Sábado, 15 de Agosto de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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ENTRE ASPAS >

Congestionamento em SP provoca reflexões

Por Leticia Nunes (seleção de textos) em 18/03/2008 na edição 477

Leia abaixo a seleção de segunda-feira para a seção Entre Aspas.


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Folha de S. Paulo


Segunda-feira, 17 de março de 2008


CONGESTIONAMENTO
Fernando de Barros e Silva


Ponto morto


‘SÃO PAULO – Não é preciso muito para imaginar o dia em que a moça da rádio nos anunciará, do helicóptero, o colapso final: ‘A CET já não registra a extensão do congestionamento urbano. Podemos ver daqui que todos os carros em todas as ruas estão imobilizados. Ninguém anda, para frente ou para trás. A cidade, enfim, parou. As autoridades pedem calma, muita calma’.


‘A auto-estrada do Sul’ é um conto extraordinário de Julio Cortázar. Está em ‘Todos os Fogos o Fogo’, de 1966 (a Civilização Brasileira traduziu). Narra, com monotonia infernal, um congestionamento entre Fontainebleau e Paris. É a história que inspirou ‘Weekend à Francesa’ (1967), de Godard.


O que no início parece um transtorno corriqueiro vai assumindo contornos absurdos. Os personagens passam horas, mais horas, dias inteiros entalados na estrada.


Quando, sem explicações, o nó desata, os motoristas aceleram ‘sem que já se soubesse para que tanta pressa, por que essa correria na noite entre automóveis desconhecidos onde ninguém sabia nada sobre os outros, onde todos olhavam para a frente, exclusivamente para a frente’.


Não serve de consolo, mas faz pensar. Seguimos às cegas em frente há quanto tempo? De Prestes Maia aos túneis e viadutos de Maluf, a cidade foi induzida a andar de carro. Nossa urbanização se fez contra o transporte público. O símbolo modernizador da era JK é o pesadelo de agora, mas o fetiche da lata sobre rodas jamais se abalou.


Será ocasional que os carrões dos endinheirados -essas peruas high-tech- se pareçam com tanques de guerra? As pessoas saem de casa dentro de bunkers, literalmente armadas. E, como um dos tipos do conto de Cortázar, vêem no engarrafamento uma ‘afronta pessoal’.


Alguém acredita em soluções sem que haja antes um colapso? Ontem era a crise aérea, amanhã será outra qualquer. A classe média necessita reciclar suas aflições. E sempre haverá algo a lembrá-la -coisa mais chata- de que ainda vivemos no Brasil.’


 


Ruy Castro


Extensões da roda


‘RIO DE JANEIRO – O Rio chegou a 2 milhões de carros; São Paulo, a 6 milhões. No Rio, é um carro para cada três habitantes; em São Paulo, são dois. O automóvel venceu. O comunicólogo Marshall McLuhan, talvez a única voz otimista de 1968, errou feio: o ser humano é que se tornou uma extensão da roda. Mas, em 2008, quem quiser chegar rapidinho a qualquer lugar, é melhor que vá a pé.


Uma prova de que nos reduzimos a indesejados apêndices de nossos veículos é o destaque dado pelos on-lines, jornais e TVs ao trânsito e às enchentes. Ocupam muito mais espaço do que a morte de, pelas estatísticas, 1,2 motoqueiro por dia em São Paulo. A informação de que há ‘congestionamento’ ou ‘pontos de alagamento’ em tal região é mais importante que a tragédia diária de um motoqueiro ou o estropiamento físico de outros seis ou sete. E que se remova logo o cadáver para o trânsito voltar a ‘fluir’.


Ouço dizer que um dos motivos do estrangulamento de nossas cidades é que, hoje, qualquer pessoa pode comprar um carro e pagá-lo em até 72 meses. Significa que esse carro só será quitado daqui a seis anos. Mas, muito antes, já terá ficado tão ‘velho’ que precisará ser trocado por outro, claro que do ano. Sem problema: dá-se a furreca de entrada e liquida-se o resto em mais 72 meses, num endividamento que, pelo visto, só termina com a morte. Para isso nasceu o ser humano?


E outro motivo para que nossas cidades estejam ficando intransitáveis me parece ser o tamanho dos carros. Foi-se o tempo em que as pessoas queriam carros bonitos, leves e elegantes. A ordem agora são as jamantas, os furgões grosseiros e os jipes gigantes, que, até há pouco, só se viam na zona rural, transportando estrume. Iludimo-nos com a idéia de que moramos em Nova York, mas rodamos por ela em diligências do Velho Oeste.’


