reclamaram da falta de hábitos de higiene. Todos os relatos seriam fruto do etnocentrismo? Certamente que não, pois a história está repleta de narrativas sobre visitantes de culturas bem diferentes que mesmo assim elogiaram as qualidades dos outros povos. Os brancos que participaram das viagens de exploração à China eram tão racistas quanto aqueles que exploraram a África, mas suas descrições eram diferentes das que, tanto eles quanto os árabes, escreveram sobre os africanos. Marco Polo descobriu que os chineses tinham construído boas estradas, pontes, cidades ligadas por canais, um sistema de recenseamento, mercados, padrões de pesos e medidas, e não apenas moedas, mas também dinheiro de papel. Mesmo estando consciente da grandeza da Antiga Roma, o italiano Marco Polo escreveu: “Não existe raça mais inteligente na Terra do que os chineses”. Para explicar tanta disparidade, os sociólogos defendem que não é possível comparar culturas, porque todas são igualmente evoluídas, cada uma da sua maneira. Ignoram que fatores objetivos, entre eles: expectativa de vida, saneamento básico e tratamento médico são usados até hoje na comparação de cidades, estados e países. Pena que poucos defensores dessa posição estejam dispostos a abandonar definitivamente a civilização para morarem em tribos.

As diferenças também se manifestam quando as duas raças convivem em sociedade. Nos EUA, os pretos representam menos de 13% do total da população, no entanto, são responsáveis por 50% das detenções por homicídio e roubo, 67% dos detidos por furto são pretos. 50% das vítimas de todos os crimes combinados reportam que o agressor era negro, o que afasta a possibilidade das estatísticas policiais serem tendenciosas. Além disso, os pretos são responsáveis por grande parte dos crimes ditos de “colarinho branco”. Assim, são negras 33% das pessoas presas por: fraude, falsificação, contrafacção e recepção de objetos roubados, bem como representam 25% dos presos por desvio e apropriação indébita. Os crioulos só estão sub-representados nos delitos fiscais e financeiros, os quais são praticados por pessoas de elevada posição social. Os resultados não só se repetiram em estudos feitos na Europa, mas também no Anuário da Interpol, mostrando que esse padrão racial é consistente numa escala global.

Outro traço comum nos pretos é a promiscuidade, conseqüentemente, a maioria dos portadores de doenças sexualmente transmissíveis são da raça negra. A Organização Mundial de Saúde acompanha a ocorrência das doenças sexuais, tais como: sífilis, gonorréia, herpes e clamídia. Ela reporta baixos níveis dessas doenças na China e no Japão e altos níveis na África. Estudos feitos nos Estados Unidos, em 1997, constataram que a sífilis nos negros era 24 vezes maior que nos brancos. Enquanto nos brancos a taxa de sífilis era de 0,5 casos por 100.000 pessoas, nos negros era de 22 casos por 100.000. Um recente relatório concluiu que 22% das jovens moradoras de bairros problemáticos das cidades americanas (na maioria negras) sofriam de clamídia. Basta visitar um baile funk para comprovar o que estamos dizendo.

As maiores diferenças estão no quesito inteligência, apesar do teste de QI não ser perfeito, ele tem se mostrado capaz de prever o sucesso acadêmico e profissional. Baixo QI prediz: abuso infantil, crime, delinquência, má saúde, propensão para acidentes, geração de crianças fora do casamento, divórcio antes de decorridos cinco anos e, até mesmo, o ato de fumar durante a gravidez. A média de QI nos orientais é de 106, nos brancos por volta de 100 e nos negros cerca de 85. Usando o teste das Matrizes Progressivas de Raven, que mede o raciocínio sem considerar informação cultural específica, Kenneth Owen obteve o QI de 70 para africanos negros de 13 anos que frequentavam o sistema escolar sul africano, a mais baixa até hoje registrada, vale ressaltar que QI de 70 é considerado deficiência. O QI dos mestiços aumenta de acordo com a quantidade de ancestrais brancos, os mestiços da África do Sul têm um QI de 85, o mesmo que os negros nos Estados Unidos, Grã-Bretanha e Caraíbas. Diversos testes foram realizados e obtiveram resultados semelhantes, inclusive aqueles conduzidos por psicólogos negros, o que fez o Nobel de Fisiologia/Medicina James Watson declarar, em artigo publicado no Sunday Times Magazine de outubro de 2007, que estava “inerentemente pessimista quanto às perspectivas da África” porque “todas as nossas políticas sociais estão baseadas no fato de que a inteligência deles é a mesma que a nossa, enquanto que todos os testes dizem que não é assim”, o que custou seu emprego. Você, mulher branca, ao ler isso, ainda quer engravidar de um macaco? Ao contrário do que a maioria pensa, a raça vai muito além da cor da pele.[…]

