Terça-feira, 07 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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ENTRE ASPAS >

Com dois pés atrás

Por Washington Araujo em 22/06/2010 na edição 595

É comum dizermos assim sem maior compromisso que ‘como eu me conheço, prefiro ler este autor e assistir àquele filme, me agrada ver o Cristo esverdeado de Goya e ouvir Geórgia on my mind com Ray Charles…’ Às vezes preferimos não ver o filme-sensação do momento, o Titanic da hora, o Avatar do mês e usar o tempo para conferir pela 19ª vez a maestria de Sérgio Leone ao dirigir Era uma vez na América.


Fazemos um monte de coisas apenas por intuir que nos conhecemos. Comigo não é muito diferente. Sou o próprio senso comum em constante movimento. Gosto de ler a história da América Latina com os óculos emprestados por Eduardo Galeano. Aprecio saber a história do Império Romano pelas lentes de Edward Gibbon e fico um bocado sensível ante a leitura de algum poema de Carlos Drummond de Andrade, como aquele marcante ‘José’.


Dificilmente desembolsaria algum dinheiro para assistir show de Amy Winehouse, Beyonce ou Lady Gaga. Mas teria dado metade do braço direito (note-se que sou canhoto) para assistir Mercedes Sosa cantando nas Termas de Caracala sua tocante interpretação para ‘Alfonsina e o mar’. A outra metade seria para voltar a assistir Elis Regina no Teatro Guaíra apresentando aquele ‘Falso Brilhante’ apimentado, poético e anárquico.


Apostaria em tudo isso partindo da premissa – na maior parte das vezes, falsa – de que me conheço. Mas, vem cá, eu me conheço mesmo? O que sei de mim? Quase nada ou o suficiente apenas para me desconhecer. E ainda assim o pouco que sei de mim dá conta do muito que continua me sendo desconhecido. Se tenho segurança para dizer isso e aquilo, afirmar aos quatro ventos um autor favorito, uma cantora preferida, um filme predileto, o mesmo não acontece em minha relação, sempre tempestuosa, com os meios de comunicação. Estes são como os pratos servidos em banquete. Alguns são agradáveis por este ou aquele tempero. Outros por sua apresentação na mesa, a cor da iguaria que seduz, o aroma da comida que hipnotiza.


Publicidade camuflada


A verdade é que faço do meu encontro marcado com as revistas semanais rito sempre previsível e marcado por alguma aura misteriosa. E por isso vou várias vezes à porta conferir se o entregador arremessou o exemplar de cada uma das quatro revistas semanais. Na maior parte das vezes volto para dentro de casa de mãos vazias. A quantidade de alarmes falsos é formidável. Mas, então, dá-se a mágica e avanço por entre as plantas do jardim a fim resgatar uma, duas ou mais revistas.


E quando isso ocorre, já começo a mergulhar em um jogo de luz e sombras, de imaginação criativa, de competição consigo mesmo. O objetivo é descobrir a possível capa de Época, IstoÉ, CartaCapital, Veja… E uma vez conferida a capa, saio resmungando com meus botões: ‘Ô revistinha calhorda… tinha que ser… a canalha não perderia a oportunidade!’; ou, raras vezes, observo reverberar em mim a polifonia do ‘finalmente começam a separar joio do trigo, notícia de armação, informação de propaganda!’


Depois seguia para o ritual da leitura. Leitura crítica, acerba, leitor transmutado em magistrado. Trabalho começado com a comparação das quatro capas, com as chamadas de capa, com os possíveis subtextos, a imagem ou ilustração e até a cor predominante. Momento de fechar os olhos. Vasculhar que imagens essa capa e aquela cor evocam em mim. Ah, é? Então muito mais pessoas estariam incorrendo nessa pista falsa. Mas, o que me dizia cada capa? Conversariam entre si? Qual edição traria maior dosagem de parcialidade, tendenciosidade?