 


Marcos Cintra


Trânsito. Coragem, prefeito


‘EM 2000 , na preparação de plano de governo para São Paulo, propus a alteração do modelo viário, promovendo sua urgente revascularização. A proposta era parar de concentrar o fluxo viário nas grandes artérias, onde ocorrem os congestionamentos, fazendo-o fluir pelas vias secundárias ociosas.


Como diz o secretário municipal dos Transportes, ‘uma viagem de helicóptero no horário de pico permite ver que o trânsito está carregado em grandes avenidas e livre em vias paralelas’. A observação é pertinente, mas pouco resolverá apontar 140 rotas alternativas, como prometido, pois, suspeito eu, todos já as conhecem e delas já se utilizam.


As autoridades perderam tempo e dinheiro quando mantiveram o modelo arterial no trânsito paulistano. A construção de dispendiosas artérias (que são os focos de congestionamentos) custaram quase R$ 3 bilhões (túneis subaquáticos, pontes estaiadas que comportam navegação de transatlânticos, vias monumentais e outras extravagâncias).


Se, em vez disso, a cidade tivesse gastado esses recursos para promover a remoção de obstáculos viários, para a construção de dezenas de pequenas pontes e viadutos nas marginais e para a configuração de uma rede reticular de ruas, o trânsito fluiria mais livremente ocupando a totalidade do leito carroçável, em vez de se concentrar nos 5% das pistas arteriais, totalmente ateroscleróticas.


Nova York tem 22 mil veículos por km2, e em São Paulo ainda são 4.500 veículos por km2. Porém aqui há congestionamentos mais graves que lá, pois Manhattan possui um sistema quadriculado de vias que são homogeneamente utilizadas. Aqui existem serpentes de congestionamentos cercadas de ruas vazias.


Nos artigos ‘Neuróticos e improdutivos’ e ‘Revascularização do trânsito em São Paulo’, publicados nesta coluna em 26/11/2007 e em 10/12/2007, respectivamente, procurei mostrar as implicações econômicas da calamidade que virou o trânsito paulistano. O caos verificado diariamente no principal centro econômico do país (o município representa 12% do PIB brasileiro) compromete a competitividade da produção nacional. O custo de transporte, de carga e passageiros, aumenta. O custo de oportunidade das pessoas paradas no trânsito é de mais de R$ 27 bilhões por ano, sem contar o desperdício de combustível e os efeitos maléficos da poluição.


A impressão que se tem é que as autoridades têm medo de agir. Há medidas que poderiam melhorar o transporte na cidade, mas é preciso coragem e determinação para implementá-las. Algumas delas são:


1) Agir com rigor na fiscalização de veículos velhos e inseguros. Nas ruas, circulam até carrinhos de mão e carroças com tração animal;


2) Restrição à circulação de caminhões de grande porte. São Paulo precisa funcionar 24 horas por dia, e horário para transporte de carga deve ser entre as 22h e as 6h;


3) Investir em terminais de transbordo. Isso evitaria os ridículos comboios de ônibus vazios em fila indiana na região central e grandes avenidas (vale a pena verificar a avenida Paulista!);


4) Implantar pedágio urbano, como em Londres, Milão, Estocolmo, Cingapura e Oslo. É preciso igualar a utilidade marginal privada ao custo social pelo uso do automóvel.


Essas ações, e inúmeras outras, seriam paliativos para amenizar a absurda crise de mobilidade na cidade, enquanto se espera pela solução definitiva, que é o transporte de massa eficiente. Esperar passivamente vai matar a cidade e muitos de nós iremos juntos.


MARCOS CINTRA CAVALCANTI DE ALBUQUERQUE , 62, doutor pela Universidade Harvard (EUA), professor titular e vice-presidente da Fundação Getulio Vargas, foi deputado federal (1999-2003). É autor de ‘A verdade sobre o Imposto Único’ (LCTE, 2003). Escreve às segundas-feiras, a cada 15 dias, nesta coluna.’


 


TODA MÍDIA
Nelson de Sá


Em ação


‘No alto da busca de notícias de Brasil por Google, Yahoo e Inform.com, ‘Brasil encontra primeiras plantações de coca na floresta amazônica’. Assim, coincidindo com a passagem da secretária de Estado dos EUA, o Supremo aprovou a extradição de Carlos Ramirez-Abadia, como noticiou o ‘New York Times’, e agora ‘o Exército anunciou descobrimento de folha de coca e de um laboratório de cocaína na Amazônia’, como deu a BBC. Esta última reproduziu a cobertura da TV Brasil, pela primeira vez -com o comentário do especialista em crime organizado Walter Maierovitch de que a descoberta preocupa, pois ‘pode significar uma mudança na estratégia dos cartéis colombianos’.