Autor: Oswaldo Melchior (filósofo e teólogo)

(pouco me importa se é ‘fake’ ou não)

Disponível em: http://aurorabrasilis.blogspot.com.br/2012/04/estudo-provando-que-o-negro-e-inferior.html Acesso em: 14 de jan. de 2013.

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Racismo em debate

Fátima Lacerda

Dados e reflexões sobre o caso da aplicação de uma prova de conteúdo racista no curso de Biblioteconomia da UFF

No dia 6 de novembro de 2013, às 19 horas, eu, Fatima Lacerda, e o jornalista Fernando Paulino estaremos depondo na Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro, a propósito de um texto publicado pela Agência Petroleira de Notícias/APN (www.apn.org.br),onde sou jornalista-responsável, e redigido por Paulino

Anota publicada na APN convocava uma reunião de representantes do Movimento Negro, para que se posicionassem e propusessem encaminhamentos, em relação a uma situação ocorrida na Universidade Federal Fluminense (UFF), envolvendo a denúncia de uma prova de conteúdo racista que a aluna Marcia Bretas se recusou a fazer.

Encaminhoo relato a seguir para que tomem conhecimento do que se passou. Considero indevido o enquadramento dos jornalistas pela Comissão de Ética, tanto mais porque estou convencida de que a aplicação daquele texto (efetivamente racista) foi inadequada e descabida.

Entendo que expor a mim e ao jornalista Fernando Paulino a esse constrangimento é uma questão política que evidencia a necessidade das nossas elites intelectuais aprofundarem o debate sobre o racismo no Brasil, em lugar de banalizarem o que em hipótese alguma pode ser banalizado. Pior. Nossas elites intelectuais parece que preferem repreender e/ou punir aqueles que ousam colocar o dedo nessa dolorosa ferida, que marca a ferro e fogo a sociedade brasileira, ignorando a persistência do racismo e a necessidade de superarmos essa chaga.

O país que inventou a “teoria do branqueamento” e ontem como hoje mantêm suas indisfarçáveis políticas de extermínio de negros e pobres, malgrado tantos esforços continua a ser de maioria negra e parda. Mas será que o Brasil se envergonha de si mesmo?

Caso tenham paciência de ler, relato os fatos de que tomei conhecimento, alguns dos quais participei, e anexo documentos a que tivemos acesso, apresentados pela aluna Márcia Bretas, pela professora Renata Gouvea Barbatho e por nós produzidos. O anexo 2 corresponde à prova aplicada pela professora Renata Gouvea Barbatho, na disciplina Ação Cultural em Unidades de Informação, do curso de Biblioteconomia da UFF.

OS FATOS

No dia 29 de agosto de 2013, a partir da denúncia da aluna Márcia Bretas, que nos procurou, o jornalista Fernando Paulino redigiu um texto que a Agência Petroleira de Notícias (APN) publicou, em sua página eletrônica, com a intenção de convocar uma reunião de representantes do Movimento Negro para se posicionarem a respeito de um caso que havia ocorrido na Universidade Federal Fluminense (UFF). O texto da APN é o anexo 3.

