Domingo, 07 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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IMPRENSA EM QUESTãO >

O rei está nu, viva o rei

Por Lúcio Flávio Pinto em 26/11/2013 na edição 774

Aos 67 anos, completados no dia 15/11, O Liberal ainda se proclama “o maior e melhor jornal do Norte e Nordeste do Brasil”. Em circulação paga, não é mais. Já há bastante tempo perdeu essa posição para o seu grande concorrente local, o Diário do Pará. Como é que pode aferir ser o melhor? Por defender os compromissos do Estado, através de campanhas que procuram realizar as aspirações da sociedade. Mas quem ainda acredita nisso em sã consciência?

A maior campanha que o jornal da família Maiorana já empreendeu, uma década atrás, foi contra a antiga Companhia Vale do Rio Doce. Talvez nunca, em tempo algum, um órgão da grande imprensa no Brasil – e, quiçá, no mundo – foi tão inclemente numa campanha. Além de dar de duas a três páginas por dia de matérias contra a empresa, O Liberal estampou editorial em toda a capa de uma edição dominical do jornal para atacar a Vale.

Essa investida só parou quando a mineradora deixou de saquear o Estado, não atuando mais como uma empresa colonial? Não. É o que ela faz até hoje. Mas já não se ouve um eco dissonante do grupo Liberal, que se calou e se cala porque borbotões de publicidade são veiculados pela Vale nos veículos da corporação.

Não que isso ajude comercialmente a mineradora, que não é de varejo, vende seu produto em milhões de toneladas, tem poucos compradores (o maior na China) e negocia através de contratos de longo prazo. A farta publicidade nos veículos da família Maiorana (como nos da família Barbalho) é para comprar adesão ou, quando menos, o silêncio conveniente.

Logo, a campanha contra a Vale foi para conseguir anúncios para o grupo Liberal, não para defender os interesses do Pará. E foram assim as campanhas contra o Banco da Amazônia e contra a Celpa, promovidas na mesma época e com o mesmo propósito. Uma vez carreada a publicidade, o império de comunicação se satisfez e deixou de lado sua função de órgão da opinião pública, que é apenas o abre-te-sésamo de acesso à caverna das riquezas ou a gazua para o ingresso em locais fechados.

Pauta de conveniência

Como, então, o jornal pode reivindicar o título de melhor? Como merecer a credibilidade social se age movido por interesses próprios, de mercador de anúncio? Como assumir a função de porta-voz da sociedade e julgador da moralidade pública, a que se arvora o editorial da edição de aniversário? Nela, o jornal diz que jamais se omitirá “em denunciar e execrar alguns personagens, poucos, felizmente, mas perigosíssimos – que têm se aproveitado de cargos públicos e mandatos eletivos para se eleger despudoradamente”.

A carapuça é lançada sobre a cabeça de Jader Barbalho e nela cabe como luva. Mas e as outras tantas, que assolam a classe política paraense e a sua elite em geral, que o jornal elogia e acumplicia? São realmente poucas? Ou são escandalosamente muitas e a elas o grupo Liberal se associa, quando é do seu interesse, como aconteceu recentemente com o senador Mário Couto, erigido em estátua viva da boa conduta, a despeito do seu passado e do seu presente, e deles também se distanciam, por móvel idêntico.

Jader Barbalho, atacado duramente na campanha de 1990, passou a ser tratado pão de ló quando, já no exercício do cargo de governador, voltou a destinar a publicidade oficial aos veículos de comunicação da corporação – claro, a peso de ouro, pelos valores da tabela de preços, raramente aplicada.

Naturalmente, sendo também pródigo com a rede RBA, de sua propriedade, que agora, vivendo à míngua dos recursos do erário estadual, aposta na candidatura do herdeiro do dono, o ex-prefeito Hélder Barbalho, para voltar a receber os recursos do tesouro (e o que fará o grupo Liberal se seu por ora aliado Simão Jatene perder?).

Viciados na política rasteira, os dois grupos de comunicação, que se enfrentam como se o Pará fosse uma rinha de galos de briga, desaprenderam a fazer jornalismo sério, honesto, eficiente. Todo assunto mais importante ou delicado passa pelo crivo dos interesses particulares de cada grupo e das suas articulações políticas, mais explícitas no caso do Diário, mais sutis em O Liberal, que não tem vinculação partidária direta, mas nem por isso menos daninhas ao interesse público.

Dias e dias depois da revelação da gravação feita pelo prefeito de Marabá, João Salame, sobre propinas pagas para obter sentenças favoráveis na justiça eleitoral, nenhum dos dois jornais apresentou aos seus leitores informações suficientes e satisfatórias sobre essa história mal contada. Os assuntos emergem e somem não por critério editorial, mas por conveniência. O distinto público é ignorado, maltratado, vilipendiado. A opinião pública do Pará virou geleia nas mãos dos dois grupos de comunicação.

Estrela maior

Nos seus 67 anos, O Liberal saiu com uma edição farta em anúncios (embora já não tanto como nos aniversários comandados pelo fundador do império, Romulo Maiorana pai) e anêmica de conteúdo. Prefeituras que mal conseguem fazer algum investimento público gastaram um bom dinheiro em peças publicitárias que apenas exaltam o aniversariante, em textos geralmente bisonhos. É para se tornarem bem recebidas pela “casa”, que pode fazer vista grossa para seus malfeitos. O mesmo buscam grandes empresas, que, do ponto de vista estritamente comercial, não teriam motivos para anunciar o que fosse.

Numa das poucas matérias mais informativas sobre a história do jornal, o advogado Zeno Veloso, um dos primeiros colaboradores de O Liberal, quando o jornal oficial do PSD (o Partido Social Democrático do caudilho Magalhães Barata) passou para o controle de Romulo Maiorana, em 1966, lembra a pluralidade de pessoas que gravitavam em torno desse empresário, com posições ideológicas que iam da esquerda à direita, mas, em geral, assumidas com certa consistência. E a qualidade de alguns daqueles a quem o dono do jornal ouvia e que lhe diziam o que nem sempre ele queria ouvir.

Os herdeiros dilapidaram esse patrimônio. Há muitos anos não se ouve uma voz discordante – internamente e externamente – no jornal. O tom é monocórdio – e pobremente uníssono. Nada de debate e controvérsia. Não existe a menos réstia de luz contrária ao brilho dominante da estrela maior da corporação, embora ela não tenha luz própria. Naturalmente, não é o que pensa sua excelência, mas esta é a confirmação da velha história: a nudez do rei só se mantém pela mediocridade da corte que o exalta.

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Lúcio Flávio Pinto é jornalista, editor do Jornal Pessoal (Belém, PA)

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