Valter Campanato/ABr/agenciabrasil.gov.br


Na home da Agência Brasil, ‘helicóptero do Exército durante a operação que descobriu coca’


BRASIL VS. EUA


O que mais ecoou nos EUA, de Condoleezza Rice, foi Salvador. Nas legendas, ela ‘dança no histórico porto’ etc.


Mas desde a sexta na imprensa da Argentina até ontem em ‘O Estado de S. Paulo’ e agências, repercutiu pela América Latina a pressão da secretária para Brasil e Chile aceitarem a proposta de flexibilizar fronteiras na região. O projeto seria levado amanhã à Organização dos Estados Americanos, em Washington. Mas o Brasil já respondeu ‘não’, destacou o ‘Clarín’, e quer o Conselho de Defesa.


‘BEM CENTRISTA’


Encerrando a série ‘Brasil: O Gigante Vizinho’, a BBC Brasil ouviu ontem o cientista político Riordan Roett, da universidade Johns Hopkins, do Chase e do Council on Foreign Relations. Queria saber se o país é ou não ‘o líder da região’. Diz Roett que sim, por conta de ‘uma política internacional bem centrista’. Ele elogiou o ‘desempenho excelente de Lula e do Itamaraty’ na crise entre Colômbia e Equador. ‘É importante os brasileiros entenderem que o Itamaraty é o melhor, o melhor ministério de relações exteriores do hemisfério, não apenas da América Latina’.


INFERIORIDADE


Com 20 textos, da economia à arte, o especial ‘publicitário’ do ‘Guardian’ sobre o Brasil falou em ‘Terra de contrastes’ e outros lugares-comuns. Mas o que ecoou mais, por aqui, foi um perfil que ouviu FHC e a comentarista Lúcia Hippólito para questionar se Lula ‘é só símbolo’, ‘herói acidental’ do país; aliás, se ele não sofre de ‘complexo de inferioridade’


RECIPROCIDADE


J.R. Guzzo, novo colunista da revista ‘Veja’, defendeu que o Brasil não responda aos ‘atos arbitrários’ da Espanha com outros, pois ‘pode fazer bem ao ego nacional’, mas é só ‘reciprocidade no erro’.


‘SNL’, O TROCO


O ‘Saturday Night Live’ fez renascer a chance de Hillary Clinton -e o ataque pesado a Barack Obama. E agora é o programa que se vê criticado do ‘NYT’ ao Politico.com, por favorecer um dos lados.’


 


RÁDIO
Willian Vieira


Aos 84 anos, princesinhas do rádio vivem hoje de dublagens e de palestras


‘Desde que subiram ao palco de um programa de rádio pela primeira vez, lá se vão mais de 60 anos de trabalho. E se as irmãs Gessy e Daisy Fonseca, ambas famosas no auge do rádio, hoje não conseguem emprego nas rádios e televisões do país, mesmo com currículos gordos que atualizam com extrema dedicação, não é por falta de tentativas.


‘É preconceito de idade’, diz Gessy, 84. No sofá de estampas floridas do apartamento onde vive sozinha, em São Paulo, segura um jornal de 1953 com o título ‘Quem não conhece Gessy Fonseca?’ Há 67 anos trabalhando com voz, a ‘princesinha do rádio’ é dubladora de filmes.


A placa com seu nome no Theatro São Pedro (São Paulo), por 60 anos de carreira, importa pouco para quem guarda os prêmios em uma sacola sobre o guarda-roupa. Ela não vive de memórias. Faz dublagens para televisão, ganha cerca de R$ 70 a hora e ainda distribuiu currículos. ‘Mas queria é que o telefone tocasse, assim, ‘olha, tem um papel para você’. Eu faria.’


A aposentadoria é pouca, o resto vem da dublagem. ‘Só não vou à televisão fazer choradeira, que ninguém lembra de mim. Isso não faço.’ Enquanto não surge o convite, é voluntária na gravação de livros para cegos, no Centro Cultural São Paulo. Lá, toda semana, sua voz grave ecoa no estúdio. ‘Se Deus me deu a alegria de ter uma voz boa, por que não dar alegria a quem quer ler e não pode?’


A quilômetros dali, sua irmã Daisy segura a foto em que está sentada no sofá de Hebe Camargo, 79, ambas de penteados laqueados, trabalhando no programa ‘Mulher 65’.