Perdido em pensamentos labirínticos, adentrando salão de espelhos em diagonal, começava a leitura pela seção de ‘Frases’. Ou destrinchava logo o mistério de saber quem era o entrevistado maior. Noutra, começava pela seção ‘Prazer de Ponta’. Ou seguia pelo sobe-e-desce que mais diz do que não desce nem sobe, se é que me entendem.


E então, qual Holmes da crítica da mídia, passava em revista uma ou duas das revistas, isto é, literalmente falando e, no caso, desejando abarcar o sentido policial mesmo. Ficava farejando que notícia havia sido plantada. A quem interessava? Quais os fios desencapados em edições passadas? Que barganha teria sido feita para que o fulano fosse o escolhido para cobrir o espaço da entrevista principal? Essa barganha poderia ser conferida, confirmada logo mais adiante quando me deparo com duas frases na seção Y ou em pequena nota jogada ali, meio ao acaso, como quem nada quer.


E vinha então o prazer de desmascarar logo o embuste, de identificar os interesses editoriais ou comerciais que se pretendia ocultar. Mas que não existindo crime perfeito era minha função juntar as peças, formar um quadro mental razoável. Às vezes esse procedimento se estendia por três edições seguidas de cada uma das semanais. Sempre chamava a atenção a quantidade de anúncios: precisava saber quem estava despejando dinheiro nesta ou naquela publicação. E qual a motivação para assim proceder. E, também, se publicidade institucional estava camuflada em forma de reportagem, seja do governo federal, seja de algum governo do centro-sul do país. Ou de algum grupo empresarial que lucrou com nossas recentes privatizações.


O ‘ser’ e o ‘ter’


Como o leitor vê, sempre li as semanais com os dois pés atrás. Já previ tanto embuste, desmascarei tanta jogada sórdida que não leio uma determinada semanal sem estar com a mão esquerda ao alcance do coldre. Ou tapando o nariz. Agi assim muitos anos antes de receber o conselho deste Observatório: ‘Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito’.


Com os jornais diários tive ótimas experiências. Quase todas no meu período de vida no Rio de Janeiro, anos 1970, 1980. Assinava apenas e tão somente o Jornal do Brasil. Fazia isso apenas pelo prazer de ler a coluna do Carlos Castelo Branco, o Castelinho, e o tema-central do seu famoso e indispensável ‘Caderno B’. Neste encontrava a crônica do Carlos Drummond de Andrade. Imperdível, como sempre.


Foi um tempo em que os jornais traziam cultura e sensibilidade e ninguém tinha vergonha de manusear bem a língua portuguesa, nem de mostrar conhecimento de causa sobre tão formidável leque de assuntos. Era o tempo em que as teclas da máquina de datilografia não eram espancadas. O linguajar rebuscado e sonoro do Villas-Boas Corrêa dava-nos a sensação de inquietação e serenidade. E suas construções frasais faziam brotar sorriso maroto no canto da boca.


Nos anos 1977-1987 fui leitor assíduo da Folha de S.Paulo. A meu ver, o melhor momento do jornalismo político brasileiro foi aquele produzido ali na Alameda Barão de Limeira. E tão somente naqueles anos. Quem já tomou leite de vaca quando esta ainda estava nos currais improvisados pode saber a sensação da frescura do leite. Aquela geração de promissores jornalistas, trazendo cada um aquele jeito dos personagens de Lost, aqueles da primeiríssima temporada, ainda não havia vingado. Eram, muito provavelmente, incendiados pelos bons ideais do jornalismo. Eram jovens demais para forjar falsificações e deviam viver como quem sabe que a vida começa e acaba com a edição do dia ali na banca da esquina. A geração Claudio Abramo emboscou o jornalismo brasileiro. Mas, tantos anos depois, quem teria sobrevivido?