Márcia estava visivelmente nervosa, transtornada, afirmando estar sofrendo bullying na Faculdade de Biblioteconomia da UFF, por parte de alguns alunos, sentindo-se discriminada, criticada e até chamada de “burra”, inclusive via internet, desde que se negou a fazer a prova de conteúdo racista.

situação da aluna que se recusou a fazer a prova

Márcia frequentava as aulas regularmente, sendo assídua e estudiosa, mas declarou que se sentia incomodada com algumas posições expressadas pela professora Renata em sala, especialmente no que diz respeito à atuação de Hitler durante a guerra, “pois a professora estaria minimizando e até justificando seus crimes de guerra”. O mal estar culminou com a prova aplicada a mando da professora via internet, através de uma outra aluna.

Mas a questão não parou por aí. Marcia consultou primeiramente o disque 100 de Direitos Humanos, que a orientou no sentido de fazer uma denúncia. Por indicação de amigos, entrou em contato com o jurista Wilson Prudente, o sociólogo Marcos Romão e o presidente do Sindicato dos Advogados do Rio de Janeiro, Humberto Adami, todos do Movimento Negro. Prudente e Romão passaram a acompanhar de perto o caso.

A aluna sentia-se discriminada por vários colegas e decidiu procurar ajuda junto o DCE, mas afirma não ter encontrado muita receptividade. Em seguida procurou a SEPIR (Secretaria de Promoção da Igualdade Racial) de Niterói. Ela estava chocada com a reação de alguns de seus colegas. Alegava estar sofrendo bullying e demonstrava continuar muito abalada com o conteúdo da prova, que considerou “um texto de convencimento”. Então, decidiu me procurar, “por ser uma jornalista afinada com o Movimento Negro”.

Partilhei com o jornalista Fernando Paulino os documentos que me foram apresentados por Márcia assim como as minhas preocupações. Eu estava sensibilizada com os problemas da estudante e indignada com o conteúdo da prova, sobretudo depois de verificar não haver no texto qualquer referência teórica que fizesse um contraponto àquelas afirmações pseudocientíficas de cunho racista, de autoria de um suposto filósofo e teólogo Oswaldo Melchior (digo suposto, pois abaixo da assinatura do autor do “artigo” estava escrito ‘pouco me importa se é fake ou não’. Disponível em http://aurorabrasilis.blogspot.com.br/2012/2014/estudo-provando-que-o-negro-e-inferior.html)

CONTRAPONTO AO TEXTO CRIMINOSO

Lendo a prova e as questões propostas, buscando nos objetivos da disciplina “Ação Cultural e Unidades de Informação” assim como na Ementa do curso algo que explicasse a aplicação daquele texto, não encontramos justificativa. Observamos que nenhuma das questões rebatia aquele conteúdo. A discussão proposta pela professora era mais rasa, ficando no plano dos conceitos.

Ou seja, havia uma discussão entre os conceitos de “determinismo biológico”, “determinismo geográfico”, “evolucionismo social”, “endoculturação”. Mas nenhum dos autores citados na Ementa e – segundo a aluna, “nenhum dos autores debatidos em sala de aula”, apresentava argumentos que derrubassem por terra as afirmações de base “científica” do suposto filósofo Oswaldo Melchior.

Sobre a Ementa, estava direcionada principalmente para a discussão da captação de recursos em projetos culturais. O texto-base indicado pela professora como leitura preparatória para a prova é de Laraia. Nele o autor ressalta a contribuição do antropólogo inglês Edward Tylor na definição do conceito de cultura. O paradigma do texto é Edward Tylor, autor citado como referência nas questões propostas na prova pela professora Renata Gouvea Barbatho.

