Sábado, 04 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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ENTRE ASPAS >

A cobertura do centro do poder

Por Lilia Diniz em 03/06/2010 na edição 592

O Observatório da Imprensa exibido pela TV Brasil na terça-feira (1/6) trouxe o segundo e último episódio da série sobre os 50 anos da inauguração de Brasília. Nesta edição, o programa traçou um panorama da relação entre imprensa e poder da transferência da capital federal do Rio para o Planalto Central até a atualidade. Dois dos temas debatidos foram a proximidade entre jornalistas e fontes de informação, e o risco da acomodação da imprensa em Brasília, onde é muito possível fazer uma cobertura burocrática que apenas segue a agenda oficial. Tratou-se também dos primeiros tempos, quando Brasília ficava ainda mais distante dos grandes centros urbanos, e dos riscos e inconvenientes do isolamento vivido no centro do poder. Outros pontos da pauta foram a dependência que a mídia do Distrito Federal tem das verbas do governo e a falta de cobertura da mídia nacional sobre os assuntos do DF.


Para encaminhar essas questões, o Observatório exibiu entrevistas com Carlos Chagas, comentarista do SBT; Carlos Marchi, jornalista; Claudio Bojunga, jornalista e biógrafo de Juscelino Kubitschek; Cristovam Buarque, senador (PDT-DF) e ex-governador do Distrito Federal; Eliane Cantanhêde, colunista da Folha de S. Paulo; Fernando Rodrigues, colunista da Folha de S. Paulo; João Bosco Rabello, diretor de O Estado de S. Paulo em Brasília; Kennedy Alencar, repórter especial da Folha de S. Paulo; Pedro Simon, senador (PMDB-RS); Ricardo Noblat, colunista de O Globo e titular do Blog do Noblat; Sylvio Costa, diretor do Site Congresso em Foco; Tereza Cruvinel, jornalista; Villas-Boas Corrêa, jornalista; Renato Janine Ribeiro, filósofo e Ronaldo Costa Couto, historiador e ex-governador do Distrito Federal.


No editorial que abriu o programa, Dines questionou em que momento Brasília abandonou a sua simbologia republicana. ‘A distância entre as ruas e as esplanadas do poder não pode ser contornada, está embutida no desenho de Brasília e produziu um efeito perverso: as instâncias mais próximas, distritais e, teoricamente, as mais visíveis, tornaram-se as menos acessíveis’, disse. Para Dines, há um problema de comunicação na capital federal.


Depois da inauguração, a polêmica


Desde transferência, a resistência de funcionários públicos e políticos em deixar o Rio de Janeiro foi marcante. Para Villas-Boas Corrêa, o ‘jeitinho brasileiro’ entrou em campo para convencer a sociedade a deslocar-se para o Planalto Central. ‘Começou a farta distribuição de pacotes, que hoje o sujeito esconde nas meias. Naquele tempo não precisava não, porque era às escâncaras’, lembrou. Carlos Chagas contou que a imprensa também mostrou resistência. ‘Não todos, mas muitos jornalistas, repórteres que vinham para cá, vinham para cobrir Brasília, vinham para a aventura, eram corajosos. Mas muitos deles ganharam emprego público, sem concurso, principalmente no Congresso. Essa geração praticamente já desapareceu, mas foi uma forma de se cooptar a imprensa para Brasília’, lembrou.


Quatro anos após a mudança da capital, vem o golpe militar. ‘Brasília poderia ter sido renegada, mas os militares ficaram. Eles gostaram desse cenário. Durante o período militar, Brasília, sem grupos de pressão, sem debate, sem choque, sem conflito, começou a ficar anêmica politicamente. Uma cidade assim, evidentemente, passa sua infância em péssimas mãos’, disse Villas-Boas. Para o filósofo Renato Janine Ribeiro, talvez o golpe militar não tivesse durado tanto tempo se houvesse uma sociedade civil ‘vibrante’ perto da capital.


