Sábado, 11 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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A memória de uma geração

Por Luiz Fernando Vianna em 08/06/2010 na edição 593

Moacir Werneck De Castro está acostumado a ser temporão desde o útero. Nasceu 22 anos depois de Luís, o primeiro dos cinco irmãos, e dez após Maria, a quarta da fila. Aos 95, a impressão de estar fora do tempo vem da ausência de quase todos os amigos. ‘Ele é, absolutamente, um sobrevivente’, resume a uruguaia Glória Rodríguez, a Nené, 78, sua companheira de vida, pensamentos e sarcasmos há 53 anos. ‘Eu sou temporaníssimo. Já era para ter morrido há muito tempo’, diz Moacir, cujo humor, ainda que amargo, não sucumbiu aos problemas de saúde.

Divertido e sombrio

Nos últimos anos, ele passou por fraturas nas duas pernas e três cirurgias em função de um problema gástrico -‘nó na tripa’, segundo Nené. Esteve mais para o lado de lá no verão de 2009, mas resistiu a ponto de, atualmente, poder caminhar em casa, passear de cadeira de rodas pelo Leblon, onde mora, e ter longas conversas com visitas, quando aproveita para ser tão divertido quanto sombrio.

‘Eu queria tomar aquelas cápsulas que os nazistas tomavam quando eram presos. Mas morro de medo de não morrer. Acho patético tentar o suicídio e sobreviver’, diz, rindo. ‘Bobagem! Quem quer morrer não fala’, corta Nené. Numa versão bem reduzida da lista de amigos perdidos estão Mário de Andrade, Rubem Braga, Vinicius de Moraes, Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Jorge Amado, Sérgio Buarque de Holanda, Lúcio Rangel e Samuel Wainer. A longevidade de Moacir representa um século de escritores, jornalistas e pensadores do país. E um século da história do mundo.

Agredido em Berlim

Ele conta no livro Europa 1935 (Record, 2000), que participou, em Paris, do Encontro Mundial da Juventude contra a Guerra e o Fascismo e, em seguida, foi conhecer Berlim, já nazificada.

Tomando-o por judeu, um grupo de jovens o agrediu certa noite. Foi salvo pelo passaporte de estrangeiro e pelo alemão precário que aprendeu na infância em Blumenau (SC) -para onde fora logo após nascer, em Barra Mansa (RJ). Precisou se esconder da polícia de Getúlio Vargas nas terras da família, no interior fluminense, após a Intentona Comunista de 1935 -da qual não participou, mas seu nome estava no índex.

Já tinha sido preso uma vez, em 1934, ao estrear no jornalismo cobrindo uma confusa assembleia operária para o Jornal do Povo, projeto de Aparício Torelly, o Barão de Itararé, que durou apenas dez dias. E teria outras passagens pela prisão durante o Estado Novo [1937-45]. Filiou-se ao Partido Comunista em 1947, quando ele voltava à clandestinidade após dois anos de existência legal. ‘O Jorge Amado me ironizava: `Você escolheu um bom momento´’, lembra.

Barbaridades

Escreveu durante anos para o jornal do partido, mas se desfiliou em 1956, com a denúncia do stalinismo feita por Nikita Khruschov. Ressalva que já criticava antes o que acontecia na União Soviética. ‘Percebia que o amor ao partido justificava as maiores barbaridades.’

No Brasil, durante o regime militar [1964-85], ficou mais próximo da oposição moderada do MDB do que da esquerda que resultaria no PT. Na redemocratização, exaltou Tancredo Neves e Ulysses Guimarães em artigos. ‘É fácil dizer `sou socialista´ e pôr máscara de bonzinho. Mas é preciso analisar a importância de mudanças que não são revolucionárias, mas abrem caminho para revoluções’, reflete, sem negar o passado. ‘Ainda hoje me chamam de comunista. Não é um xingamento. Já stalinista é complicado.’

Moacir sempre foi mais um articulista do que um repórter. Como quando foi ao Uruguai em 1979 para ver como estava o país sob a ditadura militar, ou quando esteve no Oriente Médio, em 1982, para entrevistar o líder da OLP (Organização para a Libertação da Palestina), Yasser Arafat, não almejava a neutralidade: posicionava-se. Entre as décadas de 1970 e 90, escreveu principalmente para o Jornal do Brasil e a Folha.

Estirpe

‘Ele é um jornalista político da estirpe de Prudente de Moraes, neto, e Carlos Castello Branco’, aponta o crítico Davi Arrigucci Jr., que conheceu Moacir em Cuba nos anos 80, quando ambos foram jurados do prêmio literário Casa de las Américas. ‘Ele é a memória de uma geração. Com sua prosa, sua capacidade de narrador, tem uma experiência acumulada importante sobre a história social e literária brasileira.’

Moacir espelha a história social do país já na própria família. É neto, por parte de pai, do visconde de Arcozelo, Joaquim Teixeira de Castro, e bisneto, por parte de mãe, do barão de Pati do Alferes, Francisco Peixoto de Lacerda Werneck. Primos entre si, seus pais vivenciaram a derrocada do café. Moacir e os irmãos nunca se livraram do peso de terem antepassados que ergueram fortunas graças à escravidão. ‘Uma das irmãs se desfez de um brilhante porque disse que eram lágrimas de escravo’, conta Nené.