No que concerne à questão étnica e racial, Edward Tylor é o evolucionista cujo pensamento serviu de base para justificar a dominação e expansão do Império Britânico sobre outros povos e nações, passando pela China, Ásia, África e Oceânia. Dizia-se, no século XIX, que o Reino Unido “é a terra onde o sol nunca se põe”. Foram as ideias de Tylor, que acreditava na tese de que os mais evoluídos (leia-se brancos) poderiam transferir conhecimento e cultura aos menos evoluídos (leia-se não brancos), que sustentaram a exploração e a arrogância britânica por tanto tempo. O texto a seguir foi retirado do site da Secretaria de Educação do Estado do Paraná:

Para justificar o domínio na África os europeus se basearam na chamada “Teoria Evolucionista” formulada por uma nova ciência gerada no bojo do Imperialismo:a antropologia. Edward Burnet Tylor, considerado pai da primeira definição de cultura concebeu um conceito que definia a humanidade em estágios evolutivos, sendo os europeus civilizados e os africanos primitivos. Dentro dessa perspectiva, atribuiu-se um juízo de valor nas teorias científicas de Tylor para justificar a ação predatória europeia na África. Diversos antropólogos tiveram suas pesquisas financiadas por governos europeus para atribuir um caráter científico na exploração no amplo continente.(….) além do carátercientíficoamissão do homem brancono continente africano se configurou em transposição de valores religiosos, católicos-protestantes, com intento de salvar as almas selvagens desprovidas de noção eclesiástica ocidental. Os missionários europeus condenavam as práticas religiosas africanas por compreendê-las enquanto anticristãs. Esta percepção etnocêntrica justificava e legitimava a catequização dos povos africanos. (Fonte: Secretaria de Educação do Estado do Paraná)

A MATÉRIA PUBLICADA NA APN

Conversei com o colega Fernando Paulino que também é negro, pós-graduado nessa temática, além de ser um amigo e colega na direção do Sindicato dos Jornalistas do Estado do Rio de Janeiro. Extremamente chocado com o material que eu recebi e repassei para ele, Fernando redigiu a nota convocando a reunião do movimento negro que eu, Fatima Lacerda, divulguei, concordando com seu conteúdo. Portanto, assumimos juntos a responsabilidade do texto publicado na APN. Então, já tínhamos refletido sobre todas essas questões anteriormente citadas e que agora transponho para a escrita.

A nota divulgada pela Agência Petroleira de Notícias (ver anexo 3) teve grande repercussão entre militantes do movimento negro e a reunião foi realizada com a presença de vária pessoas (22 assinaram a ata), sendo aberta a palavra a todos, tanto aos alunos que lá estavam para defender a professora quanto às representações de movimentos diversos que fizeram suas críticas e ponderações. Estavam representados as Secretarias de Promoção da Igualdade Racial das três esferas (nacional, estadual e municipal), a Comissão de Direitos Humanos da ABI, a Comissão da Igualdade Racial da OAB, dentre inúmeras outras organizações. A nota foi acessada por mais 2.500 pessoas na APN e reproduzida em vários sites, além de amplamente divulgada pela “lista negra”, que reúne um grande número de militantes da questão racial.

Eu e o jornalista Fernando Paulino nos dedicamos a construir uma imprensa alternativa ao pensamento monolítico da chamada “mídia grande” que presta serviços às grandes corporações econômico-financeiras, moldando cabeças para ajustá-las a um modelo de sociedade que consideramos: racista, excludente, elitista, consumista, machista, sexista dentre outros “istas” que seria cansativo enumerar, além, obviamente, de “branco e conservador”.

A Agência Petroleira de Notícias (APN) como está explicito na página, em “Nossa proposta”, não é neutra. É um instrumento a serviço das lutas emancipatórias do povo brasileiro, pretendendo também ser mais uma trincheira contra o racismo. Quando divulgamos uma passeata em favor dos direitos de uma categoria de trabalhadores ou contra as políticas de remoção dos governos Paes e Cabral ou, ainda, contra a privatização e a entrega das riquezas naturais do país como o petróleo e a água à exploração da iniciativa privada, não nos sentimos na obrigação de ouvir Paes, Cabral, Lobão e os lobbistas da iniciativa privada. Eles já contam com toda a mídia grande para expor suas ideias, muitas vezes mentirosas, e para convencer a população. Nós, mídia alternativa, tentamos dar Voz a quem habitualmente não tem. Não é razoável sermos considerados “sem ética” por essas escolhas.