Somente a partir de 1974, com a posse do general Ernesto Geisel, os meios de comunicação começam a movimentar-se de forma definitiva em direção ao Planalto Central. ‘Os primeiros militares do regime não se esforçaram muito. Mas o governo Geisel retoma a ideia porque o Geisel era um desenvolvimentista, um nacionalista. No governo Geisel isso começa a ser retomado. Foi retomado o processo de transferência de órgãos públicos para Brasília e isso se refletia na imprensa também’, explicou Tereza Cruvinel.


Imprensa e redemocratização


Nos chamados anos de chumbo, a relação da imprensa com o poder em Brasília foi conturbada. ‘Brasília é uma cidade onde a repressão atuava de uma forma absolutamente cotidiana. Brasília tem duas saídas, uma para Goiânia e uma para o Rio de Janeiro, não tem uma terceira. E a gente ali era cercado todos os momentos do dia, era fotografado, quer dizer, o grande Big Brother que eram os olhos da repressão naquela época nos acompanhava em todos os momentos’, disse Carlos Marchi. O jornalista Carlos Chagas ressaltou que muitos profissionais ‘se vendiam’ para a ditadura, mas a maioria resistia.


Outro momento marcante da imprensa em Brasília foi a campanha para as eleições diretas para presidente, em 1984. ‘Eu me lembro que no dia da votação da emenda [Dante de Oliveira], todos nós fomos trabalhar de gravatas amarelas e as moças de blusas amarelas ou casacos amarelos. Havia um engajamento absoluto, muito correto e muito parcial no sentido do bem, naquele momento’, disse Carlos Marchi. No ano seguinte, com a volta do regime democrático, a relação entre imprensa e poder em Brasília faz-se dentro das normas regulares e democráticas.


‘O governo Sarney era, nesse ponto de vista, uma maravilha para se cobrir. Os políticos davam informação, informação circulava. O presidente tinha um nível de tolerância extraordinário para os mais furiosos ataques que ele recebia’, avaliou Ricardo Noblat. Carlos Marchi destacou que a queda do ex-presidente Fernando Collor foi articulada pela mídia. ‘O impeachment do Collor foi encaminhado pela imprensa, a mobilização nacional que a gente teve na época do impeachment foi seguramente tocada pela imprensa. Os escândalos, as CPIs, a CPI dos ‘anões do Orçamento’ e todas as outras que a gente teve foram tocadas e investigadas pela imprensa’, afirmou.


Informação concentrada


Ricardo Noblat criticou a falta de circulação da informação no governo Lula. ‘Acho que nesse governo houve uma concentração de informação muito maior do que nós tivemos nos governos anteriores. Nós todos tínhamos fontes de informação dentro do governo e se você sair procurando hoje, mesmo entre aqueles jornalistas mais afamados, de melhor reputação, eles todos irão reclamar da mesma coisa. A informação se tornou mais restrita, mais sob controle, mais fechada’, avaliou.


A imprensa em Brasília vive um desafio permanente: apurar informações em uma capital onde praticamente a metade dos habitantes depende diretamente do Estado. Noblat sublinhou que há um alinhamento de grande parcela da população de Brasília, que vive em função do poder. ‘São funcionários públicos, funcionários do Congresso, o poder é um grande empregador. E essas pessoas, por mais que tenham consciência política ou não, elas dependem disso, elas temem a denúncia, elas temem a perda de status, elas sabem muito mais do que elas contam. Os colegas, nós jornalistas, temos muita dificuldade de conseguir informações, justamente por causa disso’, ressaltou.


Fernando Rodrigues destacou que Brasília depende do dinheiro público. ‘É uma cidade-Estado dependente. Se não fosse o governo, isso aqui não existiria’, comparou. ‘O problema de Brasília é que está desequilibrada a balança para o lado do poder, enquanto que nós deveríamos, para ter uma cidade menos carregada dos eventuais vícios do poder, ter um contrapeso forte em que você não precisasse tanto do poder para a vida das pessoas, para a economia, para a formação, para a opinião, para tudo’, observou Renato Janine.