Daisy já foi radioatriz, escreveu a coluna de jornal ‘De Mulher para Mulher’, foi redatora de rádio. Aposentada, tem dois filhos, 14 netos e ‘muitos bisnetos’; não sabe quantos. E publicou um livro de memórias, em 2003. Tem outro no prelo. ‘Escrevi por não conseguir voltar para o rádio’, diz.


Ela se irrita, mas releva. ‘É que as idéias vêm às pencas na minha cabeça.’ Tanto que ela negocia agora a venda da última entrevista dada, a ela, por Cacilda Becker, em 1969.


‘Hebe e o passado’


‘O programa começava assim: boa tarde mamãe, boa tarde vovó, boa tarde brotinho (naquela época mocinha era brotinho)’, lê Daisy, em voz alta, o script amarelado do programa ‘Mulher 65’, que redigia para Hebe Camargo. ‘Por isso, quando você vê, no programa da Hebe, aquele público de senhoras, pode crer, metade fui eu que cativei com minha máquina de escrever.’


Antes, Daisy já havia trabalhado nos anos 1940 com a escritora Ivani Ribeiro, quando ela ia, máquina de escrever na mão, para dentro da sala de cinema, taquigrafar no escuro a história dos filmes -que depois eram lidos no rádio. Só anos depois, já casada com o diretor da rádio Bandeirantes Rebello Jr., que então se formava em direito, foi levar um convite para Hebe. Afastada do rádio pelo casamento, Hebe quis gravar um programa de casa e pediu idéias, diz Daisy. Foram cinco anos de programa diário -três após o derrame do seu marido. ‘Escrevia 18 páginas por dia, na penteadeira. Mas valeu a pena.’


‘C’est Ma Vie’ [é a minha vida] é o título do álbum de memória que Gessy abre com cuidado, mostrando a foto dela menina, quando o pai as levava para as gravações. Era 1941, quando foram assistir ao show de Otávio Gabus Mendes. Ele as chamou no palco, as ouviu, fez um convite e elas começaram como atrizes. Gessy estudou para ser secretária, e Daisy, para ser artista. Mas quiseram o rádio.’


 


TELEVISÃO
Daniel Castro


Autor e diretor de novela terão mais autoridade, diz Globo


‘As mudanças na estrutura artística da Globo, anunciadas na semana passada, darão maior autonomia a autores e diretores de programas, segundo Octavio Florisbal, diretor-geral. Mas isso não significa novelas mais autorais. O controle de qualidade será reforçado.


Em comunicado na quinta, a Globo anunciou a criação da Área de Entretenimento. A unidade é a fusão das centrais de Criação e de Produção. Atual diretor da Central Globo de Produção (o Projac), Manoel Martins será o diretor-geral da Área de Entretenimento, a partir de julho, quando Mário Lúcio Vaz, diretor-geral artístico e hoje responsável pela criação, passa a atuar como consultor.


‘Manoel Martins será um executivo gestor e vai delegar mais atribuições a autores e diretores. Eles terão mais autonomia, autoridade e responsabilidade’, promete Florisbal.


Segundo o executivo, autores e diretores de núcleo (que devem passar a ser chamados de diretores artísticos), assumirão parte do papel desempenhado por Vaz na criação. E decisões antes submetidas a Vaz _como escolha de nome, marca, trilha sonora e abertura_ serão exclusivas de autores e diretores. ‘A idéia é dividir mais’, afirma.


Florisbal acredita que o novo modelo de gestão dará maior equilíbrio à relação autor/diretor _autores costumam acusar diretores de terem maior poder e vice-versa. Contudo autores continuarão liderando a concepção e diretores, a realização.


Nessa nova estrutura, o diretor de produção (responsável, por exemplo, por cenários) terá maior influência numa novela. ‘A produção participará do processo desde o início’, diz.


O controle de qualidade, antes exercido por Vaz, será reforçado e dividido. Martins ficará com o controle do artístico (aspectos técnicos), que será exercido antes da produção, e não sobre o produto pronto. O próprio Florisbal fará o controle dos ‘princípios e valores’ (ética, responsabilidade social, classificação indicativa).


Para Florisbal, as mudanças tornarão a Globo mais preparada para ‘novas demandas’ (produções em alta definição e novas mídias).


DEFLAÇÃO O SBT reduziu pela metade o valor dos prêmios que pagava no ‘Fantasia’. Quando o programa era transmitido na madrugada, telefonemas atendidos no ar rendiam R$ 100 ao telespectador. Agora à tarde, o ‘Fantasia’ paga apenas R$ 50. O programa dá prejuízo.


