Sábado, 06 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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IMPRENSA EM QUESTãO >

A morte como ela é na web

Por Gabriel Perissé em 06/01/2007 na edição 414

O enforcamento de Saddam Hussein pode ser visto e revisto em qualquer computador conectado à internet. No momento em que o corpo começa a cair, o condenado está fazendo a sua oração em voz alta. Reconhece explicitamente a existência de um só Deus. A corda esticada. Ouvimos gritos antes e depois.


A filmagem foi feita pela câmera de um telefone celular (também será julgado o ‘cinegrafista’ amador?). Saddam tem consciência de que o mundo todo verá seus últimos minutos de vida? Como nos autos-de-fé, estamos reunidos para assistir à execução. A recente difusão incontrolável das cenas do World Trade Center em chamas ou as do encontro amoroso de Daniella Cicarelli repete-se agora no caso da ‘Besta de Bagdá’ subindo ao patíbulo.


Vêm à minha mente outras imagens, que surgiram, a seu tempo, em revistas, jornais, livros, e hoje acessamos pelo Google com algumas clicadas. O corpo inerte de Che Guevara (1967). As cabeças de Lampião e seus seguidores (1938). O rosto sem vida de Nicolae Ceausescu (1989). O corpo dependurado de ponta-cabeça de Benito Mussolini (1945). A morte violenta de líderes que levavam à morte outras pessoas. Esta necessidade de aferir que o violento foi devidamente exterminado… de modo violento. Uff!


Todos os ângulos


Podemos apreciar a atitude estóica, os gestos serenos de Saddam. Afirma-se que não estava sedado. Pelo que se sabe, dialogava com os circundantes. E circunstantes. Se alguém o acusava de ter destruído o país, o sentenciado respondia que o tinha salvado. Se alguém dizia que Deus o condenava, ele respondia que também Deus condenaria seus juízes. As testemunhas eram poucas, mas em 48 horas o que era um reduzido número de assistentes chegou à cifra dos milhões. Em três dias, bilhões.


Saddam ficará na história da mídia como o primeiro chefe de Estado cuja morte foi documentada e distribuída na web, ao lado de incontáveis gravações banais, interessantes, valiosas, irrelevantes, que nós mesmos captamos e inserimos no YouTube ou em outro site qualquer de compartilhamento de vídeos gratuitos.


No dia da execução, Saddam Hussein foi mostrado cerca de 10 vezes por hora pela TV norte-americana, de pé, no cadafalso, a corda ao redor do pescoço. Isso não é nada perto da exposição via internet. Continuamos, agora, no local do enforcamento. Podemos congelar a imagem, analisar detalhes, tentar adivinhar as feições dos carrascos. A qualidade da gravação é ruim, o que lhe confere mais realismo.

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Doutor em Educação pela USP e escritor; www.perisse.com.br

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