Ainda sobre a publicação da matéria que resultou na denúncia contra nós à Comissão de Ética dos Jornalistas, provavelmente formulada pela própria presidente a Comissão de Ética, a professora do curso de Comunicação da UFF Sylvia Moretzsohn (que tem relações próximas com a professora Renata Gouvea Bartatho) acredito que eu e o jornalista Fernando Paulino já tínhamos material suficiente para que a nota convocando a reunião do Movimento Negro, com o objetivo de avaliar desdobramentos no caso da aplicação da prova de conteúdo racista, fosse publicada da forma como foi.

Não reconhecemos os motivos para uma retratação, por tudo o que foi dito até agora. Inclusive os encaminhamentos definidos pelo Movimento Negro, conforme propósito da reunião, levaram em conta o depoimento da professora Renata que foi ouvida durante cerca de meia hora, chegando-se à conclusão de que não teria havido a intenção de difundir ideias racistas. O que não justifica a aplicação da prova, efetivamente de conteúdo racista. Daí a decisão de discutir o tema com a Reitoria da UFF, sem buscar culpados.

Entendemos que existem concepções políticas diferentes no debate sobre o tema do racismo no Brasil, o que abordaremos logo adiante, acreditando estar contribuindo para elucidar essa tão polêmica discussão. Mas, insisto: de forma alguma as divergências justificam a disseminação de um texto que, em síntese, refere-se os negros como sendo “burros, sujos, promíscuos, doentes, incapazes, violentos, estupradores, bandidos, descendentes de macacos” e por aí vai: tudo para concluir que a visão evolucionista é mais avançada que “preconceituosa e racista visão do determinismo biológico”. Antes, porém, uma síntese da reunião ocorrida no dia 5 de setembro de 2013.

A REUNIÃO DO MOVIMENTO NEGRO EM NITERÓI

A reunião com representações institucionais do Movimento Negro e militantes foi indicada pelo jurista Wilson Prudente, com apoio do SEPIR de Niterói (Secretaria da Promoção da Igualdade Racial), coordenado pela Tatiara. Nosso papel, meu e do Fernando, enquanto jornalistas, foi divulgar o encontro. O objetivo era reunir autoridades no debate racial para propor desdobramentos.

No dia 5 de setembro de 2013, em Niterói, deu-se a reunião que foi aberta e acompanhada pela Mídia Ninja, com transmissão ao vivo. O encontro contou, inclusive, com a presença da professora Renata Gouvea Barbatho. Ela chegou ao final, quando o debate já estava encerrado, mas foi reaberto para que pudesse expor seus motivos por cerca de meia hora.

Do ponto de vista jornalístico, considerei o evento muito produtivo, democrático e rico, sendo uma oportunidade para que a complexa questão do racismo no Brasil fosse objeto de uma discussão inteligente, a partir de um fato concreto. Creio que todos saíram de lá com essa mesma impressão, incluindo os apoiadores da professora, embora as posições de cada campo não fossem substancialmente alteradas. A professora chegou a pedir desculpas pela utilização de um texto que ela “não sabia estar denunciado junto à Polícia Federal”, admitiu que era a segunda vez que usava aquele texto na UFF, porém a partir de agora não mais o faria.

A reunião indicou que o advogado Rogério Gomes, da Comissão pela Igualdade Racial da OAB-RJ, procurasse o Reitor da UFF, entendendo que, como a própria professora Renata Gouvea Bartatho explicou, “em nenhum momento houve a intenção de divulgar ideologia racista”, porém chegou-se a um consenso sobre a inadequação daquele texto e sobre a necessidade da instituição UFF acompanhar mais de perto e com mais atenção situações que pudessem, ainda que involuntariamente, suscitar práticas e/ou a difusão do racismo.