Imprensa hoje


Veterano na cobertura política, Villas-Boas Corrêa criticou a falta do ‘jogo político’ em Brasília. ‘Não tenho o que apurar. Se me chamassem hoje para ir para Brasília, eu não vou. Fazer o que lá? Conversar com quem e o quê? Eventualmente, uma ou outra exceção, eu telefono, a gente bate papo ao telefone. Brasília hoje é coberta por um bando de repórteres, é quase impossível arranjar uma notícia exclusiva’, avaliou.


Kennedy Alencar ponderou que o Congresso Nacional diariamente está ‘lotado de jornalistas gastando sola de sapato o dia inteiro’. Com as novas tecnologias da informação, a cobertura precisou adaptar-se ao novo ritmo. ‘O telefone não era tão importante naquela época, passou a ser importante nos anos 1960, 70, 80. Agora tem a internet, se apura muita coisa por torpedo também, tem o twitter. Tem ministro que dá notícia pelo twitter. Então mudou, não é? Eu acho que a sola de sapato continua sendo gasta do mesmo jeito, ou a ponta do dedo teclando mais na internet. Acho que só é diferente’, disse.


João Bosco Rabello argumentou que, eventualmente, a imprensa em Brasília pode tornar-se acomodada. ‘Você pode cobrir o Congresso Nacional de maneira burocrática. `Cobrir agenda´, como a gente fala aqui, `cobrir o prédio´. Esse é o risco que existe, mas é um risco que a gente cai nele também sai dele porque a qualidade cai e as pressões vêm.’


Outra dificuldade na relação da imprensa com o poder em Brasília é a proximidade com as fontes de informação. O senador Cristovam Buarque avaliou que até os anos 1980 havia o risco de a relação entre imprensa e poder na capital tornar-se promíscua porque não havia muitas opções de lazer na cidade. ‘Como Brasília é uma cidade pequena, criava uma intimidade dos políticos com os jornalistas que podia se transformar numa cumplicidade pela amizade’, disse. Para o senador, o panorama atualmente é diferente porque as opções de entretenimento já estão pulverizadas.


‘O desenho da cidade com todos os prédios públicos próximos, essas avenidas largas e tudo muito predeterminado já levou muita gente a descrever Brasília como uma espécie de autorama stalinista, onde as pessoas são obrigadas a ir aos lugares certos, fazer as coisas certas. Eu acho muito prático. Agora, é evidente que existe um ambiente deletério que se forma muitas vezes por conta da proximidade excessiva, em alguns casos, não todos, da relação promíscua entre fontes oficiais e jornalistas. Agora, em benefício de Brasília é necessário dizer que esse tipo de relacionamento deletério, promíscuo existe em todas as capitais mundiais’, avaliou Fernando Rodrigues.


Cobertura distrital


Sempre voltada para as esferas do poder central, a mídia na capital federal deixa de lado o Distrito Federal. Eliane Cantanhêde disse que, em Brasília, a imprensa está vocacionada para cobrir o poder em todas as suas formas, enquanto Rio de Janeiro e São Paulo, por exemplo, têm uma cobertura mais plural e ligada ao cotidiano. ‘A gente têm a essência do jornalismo político, mas esse jornalismo político não está olhando para a Câmara [Distrital], para o governo local’, criticou.


Noblat notou que os grupos que comandam os jornais de Brasília são atrelados ao poder local e, por isso, não têm uma postura crítica. ‘A imprensa local vive de publicidade do governo do Distrito Federal. Até um fato interessante, perigoso de a gente falar, mas interessante. Os principais telejornais das principais redes de Brasília estão aqui, assim como a imprensa local, na hora do telejornal eles dão a notícia. Arruda é chamado de ladrão e `fulano renunciou´ e `vão perder o mandato´ e `só tem ladrão´ e `vai ter intervenção´. Os telejornais estão dando as notícias certas, só que na hora do break, quais são os anúncios que entram? `O governo do Distrito Federal está fazendo mil obras´, criancinhas sorrindo e gente se abraçando’, explicou Carlos Chagas.


