Sábado, 06 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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ENTRE ASPAS >

A Folha desdobrada (e algumas sensações teóricas)

Por Eugênio Bucci em 22/02/2011 na edição 630

Não, não é a vida que ‘vem em ondas, como o mar’, como gostou de versejar Vinícius de Moraes em ‘O dia da criação’. O presente é que se expande em ondas, na direção do futuro e do passado, e se apossa do curso do tempo numa grande bolha unificadora. É bem verdade que existe uma distorção gravitacional nas ondas do presente que avançam na direção dos dias que ainda não chegaram: elas se concentram e explodem nas rochas, escalando-as com seu apetite abrasivo de corroer o que virá. Mas, postas na direção do passado, elas são mais calmas: vão ressuscitando os mortos – como no dia do Juízo Final –, prometendo uma segunda chance aos injustiçados, revirando a memória dos homens de reputação ilibada. Diante disso, a morte não é o fim. A bolha do presente avança sobre ela, contra ela, e transforma o pretérito petrificado em tempo vivo, com o qual podemos outra vez conversar de igual para igual.

A esse primeiro parágrafo, o Manual de Redação da Folha de S.Paulo, em algumas de suas encarnações, chamaria de nariz de cera. ‘A que vem essa coisa?’, perguntaria o leitor. ‘Aonde quer chegar esse redator?’ Bem, antes que cheguemos aonde o texto aqui em questão pretende chegar, esclareçamos algo mais sobre o nariz de cera. Depois de cuidar do nariz, falaremos ainda um pouco mais sobre o primeiro parágrafo que, providencialmente, vem a ser um nariz de cera.

Disfunção lógica

O nariz de cera é um arremate de ponta cabeça, uma vez que, em vez de vir no final, vem no início. Ele poderia estar em qualquer peça narrativa, assim como o nariz de cera poderia estar em qualquer manequim (ou o nariz de silicone ou de matéria sintética, que poderia estar em qualquer paciente de cirurgia plástica). O nariz de cera não decorre da história que se quer contar, mas vem de fora e se aboleta sobre a história, como se fosse uma prótese implantada no organismo. Isto é nariz de cera. O resto é organismo.

Agora, ocupemo-nos ainda um pouco do primeiro parágrafo deste texto, parágrafo que já vai longe – e que, indo longe no eixo do espaço, pertence ao passado na linha do tempo. Ainda que não seja um parágrafo totalmente assim, ‘de cera’, ainda que não seja tão rigorosamente exterior ao campo da história que aqui será contada, ele continua sendo nariz de cera. Mas, ao mesmo tempo, é possível dizer que ele não é completamente nariz de cera. Isso porque ele não vem de fora, mas nasce de dentro da idéia dessa história; resulta do impacto que uma notícia da era digital causou nas teias (de aranha) cerebrais deste pobre jornalista analógico.

Eis o impacto: ao pôr a sua coleção inteirinha na web, a Folha permitiu que todo o seu passado fosse engolfado pela bolha cibernética do presente. Hoje, as páginas da Folha estão online, tanto faz se falamos da Folha de hoje ou de uma Folha de 1922. A manchete que informou sobre o golpe militar de 1964 está online. O fim do golpe militar de 1964 está online também. O computador da gente parece gritar ‘Extra! Extra! Tudo online ao mesmo tempo agora’ (como era mesmo o nome daquele long play de um velho conjunto musical que animava bailes em porões da capital paulista?).

Corta. Chega de divagação.

Tento ordenar os elementos desta narrativa tão insistentemente desordenada. A Folha de S.Paulo, que festeja seus noventa anos de existência no dia 21 de fevereiro, caiu de corpo inteiro na era digital, como bem sabe o leitor deste Observatório. A partir de agora, ao menos para os assinantes, todo o acervo está a um clique de distância. Impressionante, claro. Impressionante, sobretudo, pelo pioneirismo. Uma vez mais, a Folha chega na frente dos demais. Inclusive ao seu próprio passado.

Não é isso o que mais importa, contudo. O que mais importa é que o modesto (embora falso) subscritor destas maldigitadas linhas, atordoado, não consegue entender o significado e as conseqüências deste anúncio assaz impressionante. A tecnologia nos atira contra o futuro porque nos afoga no passado. Como mesmo?

Pronto. Agora basta de tanta linearidade discursiva. Basta de texto com começo, meio e fim. Passemos a outra disfunção lógica. Vamos especular sobre a imagem ao vivo e o que ela nos ensina sobre a sensação de tempo que temos nutrido nessa virada de século. Só depois vamos retornar ao jornal online, noventa anos de jornal online, que vêm para embaralhar essa tal sensação de tempo.

Apertem os cintos. Vamos para outra turbulência narrativa.