AMARELOU Três motivos levaram a Record a desistir de disputar os direitos do Campeonato Brasileiro, a partir de 2009. Primeiro, teria prejuízo se propusesse pagar mais de R$ 500 milhões por ano. Segundo, a Globo poderia cobrir sua oferta. Terceiro, só os clubes ganhariam.


ATRASOU O novo programa de Xuxa na Globo, aos sábados, só deve estrear em maio _e não mais em abril, com a nova programação.’


 


Raquel Cozer


Louco por Lost


‘Qualquer fã de ‘Lost’ sabe a mensagem embutida nas expressões ‘Previously on ‘Lost’ e ‘Baaad Robot!’. Elas determinam, respectivamente, o começo e o final de cada episódio (a sentença ‘anteriormente, em ‘Lost’ anuncia o resumo do capítulo prévio; Bad Robot é o nome da empresa de J.J. Abrams, que assina a produção).


Desde fevereiro, após a estréia nos EUA do quarto ano da saga dos sobreviventes do vôo 815 da Oceanic numa ilha do Pacífico, dois nova-iorquinos resolveram levar ao pé da letra a mais animadora das frases (a que prenuncia os capítulos) e fazer uma síntese de cada episódio -em forma de música.


Assim surgiu a banda Previously on Lost, que logo conquistou fãs da série e uma definição de gênero: ‘recap rock’ (rock resumo). O termo, criado por um blogueiro, foi adotado pela dupla em sua página no MySpace (myspace.com/previouslyonlostmusic).


Não que ‘recap rock’ guarde grande significado artístico. À Folha, por telefone, o criador da banda Jeff Curtin, 25, lista influências como Cole Porter, Flaming Lips e trilhas da Disney, mas admite não ter ambições maiores que contar a história de ‘Lost’. ‘Nossa ênfase é nas letras’, diz ele, envolvido também na criação do canal de TV on-line do conceituado site de música Pitchfork.


Munidos basicamente de teclados e computadores, Curtin e Adam Schatz, 20, estudante de música da Universidade de Nova York, demonstram devoção à série na mesma medida em que tiram sarro. ‘Ele está armado até os dentes, com um revólver e um eficaz spray para os cabelos’, diz a letra de ‘The Ballad of Sayid Jarrah’, em referência às madeixas alisadas que o iraquiano ostenta no episódio ‘The Economist’ -o terceiro da temporada, que por aqui passa hoje, às 21h, no AXN.


‘Espero não ser um estraga-prazeres, que conta para vocês no Brasil o que rolou antes de os episódios irem ao ar!’, preocupa-se Curtin (a temporada está no sétimo capítulo nos EUA), antes de saber que muitos fãs baixam os episódios pela web assim que são exibidos por lá. ‘Isso é bom, né?’, avalia.


O processo criativo começa às quintas, quando a dupla revê o episódio da semana (‘A primeira vez é por diversão’). Daí eles pensam nas referências -a faixa do episódio sobre Sayid, por exemplo, é um ‘misto de trilha de filmes de agente secreto com um pouco de D’Angelo’. Até o sábado, eles amadurecem as idéias, e, no domingo, gravam na casa de Curtin, para pôr a faixa no ar na seqüência.


Os Outros


A dupla não está sozinha na empreitada de transformar em acordes as peripécias dos remanescentes da ilha. Assim como na série o lugar já era habitado pelos misteriosos Os Outros antes da chegada de Jack e cia., o MySpace já acolhia as canções de uma certa The Others.


A página ‘rival’ (myspace. com/theotherslostband) tem patamares de popularidade mais modestos -feita em abril de 2006, tinha até sábado 13 mil acessos; a do POL, no ar há pouco mais de um mês, beirava os 60 mil. Mas a temática e a simplicidade melódica despertam reações similares de amor e ódio: ‘[A faixa] ‘Head Held High’ é impressionante! É uma bela besteira, e por besteira eu quero dizer incrível!’, comenta um internauta no site.


‘Não sei se o que fazem também é ‘recap rock’, diz Curtin, tomando para si a posse do termo, ‘mas eles pediram para ser nossos amigos no MySpace, e aceitamos’, contemporiza. ‘Eles têm músicas boas.’


Recentemente, Curtin participou de uma entrevista com Michael Emerson (o Ben, do seriado) à rádio americana NPR, a convite da produção. ‘Há profundidade nisso’, disse um sem-graça Ben ao ouvir uma das faixas. O comentário, claro, foi postado no MySpace como credencial de ‘sucesso’.


