Sexta-feira, 25 de Setembro de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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IMPRENSA EM QUESTãO >

A estranha celebração da Veja

Por Luiz Antonio Magalhães em 02/09/2005 na edição 344

A revista Veja anda inovando. Na edição desta semana (1.920, com data de 31/08/05), o semanário da editora Abril conseguiu realizar uma proeza: publicou um editorial, que no semanário leva o nome de Carta ao Leitor, no qual celebra uma sentença judicial do ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal, favorável à revista, sem informar aos leitores sobre a motivação de tal sentença.


Veja qualificou o ato do ministro como uma ‘aula de liberdade de expressão’, mas ofereceu ao público uma verdadeira aula de embromação. O editorial explica apenas que Mello rechaçou uma ação movida por um advogado contra ‘reportagens políticas publicadas há três semanas’ e não se dignou a explicar que reportagens eram essas.


Na verdade, talvez a própria revista tenha decidido comemorar a ‘vitória’ judicial com algum pudor porque o objeto da ação era um texto escrito por Diogo Mainardi, intitulado ‘Quero derrubar Lula’. O advogado Celso Marques de Araújo ajuizou uma notícia-crime sustentando que o conselho da revista Veja, Roberto Civita e os jornalistas Diogo Mainardi e Marcelo Carneiro deveriam responder por crime de subversão contra a segurança nacional pela publicação da coluna.


Não é a intenção aqui discutir o mérito da notícia-crime ou da atitude do ministro pelo arquivamento da ação movida contra a Veja, mas apenas apontar o ridículo de uma ‘celebração’ em torno de algo que a própria revista evita revelar ao leitor. A falta de clareza do semanário da Abril revela que a publicação não desejava explicar os fatos ocorridos, mas apenas aplicar a já famosa ‘Lei Ricúpero’ – o que é bom a gente mostra, o que é ruim a gente esconde – à vitória na Justiça.


Diogo Mainardi é uma espécie de clown da revista e seus textos devem estar sendo muito bem revisados no departamento jurídico da Abril. Desde o dia em que Luiz Inácio Lula da Silva assumiu a presidência da República, ele se dedica a ‘tentar derrubar Lula’, como explicitou na coluna que motivou a ação judicial – até agora, sem sucesso, o que não deixa de ser um bom sinal para a democracia brasileira. Veja, no entanto, não poderia assumir, pelo menos não em um editorial, que também deseja a queda do presidente Lula, embora tal desejo fique patente na leitura do que a revista publica em páginas destinadas à cobertura política.


O jeito então foi simplesmente escrever um editorial endereçado aos ‘entendidos’ – aqueles que acompanham mais de perto os meandros do jogo político ou dele participam. O recado da Veja foi o de que o ministro Celso de Mello ‘liberou’ a revista para novos vôos, mais audaciosos. A direção da redação e seu clown estariam liberados pelo ministro para repetir a célebre seqüência de editoriais do Correio da Manhã que em 1964 celebrou os dias finais do governo de João Goulart. O problema é que Mainardi talvez se atrapalhe um pouco e escreva o ‘Fora’ antes do ‘Basta’, ou o ‘Chega’ antes do ‘Fora’. Dilemas de principiantes…

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