Terça-feira, 26 de Maio de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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IMPRENSA EM QUESTãO >

A notícia embaixo do entulho

Por Luciano Martins Costa em 27/11/2013 na edição 774

Os jornais de quarta-feira (27/11) tentam se equilibrar entre duas linhas paralelas que vão se encontrar num ponto futuro: numa delas, compram a tese de que o caso do pagamento de propinas para aumentar preços de obras no metrô paulistano é apenas uma manobra política; na outra, dão credibilidade às suspeitas de que a máfia dos fiscais era na verdade um esquema sofisticado, envolvendo grandes empresas e operando desde pelo menos 2005.

As manchetes do Estado de S.Paulo e do Globo, ou seja, aquilo que os dois jornais consideram mais importante neste dia, são feitas com declarações de políticos do PSDB: eles afirmam que um documento apresentado no processo por formação de cartel em obras do metrô e do trem metropolitano de São Paulo foi forjado, com a inclusão de referência ao seu partido. O assunto também é destaque na primeira página da Folha de S.Paulo.

Trata-se, como se diz por aí, de muito fermento para pouca massa – sob o critério da suposta objetividade que justifica moralmente a imprensa, uma declaração desse tipo mereceria pouco mais que uma nota de rodapé, diante dos outros acontecimentos do dia.

Trata-se de amontoar entulho declaratório sobre os fatos que insistem em emergir das investigações do Ministério Público – a despeito da ação de alguns procuradores interessados em engavetar parte dos autos.

Concretamente, se os jornais aplicassem aos casos do metrô paulistano e da máfia dos fiscais o mesmo critério adotado durante todo o escândalo que ficou conhecido como “mensalão”, teriam que registrar que os dois esquemas ocorreram durante mandatos do tucano José Serra no governo do estado e na prefeitura da capital.

Se, como parecem acreditar os jornais, as denúncias contra representantes do PSDB têm como motivação diminuir o impacto das prisões de líderes do PT na Ação Penal 470, o mesmo se pode dizer da apreensão de quase meia tonelada de cocaína num helicóptero pilotado por um assessor parlamentar da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, cujas relações a imprensa está pouco interessada em devassar.

Como se vê, se o jornalismo se limita a repetir declarações, a barulheira das manobras políticas vai encobrir os fatos, e a suposta objetividade da imprensa vai virar ficção.

Condicionando a história

Portanto, deve-se considerar que o noticiário não é objetivo porque não é do interesse dos jornais esclarecer os fatos, mas dar a eles uma versão mais condizente com os interesses da própria imprensa e de seus aliados.

Por exemplo, o que vale mais como notícia: uma declaração de suspeita sobre um dos milhares de documentos comprovando fraudes milionárias em obras públicas, ou as evidências de que o esquema vinha funcionando há uma década, portanto, com grandes possibilidades de envolver autoridades mais elevadas do que ex-diretores de estatais?

Até a semana passada, a Folha de S.Paulo se esforçava para direcionar o caso dos fiscais ao atual prefeito paulistano, Fernando Haddad, por conta da suspeita de ligações de um ex-secretário com os principais acusados. Na quarta-feira, todos os jornais são obrigados a noticiar que o esquema existe há muito mais tempo.

Segundo o Globo, o esquema de corrupção não começou em 2010, como suspeitavam os promotores do Ministério Público, “mas em 2005, no início da gestão do ex-prefeito José Serra (PSDB)”. O Estado de S.Paulo afirma que os promotores investigavam operações da quadrilha desde 2007, quando Gilberto Kassab (PSD) sucedeu José Serra na prefeitura paulistana, mas acabam de ampliar o período de apuração “para até o ano de 2005, na gestão José Serra”. A Folha de S. Paulo informa que o esquema de cobrança de propina existe “pelo menos desde 2005”.

O que se analisa aqui não é uma malversação das investigações, porque nas entrelinhas, e em textos esparsos, qualquer pessoa mais atenta vai perceber que os dois escândalos têm procedimentos comuns e se cruzam em personagens bastante conhecidos da política nacional.

Daqui a dez anos, quando e se o caso chegar a julgamento, alguns desses personagens estarão mortos, aposentados, esquecidos ou alienados, e ninguém deve apostar um centavo na conclusão das investigações.

Interessante é observar como a imprensa tenta todos os dias condicionar o rumo da história entulhando sobre os fatos declarações criteriosamente selecionadas.

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