Domingo, 09 de Agosto de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Anorexia estimulada pela mídia

Por Ligia Martins de Almeida em 13/12/2006 na edição 314

Qual é a parcela de culpa da imprensa no comportamento das jovens que transformam a extrema magreza no seu ideal de beleza?


Ao debater o assunto, na noite de terça-feira (12/12), o Observatório da Imprensa na TV fez o que deveria ser uma obrigação da mídia: manteve no ar a discussão sobre um problema de saúde que afeta 1,4 milhão de pessoas no Brasil. Só no Hospital das Clínicas de São Paulo são atendidos 80 pacientes por semana com problemas de anorexia ou bulimia. Números que merecem por parte da imprensa uma reflexão bem mais profunda do que foi feita até agora.


Depois de morrer, a modelo Ana Carolina Reston Macan, de 21 anos, foi capa das revistas semanais. Ao que tudo indica, as revistas consideraram sua tarefa cumprida, deixando claro que o destaque, no final das contas, fora motivado apenas pelo sensacionalismo. Prestar um verdadeiro serviço aos leitores não entrou nas preocupações da mídia.


As duas jornalistas convidadas pelo programa – as editoras de moda Lílian Pace e Iesa Rodrigues – culpam a mídia por sua atitude contraditória. Dizem que a imprensa se mostra chocada com a morte da modelo, mas, ao mesmo tempo, continua, em outras matérias, a fazer a apologia dos tratamentos cirúrgicos e remédios para emagrecer. Mas param por aí. Segundo elas, a ‘cultura da magreza’ começa com os estilistas, ao exigir modelos cada vez mais esqueléticas para valorizar suas criações.


Onde está Twiggy


Como explicou Lílian Pace, a fotografia e a passarela tornam as pessoas maiores do que são na realidade, daí a necessidade de ser magra, muito magra. Lílian citou o exemplo de Gisele Bündchen que, segundo a jornalista, em pessoa é ‘magrela’. Mas, embora tentando entrar no espírito do programa, acabou justificando a exigência dos estilistas. Disse que, ao fazer um desfile, eles mostram o melhor de sua criação e que as roupas ficam perfeitas mesmo é no cabide. Definiu as modelos como ‘manequins que se movem’. E justificou que, se os estilistas tivessem que fazer mais de uma peça para o desfile, o gasto seria muito maior e a moda brasileira ainda não tem estrutura para tal.


Iesa Rodrigues também identificou a origem do problema nos estilistas, mas esclareceu que isso é uma tendência atual que começou na década de 1970, com a manequim Twiggy, aquela mocinha das pernas finas e minissaia. Hoje, Twiggy é uma cinqüentona com todas as curvas a que tem direito e atua como jurada de um popular programa da TV americana, o American Next Top Model, transmitido aqui pelo canal pago People & Arts.


O reality show, produzido e apresentado por outra uma ex-modelo, acaba revelando que o sonho com a carreira de modelo não é exclusividade de mocinhas sem grandes perspectivas nos países em desenvolvimento.


Notícia e fofoca


Magras, elegantes e famosas no circo da moda, as jornalistas convidadas pelo Observatório na TV talvez não consigam ter o distanciamento necessário para perceber que elas mesmas ajudam a divulgar esse novo ideal de beleza inatingível.


O puxão de orelhas que a mídia merece foi dado pelo psiquiatra Taki Cordas, especialista em distúrbios alimentares, ao dizer no programa que a imprensa tem a obrigação de mostrar às crianças o verdadeiro papel do corpo na busca da felicidade. Afinal, como ele disse, ‘prestar serviço’ é também o papel da imprensa.


Se não houve uma autocrítica por parte das jornalistas, o programa serviu, no entanto, para mostrar que, quando se trata de dar serviço – e mostrar aos leitores a diferença entre notícia e fofoca, informação e marketing – a mídia é quem sofre de uma profunda anorexia.

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