Num manual de administração de uma fazenda de café que publicou em 1847, o barão de Pati do Alferes dá orientações sobre como tratar os escravos. Num trecho citado nos escritos deixados por sua irmã, Maria Werneck de Castro (1905-2000), que Moacir organizou e publicou (No Tempo dos Barões, Bem-Te-Vi, 2004), há uma possível origem da gíria ‘encher o saco’: ‘Há também alguns senhores que têm o péssimo costume de não castigar a tempo, e de estar ameaçando o escravo, dizendo-lhe -deixa que hás de pagar tudo junto- ou -vai enchendo o saco, que ele há de transbordar e então nós veremos- e quando lhe parece agarra o pobre negro, dá-lhe uma estafa da qual muitas vezes vai para a eternidade, e por quê? Porque pagou tudo junto!!! Barbaridade! O negro deve ser castigado quando faz o crime’.

Primo e desafeto

Aos 11 anos, órfão de pai -que estudara na Alemanha e terminou a vida em grandes dificuldades financeiras-, Moacir voltou de Blumenau com a mãe para o que sobrara das terras da família. Foi então que se ligou muito ao primo Carlos Frederico Werneck de Lacerda, um ano mais velho.

A união infantil seria rompida em plano nacional. Carlos Lacerda também se indignou com o passado escravocrata da família e escreveu O Quilombo de Manoel Congo (1935). Teve formação socialista com Moacir, quando estavam na Faculdade de Direito de São Paulo. E os dois trabalharam em Diretrizes, a revista que Samuel Wainer criou em 1938. Na passagem dos anos 1930 para os 40, Lacerda deu a guinada ideológica que faria dele um dos mais importantes políticos conservadores brasileiros.

A amizade com Samuel foi rompida, e Moacir assumiu posição pública contra o primo. ‘Não era pessoal, era uma coisa política. Eu esculhambava o Carlos nos meus textos. O Fernando [Sabino] e o Otto tentaram fazer as pazes, mas eles mesmos diziam que o Carlos estava muito diferente’, relembra. Moacir trabalhou por 14 anos (chegou a redator-chefe) na Última Hora de Samuel Wainer, o jornal com o qual Lacerda e sua Tribuna da Imprensa travaram uma guerra célebre.

‘Só vim a conhecer o Moacir depois da morte do meu pai, mas ele nunca foi referido lá em casa de forma negativa. O problema se tornou pessoal, mas não era pessoal na origem’, conta o editor Sebastião Lacerda, que ganhou de Moacir uma foto dos dois primos andando a cavalo na chácara da família, em Vassouras (RJ), em 1937.

Não, Lyginha

O rótulo ‘escritor’, no sentido de ficcionista, nunca se aplicou a Moacir, que se limitou a publicar um poema e um conto em jornais quando jovem. Não foi por falta de insistência que não se aventurou na ficção. Lygia Fagundes Telles, que o namorava nas férias de verão no Rio, tentou. ‘Foi na idade da pedra lascada, eu era uma mocinha completamente imatura. Achava que só prestava escrever ficção, e dizia para ele: `Essa crônica dá um conto´. Ele só falava: `Não, Lyginha´. Meus conselhos não resultaram em nada’, conta a escritora. Lygia teve de lidar com a oposição da mãe ao namoro. ‘Ela tinha medo, porque diziam que ele era comunista. Eu o achava muito culto, generoso. Fiquei com uma admiração profunda.’

Bolívar e Chávez

A publicação em livro só se tornou regular após os 70 anos. Em 1988, escreveu O Libertador – A Vida de Simón Bolívar (Rocco). A admiração pelo líder venezuelano que tentou unir a América no início do século 19 não se estende ao atual presidente do país, Hugo Chávez, e à sua ‘República Bolivariana’.

‘Chávez tenta se aproveitar [do legado de Bolívar], mas não consegue. Ele simplifica Bolívar, que é complexo’, opina. ‘Mas minha mulher é chavista… Não me venha com seu chavismo para cima de mim’, diz, em provocação a Nené.

Em 1989, saiu Mário de Andrade – Exílio no Rio (Rocco), narrativa original sobre os três anos cariocas (1938 a 41) do autor de Pauliceia Desvairada. Moacir era um de seus companheiros de chope. O livro sofreu críticas por não ressaltar o homossexualismo de Mário, assunto que não considerou prioritário. ‘Ele nunca se insinuou para nenhum de nós’, diz.

Bicho de concha

A reunião de textos publicados na imprensa, A Ponte dos Suspiros (Rocco) foi lançada em 1990. Em resenha na Folha, Otto classificou Moacir de ‘mais amigo da penumbra do que das luzes da ribalta’. ‘O Otto o chamava de `bicho de concha´’, diz Nené.

Hoje, com poucos amigos por perto, Moacir está mais na concha. Mas, como nunca deixou de fazer, pretende votar em outubro. ‘Na Dilma, de jeito nenhum.’ Sofre pressão da mulher para escolher José Serra, amigo de Nené há 40 anos. ‘E tenho muita simpatia pela Marinazinha, coitadinha.’

Dispensando óculos, tem prazer em ler jornais, reler cartas de amigos e, sem perder a modéstia, voltar a alguns textos que publicou. ‘Eu vejo umas coisas que eu escrevi em 70, 80… Não é que eu escrevia direitinho?’

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