O encontro entre Rogério Gomes e o vice-reitor da UFF Sidney aconteceu no dia 20 de setembro. De acordo com o secretário da Comissão da Igualdade Racial da OAB-RJ, Rogério Gomes, a professora errou ao reproduzir conteúdos que não teriam fontes confiáveis: “Para o curso da aluna, parece que não tem muita pertinência discutir esse tipo de texto. Além disso, existe orientação para que o docente primeiro tenha uma fonte confiável- declarou o advogado, em reportagem publicada no jornal O Globo e reproduzida na página da APN.

Na reunião com o vice-reitor, o advogado teria afirmado que entende e respeita o princípio da autonomia universitária, mas que esse princípio não pode se sobrepor à Constituição e às leis do país e que a propagação e ideias racistas é crime, daí a necessidade de se ter muito cuidado no tratamento desse tema. Isso foi o que depreendi, a partir de uma conversa telefônica com o dr. Rogério. Na oportunidade, ele disse que preferia resguardar a conversa mantida com o vice-reitor, “para que não acabasse em comentários inconvenientes nas redes sociais”. O representante da OAB-RJ adiou apenas que “a conversa foi promissora e algumas providências seriam tomadas no âmbito da instituição”.

Acreditei que, a partir daí o assunto estaria encerrado, caminhando para a superação. Mas fui surpreendida por um comentário feito pelo jornalista Rafael Duarte, da APN que, assim como a jornalista Cláudia Abreu, também do Sindipetro-RJ, travaram diálogo com a professora Sylvia Moretzsohn, os três na condição de participantes de um grupo de jornalistas via internet.

De acordo com o jornalista Rafael Duarte, a professora Sylvia Moretzsohn considerou “muito grave e anti-ética” a publicação daquela nota convocatória na APN, sem que fosse ouvida sua colega de Universidade, a professora Renata Gouvea Barbatho. Teria dito ainda, ao Rafael, que a professora Renata apresentou vários documentos, ao ser convocada pelo Instituto de Arte e Comunicação da Universidade Federal Fluminense (IACS) para tratar do caso e que a coordenação do IACS a inocentou completamente.

Pedi ao Rafael que me mandasse todos os documentos e que convidasse a professora Sylvia Moretzsohn para uma entrevista na TV Petroleira, onde ela poderia expor suas opiniões livremente. A professora Moretzon não respondeu ao convite. Dos documentos que encaminhou ao Rafael faltou uma prova feita por uma aluna que Renata Gouvea Barbatho havia considerado “exemplar”. Pedi ao Rafael que solicitasse o envio da prova, mas o documento não chegou.

No entanto, chegou a convocatória para comparecermos, eu e o jornalista Fernando Paulino, diante da Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro, em face da formalização de uma denúncia contra nós, imediatamente aceita pela Comissão, “por falta de ética”.

Toda a correspondência segue anexa.

Açõesafirmativas: contra ou a favor?

Sem dúvida questões políticas permeiam todo esse debate. Uma disputa candente entre intelectuais, artistas, cineastas, sindicalistas e ativistas foi travada nos últimos anos sobre as ações afirmativas (popularmente chamadas “cotas”). De um lado alinhavam-se os que eram contrários à aplicação das “cotas” nas universidades. De outro, os que eram favoráveis. Em 2006 o caso foi parar no Supremo Tribunal Federal (STF). Do ponto de vista jurídico, os defensores das “cotas” (ações afirmativas) alcançaram uma histórica e esmagadora vitória em 2009, quando os juízes bateram o martelo. Os ministros do STF votaram a favor da aplicação das cotas raciais e sociais nas Universidades Públicas por unanimidade. Mas se a legislação do país apontou um lado vencedor, no cotidiano das Universidades brasileiras essa batalha de ideias parece não ter fim.

MESTRES: diga-me com quem andas….