Aliás, foi um imbróglio (ainda não exibido por aqui) na série envolvendo Ben que deu a Curtin a pista do que é a ilha de ‘Lost’. ‘É preciso resolver questões sentimentais para sair de lá. Aquilo ali é o triângulo das Bermudas do amor!’’


 


Janaina Fidalgo


Voluntários roem alimentos em zôo


‘Sabe aquelas máximas alimentares que, repetidas à exaustão, todo mundo já sabe de cor e salteado e, mesmo assim, quase ninguém segue?


Pois prepare-se, porque aí vêm elas novamente: 1) Uma dieta saudável deve ter frutas e verduras em abundância; 2) É melhor comê-las cruas que submetê-las à ação do fogo;


3) O sal, inimigo mortal, deve ser evitado, para o bem da pressão arterial. É em cima dessa retórica que se constrói ‘A Verdade sobre o que Você Come’, série em seis episódios que o GNT estréia hoje, às 21h.


Unidos pelo mal comum (excesso de peso, pressão alta), voluntários são confinados em um ‘zôo’ (sim, um zoológico, com direito a uma plaquinha com a inscrição ‘não alimente os humanos’) e lá recebem a ração: uma caixa cheia de banana, couve-flor, tomate, cogumelo…


Como seus antepassados faziam, antes da maravilhosa descoberta do fogo e da arte de temperar, têm de roer tudo cru e (santo Deus!) sem sal.


Talvez seja pela sugestão de que é necessário abrir mão do inestimável sabor que só os alimentos cuidadosamente preparados têm é que esses conceitos raramente sejam colocados em prática por um tempo considerável. Porque, no final, o que realmente importa é o gosto. A VERDADE SOBRE O QUE VOCÊ COME


Quando: estréia hoje, às 21h; reprises às terças, às 5h e às 11h


Onde: GNT’


 


LITERATURA
Eduardo Simões


Bienal do Livro de SP destaca nova literatura alemã


‘A 20ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que acontece entre 14 e 24 de agosto, terá uma semana inteira dedicada à novíssima literatura alemã. Durante a Feira de Leipzig, o diretor do Instituto Goethe de São Paulo, Wolfgang Bader, anunciou três dos nomes já confirmados para participarem do evento: Julia Franck, cujo livro ‘Die Mittagsfrau’ (a mulher do meio-dia) foi vencedor do Deutscher Bucherpreis 2007 -equivalente alemão ao Booker Prize inglês; Antje Rávic Strubel, autora de ‘Kältere Schichten der Luft’ (camadas mais frias do ar), e Ilija Trojanow, autor de ‘Der Weltensammler’ (o colecionador de mundos).


Os três escritores e os livros citados acima fazem parte do Litrix, programa de fomento à tradução da literatura alemã, ligado ao Instituto Goethe, e que tem o Brasil como país-alvo no biênio 2007/2008.


Na Bienal, os autores farão leituras em uma ‘text box’ -cabine transparente com cerca de 6 m2, à prova de som- de trechos de seus livros. Os organizadores da Feira de Frankfurt, que promoverá a performance, querem que escritores brasileiros também participem da ‘text box’.


Bader quer levar até oito escritores à semana de literatura alemã da Bienal. Outros dois autores em vista são Robert Menasse e o suíço Pascal Mercier (pseudônimo do filósofo Peter Berri).


‘Os escritores não necessariamente estão ligados ao programa Litrix. O importante é que eles tenham um grande valor representativo do panorama contemporâneo da literatura alemã que, depois de um período reconhecidamente fraco, de autores e livros com imagem de intelectualizados demais, agora surgem com novas maneiras de narrar e com novos temas. É uma nova geração marcada pelo background não-alemão, como é o caso de Trojanow, e das mulheres, como Julia Franck e Antje Rávic Strubel’, disse Bader.


Além de Franck, Strubel e Trojanow, Bader confirmou a presença do filósofo alemão Oskar Negt, ligado a nomes como Theodor Adorno e Jürgen Habermas, numa mesa que irá discutir os eventos do maio de 1968, 40 anos depois. A idéia é confrontar Negt com um escritor brasileiro, debatendo o que foi ser politizado em 1968 e o que significa isso nos dias atuais.


Hoje à noite, em Berlim, Bader será o moderador de uma mesa no Instituto Ibero-Americano sobre ‘Literatura Brasileira na Alemanha – Um Negócio Difícil?’, com a participação da editora Izabel Aleixo, da Nova Fronteira, do professor Berthold Zilly, tradutor para o alemão de ‘Os Sertões’, de Euclydes da Cunha, e de Nicole Witt, que faz parte da Agência Literária Mertin.