O Observatório questionou se, em Brasília, a capital virou uma ‘ilha da fantasia’. Para Cristovam Buarque, a capital tem as mesmas características de outras cidades brasileiras onde há grande desigualdade entre ricos e pobres. ‘É uma ilha de fantasia porque o Brasil é um arquipélago de ilhas de fantasia. De fato, o Plano Piloto é parte deste arquipélago’, ponderou. Kennedy Alencar comentou que os moradores correm o risco de achar que ‘o Brasil é Brasília’, mas é injusto falar que é uma ilha da fantasia porque a capital é uma síntese do Brasil. Fernando Rodrigues destacou que para manter um padrão de vida tão alto no centro da capital há um ‘cinturão enorme de pobreza’ ao redor.


Governo sem pressão


‘Não tenho dúvida nenhuma de que a disposição espacial da cidade afasta, sim, a população do poder. Ela serve de alguma forma para anestesiar a pressão popular. Brasília é uma cidade inóspita para o pedestre. Você tem que ter carro para se locomover. A gente brinca em Brasília que não tem aquela coisa da calçada, não tem um centro. A Praça dos Três Poderes não tem uma árvore, tem um sol muito forte. Você não vê ali as pessoas caminhando. Então, é uma cidade que dificulta o acesso da população aos prédios públicos, à presidência da República, ao Congresso. Tanto que quando há uma manifestação popular em Brasília, ela é organizada’, analisou Kennedy Alencar.


Para Cristovam Buarque, a pressão hoje é feita através da internet. ‘A praça hoje é virtual. Se você faz uma pressão de rua, você junta cem, mil. Você conseguiu dois milhões de assinaturas para a Ficha Limpa. Não precisou ter morador em Brasília pressionando pela Ficha Limpa. O Brasil inteiro se mobilizou. O Brasil virou uma grande praça, virtual, de todo o mundo. Essa é a praça do futuro’, disse. O senador Pedro Simon ponderou que a pressão popular na capital hoje não se transforma em crise política como ocorria quando o centro de poder estava no Rio de Janeiro, onde a população ‘acuava’ o poder.


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Capital da utopia


Alberto Dines # editorial do Observatório da Imprensa na TV nº 548 , no ar em 1/6/2010


Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.


Onde é que o avião perdeu o rumo e o Plano-Piloto perdeu o piloto? Em que ponto da sua história Brasília – cidade-monumento – abandonou a sua simbologia republicana? Os anos de chumbo teriam sido os responsáveis pelo arquivamento do maior feito dos anos dourados?


Os anos de chumbo acabaram há um quarto de século, a censura foi derrotada e substituída pela transparência e esta transparência está servindo justamente para exibir uma grosseira caricatura de modernidade. Neste segundo episódio da série sobre os 50 anos da criação de Brasília vamos embarcar na máquina do tempo para fazer o caminho inverso: como o futuro transformou-se em passado e a promissora Novacap passou a ser uma réplica da arcaica Velhacap.


O carismático JK gostava de estar perto do povo, mas não quando precisava tomar decisões. A distância entre as ruas e as esplanadas do poder não pode ser contornada, está embutida no desenho de Brasília e produziu um efeito perverso: as instâncias mais próximas, distritais e, teoricamente, as mais visíveis, tornaram-se as menos acessíveis. E nas ocasiões em que a mobilização popular seria indispensável, percebeu-se que a cidadania desaprendeu a se manifestar, a não ser quando assistida.


A incrível sucessão de escândalos no cinquentenário da cidade ofuscou os festejos e desvendou um elenco de questões políticas, jurídicas, urbanas e institucionais até hoje intocadas. Os edifícios da capital flutuam em cima de elegantes pilotis, mas dentro deles algo não flui como deveria. No vasto planalto, em meio a tanto espaço, há um problema de comunicação.

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Jornalista

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