Matutinos e vespertinos

Na tentativa de explicar aos seus alunos que a sensação da instantaneidade não passa disso mesmo, uma sensação – pois dentro de toda instantaneidade há um lapso de tempo linear embutido, um lapso que não se percebe –, um professor inventou uma figura hipotética. Pediu a seus alunos que imaginassem um espelho gigante colocado a um minuto-luz da Terra. Esse espelho seria côncavo, capaz de aumentar em proporções impensáveis as imagens que refletisse. Desse modo, a todo aquele que o mirasse, aqui da Terra, o espelho mostraria uma imagem desconcertante: o espectador veria a si mesmo… no passado. Exatamente a dois minutos no passado.

Então, o professor desafiava seus alunos a reduzir, aos poucos, essa distância, trazendo o espelho para mais perto, mais perto, até que a distância se reduzisse a um metro apenas. Assim, os alunos se davam conta de que, mesmo diante do espelho em que cada um se olha dentro do banheiro, o lapso de tempo está lá. Há um hiato na imagem que temos de nós mesmos. Temos a sensação de instantaneidade, mas entre o que vemos e o que é… um grão de tempo se passou.

Com a imagem ao vivo da televisão acontece o mesmo. Há sempre um atraso – um delay, como dizem hoje os técnicos do controle mestre nas emissoras – entre a imagem que entra na câmera e a que chega ao telespectador. O ‘ao vivo’ não é bem ‘ao vivo’. O instantâneo não é precisamente instantâneo. O ao vivo desfruta do status de instantâneo no senso comum que governa a comunicação, mas ele guarda, dentro de si, aquele mesmo hiato imperceptível. A gente vê algo na TV e acredita que aquela imagem, por ser ao vivo, está acontecendo agora: isso porque o delay que a separa de nós é tão ínfimo, tão desprezível, que não abre tempo histórico para ações humanas capazes de modificar o fato transmitido, ou para manipulações ou edições.

A imagem ao vivo nos passa a sensação de que vemos com fidelidade (embora não a vejamos com tanta fidelidade assim) uma cena que se desenrola muito longe de nós no espaço e extremamente próximas de nós no tempo. Ao tornar o muito distante muito visível, imagem ao vivo faz com que a TV pareça uma janela aberta, cuja textura, cuja composição é invisível. Por isso, a gente olha para o aparelho de TV e não enxerga o aparelho, o transistor, a caixa de som, a tela… mas apenas a manifestação no Egito, a moça sorridente, o jogador de futebol. Milagrosamente ao vivo.

O fenômeno se põe de tal maneira que, se alguém construísse uma antena de TV a um ano luz da Terra e pudesse captar os sinais com alguma qualidade, veria, também ao vivo, as notícias que foram ao ar, aqui na Terra, um ano antes (dizem que os sinais de TV e rádio, ao menos em tese, trafegam numa velocidade bem próxima à da luz). As notícias que esse telespectador distante no espaço veria seriam notícias velhas, já revogadas aqui na Terra pelos fatos que as sucederam. Talvez, por estar tão longe no espaço, ele tivesse mais consciência do lapso de tempo a separá-lo dos acontecimentos – uma consciência que os telespectadores que estão mais próximos não têm, ou julgam que não precisam ter, pois não faz diferença histórica. Mas aquele telespectador distante perceberia, com mais clareza, que a imagem que ele vê, ainda que rigorosamente ao vivo, é sempre uma imagem no passado. Ela talvez notasse que a sensação de instantaneidade não é um fenômeno que poderíamos chamar de físico, mas uma reles convenção cultural.

Hoje, neste início de século 21, a sensação de que a imagem ao vivo é perfeitamente instantânea nos basta. Ela não é um problema teórico. É apenas uma solução prática. A velocidade com que fazemos circular a informação nos parece suficiente – e dizemo-nos integrados, dizemos que estamos ‘ao vivo’, que estamos ‘online’, e tocamos adiante. Nós, no entanto, não notamos que também a noção que temos de ‘velocidade suficiente’ é cultural, é histórica, é socialmente construída.

Houve um tempo, há não muito tempo, em que a instantaneidade era prescindível, imagine só. As nações modernas passaram a constituir unidades espaciais e identitárias num ritmo de circulação de informações bem mais lento. O padrão de comunicação social que as constituiu foi o padrão do jornal diário, impresso. O ciclo de 24 horas – que era o ciclo dos jornais diários que reinaram, feitos de papel e tinta, entre o século 19 e o século 20 – era um ciclo perfeito, mais do que suficiente. O intervalo que separava uma edição da edição seguinte, o intervalo de 24 horas, não era a eternidade que hoje nos parece ser. O que quer que acontecesse dentro desse intervalo seria consolidado na edição seguinte, de tal sorte que assim as decisões econômicas e políticas eram adotadas e legitimadas. Entre matutinos e vespertinos intercalados, o ciclo de 24 horas era a velocidade suficiente. Agora, o ciclo de um segundo nos parece longo demais.

Donde voltamos à Folha desdobrada no tempo. Podem soltar os cintos. A digressão acabou.

Bolha de informação

Veja você, meu caro e improvável leitor: com o acervo da Folha posto online, todas aquelas marcas do ciclo de 24 horas, que nos pareciam tão razoáveis e tão velozes, agora cabem dentro de um único toque – dentro de um único segundo. É assim que o presente abocanha o passado e o faz (poder) reviver, se não como fato, ao menos como relato.

