Sábado, 11 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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ENTRE ASPAS >

A cobertura jornalística que virá

Por Wilton Garcia em 04/06/2010 na edição 592

Começa a festa do arco-íris em São Paulo, com um colorido que está nos rostos de turistas daqui e de várias partes do mundo. Celebra-se, no domingo (6/6), o mês da diversidade sexual. O palco é a São Paulo de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT) e, por que não, de simpatizantes heterossexuais. A metrópole aglutina um número significativo de turistas em razão do feriado, com o fim de semana prolongado. Ainda que não seja carnaval, torna-se uma oportunidade para ver os rapazes da banda passar.


Entre solenidades políticas, culturais e festividades, a 14ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo transforma-se em imagens (fotografias e vídeos) veiculadas por diferentes segmentos midiáticos. A cobertura jornalística provavelmente deve registrar fatos em cenas incríveis, com inesgotáveis informações. Evidentemente, diferentes acontecimentos são documentados e servem de base para pauta de diversas editorias.


E então, como será a cobertura jornalística desse evento? Espero que não seja conservadora, tradicionalista, nem tão alternativa, aberta. Também não precisaria ser convencional, pois é possível articular o conjunto informativo de anotações jornalísticas com criatividade.


Informação e notícia


Preocupam-me as maneiras como serão retratadas as comunidades LGBT durante o evento. Ao apontar as linhas editoriais, a grande imprensa tenta instaurar sua padronização – uma normatização de imagens equivocadas acerca das minorias sexuais. É necessário ficar atento aos desafios dessa cobertura para eliminar a possibilidade de imagens e textos tendenciosos, produzidos pelo jornalismo insensível e sem escrúpulo que manipula a informação com excessos e não ajuda na qualidade de divulgação da notícia.


Para além do jornalismo impresso, televisivo, radiofônico e online, a síntese dessa 14ª Parada precisa revelar a condição reflexiva sobre diversidade e democracia. Este é um ponto fundamental para o desenvolvimento humano, o qual pode – e deve – ser apoiado pelo campo da comunicação. A cada edição, o jornalismo comprometido com a sociedade pode contribuir com a imagem da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, ao providenciar matérias reflexivas, capazes de promover a ampliação da cidadania no país e no mundo.


Ao sabor dos editores, o jornalismo pretende traduzir tais imagens em notícia. Do telefone celular ao computador plugados na internet, destaca-se a emergência frenética das mídias sociais para ampliar, ainda mais, a velocidade de bits e pixels e a variedade de temas e tendências que (re)configuram a imagem da comunidade LGBT no mundo. A superficialidade da cobertura pode atrapalhar os recortes necessários ao debate político da sociedade. Assim, devem se prever as artimanhas de ponderar os elementos técnicos e conceituais que elevam a informação a notícia.


Ano eleitoral


Então pergunto: qual será a cena do Orgulho LGBT em São Paulo? Que imagem expressa a realidade LGBT atualmente?


Vale destacar que tipo de ênfase o fotojornalismo, por exemplo, deve produzir em um evento com essa magnitude. A relevância de cada gesto visual pode render a reportagem. Da angulação da câmera fotográfica ao enquadramento e/ou edição, trata-se da distância peculiar entre políticos, atores ou celebridades? Das drag queens com divinas montagens ou das sátiras de caricaturas? Do carão de descolados ou das barbies musculosas bem bombadas? Das fantasias ou da nudez? Das finas chics ou da pegada de bafão?


Longe de constituir uma gama de estereótipos visuais (maltratados), é possível experimentar infinitas representações para conduzir estrategicamente o discurso jornalístico, em uma tarde de domingo, no trecho que vai da Avenida Paulista, passando pela Rua da Consolação até a Praça da República. A riqueza de manifestações pode ser elencada com a variedade de fatos, cuja cobertura jornalística se faça de modo criativo, sem discriminação e/ou preconceito.


Com o tema ‘Vote Contra a Homofobia: Defenda a Cidadania!’, a Parada de 2010 pretende levantar a bandeira da diversidade junto com a próxima eleição para os governos estadual e federal (ver aqui o site oficial). Aproveitar o ano eleitoral, no Brasil, é otimizar as relações dos políticos comprometidos com a agenda dos direitos humanos, que perpassa questões econômicas, identitárias e socioculturais.


Exemplo de cidadania


Se para a Parada LGBT o objetivo é propor à sociedade o debate que relaciona respeito e cidadania, este acontecimento mais uma vez expõe publicamente um grito de luta no combate à homofobia – ou seja, aversão ou medo por pessoas do mesmo sexo.


No Brasil, as políticas públicas a favor das comunidades LGBT se ampliam; embora a violência ainda seja absurdamente enorme. O número de vítimas da intolerância continua crescendo de forma alarmante. O relatório anual do Grupo Gay da Bahia (GGB) informa que 198 homossexuais foram mortos no Brasil em 2009 por homofobia, nove a mais do que em 2008. Desse total, foram 117 gays, 72 travestis, e nove lésbicas. É quase um caso a cada dia!


Assim, devemos compartilhar as informações coerentes com a ética profissional, bem como a participação respeitosa para com aqueles que – embora em festa – querem garantir politicamente os Direitos de justiça, ao reivindicar uma qualidade de vida mais digna para tod@s.


E para ajustar o discurso (verbal ou não verbal), seria instigante que os jornalistas ponderem sua efetiva participação nesta Marcha ao propor imagens que indicam diferentes orientações sexuais; seja com afeto, desejo, erótica, sensibilidade e/ou sexo. Algo eminentemente humano. Seria valorizar a máxima manifestação criativa do jornalismo.


Portanto, pense em uma cena agradável que mostre o compromisso da coletividade – para agora e para o futuro. Também, deixe que a alegria da festa contagie e ressalte melhores valores humanos. Faça dessa ação um exemplo bacana de cidadania.

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Artista visual, doutor em Comunicação pela ECA/USP e autor do livro Homoerotismo & imagem no Brasil

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