Há muitos anos não assino nenhum dos nossos diários. Migrei, sem estardalhaço algum, para a internet, na época em que acessar uma BBS era o máximo e, neste caso, fiquei amigo do Mandic. Mas quem lembra do Mandic, lembra de um tempo em que existia o Mandic Mail. É que ele, o Aleksander Mandic, abriu um negócio em 1990 onde o capital era um micro 286, com apenas 60 megabytes de capacidade, uma linha telefônica e ele próprio. Era a Mandic BBS. E foi nesse mesmo ano que Brasil entrou na internet, fazendo sua primeira conexão – ainda em âmbito acadêmico. Hoje Mandic é case em Harvard. E pensar que ligava para ele, pagando minutos muitos salgados do interurbano cobrado em 1991 apenas para dizer ‘É Mandic, estou sim escutando os patinhos, mas não consigo acessar a BBS. O que faço?’


O resto da história é conhecido. Eu e milhões de brasileiros mergulhamos de ponta no mundo da web. E lemos jornais, revistas, livros na internet. O mesmo fazemos com filmes, vídeos em geral, música, imagens. É tudo virtual. Só a inteligência, quando existe, ainda é humana. A inteligência artificial ainda tem algumas pontes Rio-Niterói e outras tantas Muralhas da China por percorrer.


Mas, e quanto à revista que assinamos, o jornal que compramos e o blog que acessamos? O que podemos dizer deles? Ou melhor, o que eles dizem da gente? Nada mais correto que a percepção de que ‘dize-me o que lês que te direi quem és’.


Essa idéia, de que cada um se conhece é muito difundida. A mim parece que a maioria compra essa idéia sem avaliar bem. Ninguém se conhece. Claro, ninguém também é exagero. Mas, de 6,5 bilhões de seres humanos não acho que ao menos 1% desse contingente se conheça. O autoconhecimento é sofrido, doloroso, lento, não dá dinheiro nem fama, não concede os passos seguros de quem ao fim do dia se dirige para casa. E o ‘ser’ anda em baixa nessa era do ‘ter’.


Verdade e erro


Todos crêem que se conhecem. Isso é assim porque construímos uma imagem – geralmente generosa – de nós mesmos e confiamos nela. Acontece que a depender do nível de auto-estima esta imagem pode variar de herói, galã, santo, de gênio, benemérito da espécie humana. Jamais de perdedor, salafrário, especialista em notas de rodapé que freqüentou um terço da vida os corredores cinza da Sorbonne IV, em Paris.


Ninguém consegue se ver como monstro, pervertido ou simplório, destituído das luzes do discernimento. Mas, o pior é quando a pessoa se vê como ‘normal’. ‘Normal’ é só um rótulo que colocam na gente os que não nos conhecem. Pois ‘normal’ não significa nada especificamente. O ‘normal’ é aquele que pouco ou nunca olha para dentro de si mesmo. E ser normal em uma época de penumbra não é nem um pouco vantajoso. Porque nem tudo que reluz será realmente ouro. Somos, por assim dizer, minas ricas em jóias de inestimável valor, mas, privados da verdadeira educação, desistimos de revelar nosso verdadeiro potencial. Simples assim.


A imagem que o outro faz de nós costuma ser mais reveladora. Se não acreditasse nisso não faria crítica da mídia. Normalmente pomos na nossa auto-imagem aquilo que queremos ver em nós mesmos e jogamos na imagem que fazemos do outro aquilo que é nosso, mas que não aceitamos em nós. Muita gente que inicia um processo de autoconhecimento desiste quando começa a encontrar em si aquelas coisas que sempre detestou nos outros.


O outro engano é achar que falar, criticar, elogiar, questionar, de nada serviria. Podemos sim, com nossas palavras, conselhos e críticas ajudar no processo de autoconhecimento do outro.


Só não podemos é transformar o outro na imagem que fazemos dele. Por mais que tentemos. C. G. Jung (1875-1961) foi muito feliz quando disse que ‘o conhecimento não reside apenas na verdade, mas também no erro’.

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