Os mestres que orientam nossa formação acadêmica têm grande influência sobre o que somos e pensamos. Terminei o bacharelato em Comunicação Social na Universidade Federal Fluminense em 1976 e dentre os maravilhoso e inesquecíveis professores dos quais tiver a honra de ser aluna, vou destacar apenas um, por seu vínculo com o debate racial, que é o tema em questão: Prof. Dr. Muniz Sodré. Na pós lato sensu sobre Raças e Etnias, no Programa de Educação Sobre o Negro na Sociedade Brasileira (Penesb) da Faculdade de Educação, também na UFF, concluído em 1999, fui orientada pela Prof. Dra. Iolanda de Oliveira e convivi com um time de professores que me convenceram a abraçar a luta pela imperiosa necessidade de superarmos o racismo à brasileira como prioridade em minha vida. Na mesma linha pensavam os professores com os quais eu mais me identificava no Mestrado em Ciência Política, na UFF, concluído em 2005, onde fui orientada pelo Prof. Dr. Gisálio Cerqueira Filho.

Já a historiadora Renata Gouvea Bartatho foi orientada pelo Professor Dr. José Roberto Pinto de Góes, em seu trabalho de final de curso na graduação. Com grande acúmulo sobre o debate racial, o Prof. Góes foi um dos articuladores do “Manifesto dos 113 Cidadãos Anti-racistas contra as Cotas”, que reuniu assinaturas de expoentes do meio artístico, teatral e de intelectuais respeitáveis, mas com posicionamentos diametralmente opostos ao meu e ao do jornalista Fernando Paulino na questão racial.

O professor também é contrário à aplicação da Lei 10639/08, que obriga o ensino da contribuição histórica, cultural e literária dos negros na formação do Brasil, do primeiro grau ao ensino médio, nas escolas públicas e particulares. Em seus artigos, ele chama a Lei 10639/08 de “lei do constrangimento”. Na sua opinião, a lei inventa um racismo que não existe. Propaga a ideia de que se somos um só povo e uma só raça não há motivo para ressaltar as diferenças. Penso, ao contrário, que não adianta varrer para baixo do tapete o racismo que está mais vivo do que nunca: é preciso denunciá-lo e combatê-lo.

A professora Renata Gouvea Barbatho, em sua fala, que foi gravada na reunião do dia 5 de setembro pela Mídia Ninja e por alguns dos seus alunos fez uma espécie de desabafo:

 “Vocês defendem a Lei 10.639/08, mas quando a gente tanta aplicar, criticam” – disse.

Suponho que ela estava argumentando que a aplicação daquela prova era uma tentativa de fazer cumprir a lei. No entanto, o que a legislação propõe é a valorização da contribuição histórica, cultural, literária, tecno-científica (acréscimo meu) dos afro-brasileiros. Acho que não preciso dizer mais.

Não por acaso, Muniz Sodré e Iolanda de Oliveira, meus mestres, assinaram o documento ao STF a favor das cotas. Assinou o manifesto dos intelectuais contrários às “cotas” o professor José Roberto Pinto de Góes, referência da professora Roberta e de muita gente respeitável e famosa, como o jornalista Ali Kamel, diretor-geral da Globo.

Fato é que esse debate ainda vai render muito e cada lado tem suas razões. Mas nada justifica a difusão de ideias racistas através de uma prova, ainda que de forma involuntária, com a melhor das intenções e inadvertidamente.

Obrigada pela paciência,

Fatima Regina Lacerda (jornalista formada e atuante desde 1976, pós-graduada em Raças e Etnias e Mestre em Ciência Política, pela UFF)

VIVA ZUMBI, no mês da Consciência Negra. Axé! [Niterói, 4 de novembro de 2013]

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Sylvia Debossan Moretzsohn é jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora de Repórter no volante. O papel dos motoristas de jornal na produção da notícia (Editora Três Estrelas, 2013) e Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico (Editora Revan, 2007); presidente da Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro

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