Terça-feira, 14 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Como ludibriar o cidadão

Por Luciano Martins Costa em 22/06/2010 na edição 595

A Folha de S.Paulo informa que a votação da proposta de mudança no Código Florestal Brasileiro deverá ser adiada para depois das eleições. O início da discussão sobre o relatório do deputado Aldo Rebelo, do PCdoB, estava marcado para terça-feira (22/6), mas foi adiado para a próxima segunda-feira (28).


A bancada ruralista, que forneceu a maior parte das ‘contribuições’ para a proposta assinada por Aldo Rebelo, vai tentar manobrar para antecipar a votação. A bancada ambientalista quer evitar que a decisão seja contaminada pelo clima eleitoral, mas também espera que a opinião pública se mobilize para que o debate seja mais amplo.


Aí é que entra o papel da imprensa.


A imprensa sinaliza aqui e ali que se interessa pelo assunto, mas na semana passada alguns jornais e sites noticiosos deram curso a uma mistificação bem ao gosto dos ruralistas, que defendem a liberação ampla do desmatamento.


Trata-se de uma versão amputada e manipulada de um estudo intitulado ‘Fazendas aqui, florestas lá – Desmatamento nos trópicos e competitividade dos estados unidos na agricultura e na indústria madeireira’.


‘Inocentes úteis’


O texto original, que pode ser lido em inglês aqui, defende a falsa teoria segundo a qual as queimadas de florestas são a causa principal das mudanças climáticas, e afirma que, protegendo as florestas tropicais, os americanos estariam defendendo o interesse de sua agricultura nacional contra a concorrência de outros países.


Os ruralistas usaram esse texto para atacar os ambientalistas brasileiros.


O documento estimula o investimento na exploração sustentável de florestas tropicais, mas induz a interpretações equivocadas da questão climática, escondendo as causas urbanas e industriais do aquecimento global.


Tal raciocínio torto foi abrigado por jornais brasileiros, e a divulgação de textos baseados nessa manipulação de dados foi multiplicada por sites ligados a interesses dos ruralistas que tentam impor as mudanças no Código Florestal.


A leitura desses textos dá a entender que os defensores do patrimônio ambiental brasileiro estão a serviço do agronegócio dos Estados Unidos, ou são inocentes úteis condicionados por ONGs estrangeiras.


A história é bem outra.


A verdade da terra


Em primeiro lugar, o Brasil não precisa desmatar mais para aumentar sua produção agrícola. Mesmo com as restrições atuais, o agronegócio brasileiro deverá crescer 40%, o dobro da média mundial, nos próximos oito a dez anos.


Os dados estão contidos num estudo conjunto produzido pela FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação) e pela OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico).


Para efeito de comparação, basta observar que o mesmo estudo aponta uma expansão da agricultura americana e canadense de apenas 10% em igual período. Os países do Hemisfério Norte estão mais perto do limite de produtividade de suas terras. Considere-se, também, que mesmo com essa perspectiva de crescimento, o Brasil estará longe de ocupar toda a sua área agriculturável.


Em 2003, o cultivo e a pecuária não cobriam nem 20% das terras disponíveis no Brasil, e desde então seguimos batendo recordes de produção, em parte com o sacrifício do patrimônio ambiental, sem necessidade desse ônus.


Há controvérsias segundo as fontes, mas considera-se que atualmente, com a grande expansão da atividade, a exploração se aproxima de 50% das terras agriculturáveis. Ou seja, o Brasil pode seguir ampliando sua capacidade produtiva sem cometer o crime que é proposto no relatório assinado pelo deputado Aldo Rebelo.


Armas de fogo


O maior risco embutido no projeto dos ruralistas é o de transferir para os estados as decisões sobre uma questão que é fundamental para a estratégia de desenvolvimento do país.


O Brasil tem a maior disponibilidade de área agriculturável do planeta, ainda a ser explorada, e tende a usar cada vez menos terra por tonelada de produto, porque o agricultor nacional é o mais competitivo do mundo. Não apenas porque o país avançou muito em termos de tecnologia rural, mas também porque o clima e a diversidade dos solos ajudam a compor um mosaico de produtos altamente valioso.


A agricultura nacional tem condições de se desenvolver de forma sustentável, sem necessidade de normas ‘mais flexíveis’ de proteção do patrimônio ambiental.


A imprensa precisa mergulhar profundamente no tema, em vez de dar curso a mistificações manipuladas pelas forças mais retrógradas do cenário do poder nacional.


São as mesmas forças que produziram o grande retrocesso na tentativa de controlar a proliferação de armas de fogo no país.

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