O jornalista EDUARDO SIMÕES viajou a convite do Instituto Goethe de São Paulo’


 


CINEMA
Lucas Neves


‘Atuo para explorar minha relação com o universo’


‘Na suíte de um hotel em Santa Monica, na Grande Los Angeles, oito jornalistas estrangeiros acotovelam-se pela atenção dos atores do thriller ‘Ponto de Vista’ (em cartaz no Brasil desde sexta), que, um após o outro, encaram sabatinas de 15 minutos cronometrados.


Para aflição da reportagem da Folha, os colegas de Dinamarca, Bélgica, Hong Kong e latitudes afins se interessam mais por amenidades da vida pessoal de Whitaker, Matthew Fox e Dennis Quaid do que pelo filme (que narra um atentado contra o presidente dos EUA pelos olhos de oito testemunhas): ‘que tipo de pai você é?’, ‘você anda malhando pesado, não é?’ e ‘já havia estado na Cidade do México [que fez as vezes da espanhola Salamanca] antes das filmagens?’ são algumas das indagações.


Daí o espanto quando a melhor fala de Whitaker vem em resposta a um ‘onde comprou este bracelete [de bolinhas marrom-escuro, que ele usa no punho esquerdo]?’:


‘Em Toronto. É parte do meu caminho, acho. Sou agnóstico, creio em religiões aborígenes tradicionais e saúdo, em minhas meditações, a Terra e os elementos. Meu trabalho é só uma desculpa para seguir explorando minha relação com Deus e o universo. É só uma oportunidade de ver se ainda tenho aquela faísca dentro de mim ou se entendo a faísca em você. Cada personagem é uma chance de sondar minha conexão com aquela pessoa’.


E não foi difícil achar a ligação com Idi Amin Dada (1925-2003), o sanguinário ditador ugandense que encarnou em ‘O Último Rei da Escócia’ -em atuação premiada com o Oscar? ‘Sim, trabalhei muito.


Foi aí que realmente entendi a meditação: uma coisa é se concentrar por um tempo, outra é meditar continuamente até que sua vibração mude, até o ponto em que você desapareça dentro da energia de outrem.’


Turista acidental


Mas voltemos a ‘Ponto de Vista’, o filme que, apesar da recepção fria da crítica norte-americana, faturou US$ 51,5 milhões (R$ 87,2 mi) nas três primeiras semanas de exibição.


Nele, Whitaker vive Howard Lewis, turista de passagem por Salamanca (Espanha) cuja câmera amadora se torna peça-chave na investigação do ataque ao líder norte-americano.


‘É um sujeito recém-divorciado, perdido, tentando achar uma paixão e reaprender a viver. De repente, ele se vê numa situação extraordinária e percebe quem de fato é: o cara que, pelo menos, vai tentar ajudar’, descreve o ator.


‘Ponto de Vista’ foi rodado em 2006, antes de Whitaker receber a estatueta dourada das mãos de Reese Witherspoon.


Aumentou o interesse de diretores por seu passe desde então? ‘Sim, agora há muito mais projetos.’ Acompanhados por cheques polpudos? ‘Espero que venham’, desconversa.


Na seqüência, aparecerá ao lado de Keanu Reeves no policial ‘Street Kings’, dividirá a cena com Patrick Swayze no indie ‘Powder Blue’ e, mais à frente, perseguirá Alice Braga na ficção científica ‘Repossession Mambo’, ambientada num futuro em que órgãos humanos artificiais são livremente comercializados.


‘Alice é uma pessoa muito poderosa, espiritualizada, uma artista interessante’, elogia o ator. ‘Mas devo dizer: a certa altura do filme, deixo-a inconsciente de tanta paulada.’


O jornalista LUCAS NEVES viajou a convite da Sony’


 


Lúcia Valentim Rodrigues


Festival tem número recorde de cinebiografias brasileiras


‘O 13º É Tudo Verdade, que começa no dia 26 em São Paulo e no dia seguinte no Rio, abriu uma mostra paralela pelo alto índice de biografias nacionais inscritas.


São três em competição: ‘João’, sobre o comentarista esportivo João Saldanha; ‘Pan-Cinema Permanente’, sobre o poeta Waly Salomão; e ‘Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei’, sobre o cantor negro Wilson Simonal.


Isso sem contar ‘O Tempo e o Lugar’, de Eduardo Escorel, que usa a vida de um militante do MST para discutir a situação política de Alagoas.