Reescrevo o parágrafo acima com outras palavras (quase iguais): os jornais diários da primeira metade do século 20, e mesmo da segunda metade, em grande medida, serviram para nos dar a marcação do tempo de nossas vidas: o tempo do poder, o tempo do mercado, o tempo dos melodramas (do folhetim às telenovelas, que costumavam ser diárias e o são, até hoje), o tempo do trabalho e do lazer, o tempo de dormir, o tempo de acordar. A cada dia, chegava até a casa dos assinantes um jornal. Ali estava o que precisávamos ler.

Agora, de repente, chegam ao meu computador todas as edições da Folha dos 90 anos, de uma vez só. Uns são mais antigos que outros, eu sei, eles perfazem uma sequência linear, mas agora todas estão a um clique dos meus olhos, todos pedem para ser lidos, como se não sei quantos caminhões despejassem não sei quantas toneladas de papel jornal na minha caixa de correio. De uma vez só. Aqueles jornais que tinham ido embrulhar peixe e forrar gaiola de passarinho, aqueles jornais que forravam a cama de Noel Rosa, que acendiam lareira em Campos do Jordão, todos aqueles jornais defuntos voltaram a viver. Os ‘jornais já lidos’ que as aeromoças nos convidam a jogar fora depois da viagem de avião, aos milhares e milhares, convertem-se, de repente, em jornais não lidos, pedindo para ser lidos. Eles revivem. E não sei se isso é bom. O passado não é mais passado. Virou presente de novo.

Não sei bem como será folhear o jornal de 30 anos atrás. Ainda não entrei no site do acervo da Folha. Tenho preguiça. Tenho medo. E nem sei se ele já foi aberto de verdade. Escrevo antes de experimentá-lo. O que sei, desde já, é que folhear um jornal digital(izado) de 30 anos atrás não será o mesmo que folhear um jornal físico de 30 anos atrás. Um jornal físico de, digamos, 15 de fevereiro de 1981 nos dá a sensação de matéria cansada, de papel quebradiço, de documento raro, de antiguidade. O jornal digital, contrariamente, pode ser ‘manuseado’ virtualmente como se tivesse sido publicado há poucos minutos, como outro 1994 ou de 1953. Ele não estraga. Ele não quebra. Ele não cheira a mofo. Talvez ele pareça velho apenas pela diagramação e pelo palavreado. As fontes, as expressões, o desenho gráfico, apenas por aí sentiremos a idade que ele tem. No entanto, se abstrairmos esse dado ‘visual’ e ‘textual’ (um dado da moda, assim como o jeito de escrever as notícias), veremos que folhear na web um jornal antigo é como folhear um jornal de hoje. Aliás, quando consultamos edições do ano passado de qualquer jornal, disponíveis em iPad, em celulares ou no notebook, adotamos o mesmo procedimento que temos para ler o jornal de hoje. A sensação é incômoda.

A internet nos permitiu receber online as notícias de antigamente como se fossem as notícias de hoje. É assim que o presente se expande e engole o passado. Ao contrário dos rituais que precisamos cumprir nas bibliotecas que guardam livros raros, de todos os cuidados de que temos de nos cercar para nos aproximar de um exemplar de jornal do início do século 20, os bancos de dado virtuais não exigem a menor reverência. Dispensam qualquer solenidade. Agora, a edição da Folha de 25 de março de 1921 deixou de ser artigo valioso. Não requer luvas de quem queira tocá-la. Não requer condições especiais para ser conservada. Você vai poder passar por ela com desleixo, de pijama, vai bisbilhotá-la assim como fuça no conteúdo de um site pornográfico, como passeia pelas notícias de agora à tarde.

O passado fugiu dos cemitérios. Exumou-se. O noticiário da crise que culminou com o suicídio de Getúlio Vargas está outra vez nas bancas (virtuais) de jornais (virtuais). Esses jornais, antes raridades que apenas podiam ser tocadas por pesquisadores, passarão a figurar no tempo presente das multidões. A pesquisa histórica tende a se banalizar, a virar um passatempo de desocupados. Releituras originais e até mesmo brilhantes de noticiários antigos poderão brotar de internautas curiosos. A simultaneidade dos relatos, algo de que tanto se fala, tanto que virou um lugar comum, vai se exponenciar vertiginosamente.

Acho que vou ler de novo o ‘Jornal dos Jornais’, a coluna que Alberto Dines fazia na Folha, entre julho de 1975 e julho de 1977. Fazia, não: faz. Essa coluna, agora, está aí, é ubíqua, ininterrupta, está online. Na adolescência, elas despertaram em mim a vontade de trabalhar na imprensa. Eu gostaria de revê-las, uma hora dessas. O que será que elas me dirão quando olharem para a minha cara? Será que estamos parados no tempo, dentro de uma bolha de informação que vai inchando, inchando, sem sair do lugar?

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Jornalista, professora da ECA-USP e da ESPM

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