Já na programação paralela ‘Vidas Brasileiras’, há outros seis títulos, entre retratos de gente de cinema, da música e da literatura. Ao todo, são 18 filmes inéditos brasileiros -critério obrigatório na inscrição desta edição-, entre curtas e longas.


Para Amir Labaki, diretor e fundador do evento, isso reflete o bom momento nacional. ‘Acho que as pessoas tiveram mais prazer vendo documentário do que ficção no ano passado.’ Contudo, ressaltou ser emblemático que ‘nenhum filme ganhador da competição tenha estreado em circuito’.


Desistência


Escalado para a mostra latino-americana, Eryk Rocha não conseguiu finalizar seu road movie ‘Pachamama’ a tempo. Mas houve uma inclusão de última hora: ‘Histórias Cruzadas’, de Alice de Andrade, filha de Joaquim Pedro, que fala sobre a vida do cineasta de ‘O Padre e a Moça’. ‘Adoro quando um filme é feito por quem pode mostrar a intimidade do biografado’, elogiou Labaki.


Em São Paulo, ‘Stranded’, de Gonzalo Arijon, abre o festival, falando do acidente aéreo nos Andes em 1972, quando alguns sobreviveram comendo carne humana. O Rio dá a largada no dia 27 com ‘Sem Fim à Vista’, de Charles Ferguson, indicado ao Oscar, sobre as barbaridades da Guerra do Iraque (leia mais em folha.com.br/ilustradanocinema).


Um detalhe importantíssimo: as sessões dos 137 filmes participantes são gratuitas.


Após SP e Rio, o festival vai itinerar por Brasília (a partir do dia 14), Recife (PE), Bauru (SP) e Caxias do Sul (RS).’


 


 


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O Estado de S. Paulo


Segunda-feira, 17 de março de 2008


PUBLICIDADE
Marili Ribeiro


Consumidor invade a propaganda


‘A autenticidade é a chave para reter a atenção na atual safra de anúncios que apela aos depoimentos de usuários de uma marca. A ferramenta, recorrente na publicidade desde a década de 40, surgiu com o sabão em pó Omo convocando donas de casa a falar das vantagens de lavar com o produto. No momento, estão no ar pelo menos quatro campanhas apostando no recurso: da Fiat, do Banco Real, da empresa de radiocomunicação Nextel e da operadora de telefonia Brasil Telecom.


‘Delegar ao consumidor o texto da peça publicitária, antes produzido pela própria agência, é um avanço na categoria’, diz Adilson Xavier, presidente e diretor de criação da Giovanni+DraftFCB, a agência responsável pela campanha de varejo da Fiat. ‘Apesar de ser uma campanha para estimular vendas, a referência a isso surge apenas no final do comercial, depois que o dono do carro contou sua própria história com a assinatura: Esse Fiat é meu.’


A proposta de usar o depoimento filmado no carro do consumidor é resultado de um longo trabalho. Começa com uma seleção a partir do banco de dados da companhia. Para o teste, no caso, foram contatados 30 proprietários de diferentes modelos da montadora. A partir do relato inicial de cada um deles, foram eleitas as 11 melhores histórias para serem rodadas.


O Banco Real, por meio da agência Lew, Lara/ TBWA, recorre ao expediente desde 2000 e já levou mais de 50 clientes às gravações de seus comerciais para a TV. A propaganda que está agora em cartaz também fugiu de um roteiro previamente acertado. Apostou na emoção da escolhida, a jornalista Claudia Fontoura, ao ver fotos de família. Fotos que ela havia escolhido sem saber para quê, e que foram ampliadas com mais de cinco metros de altura e expostas em um galpão.


‘Todo mundo hoje em dia tem uma relação mais estreita com a comunicação e vê a propaganda mais criticamente, a gente detecta isso em pesquisas’, diz André Laurentino, vice-presidente de criação da Lew,Lara/TBWA. ‘Os testemunhais produzidos na base dos elogios, como se fazia na época das campanhas do Omo, não funcionam mais. Tudo deve ter um toque de espontaneidade para produzir vibração e soar natural.’


A busca de elo efetivo entre o usuário e a marca levou Celso Loducca, presidente da agência Loducca, a convencer o cineasta Fernando Meirelles, que produziu a campanha da Nextel repleta de depoimentos, a também se tornar um usuário do produto. Ele comprou e acabou dando seu testemunho em uma versão de anúncio impresso da campanha onde se registra: cliente desde 2008.


Entre os clientes-personagens da Nextel estão figuras conhecidas, embora sem caráter de celebridade, segundo Loducca. São os casos da atriz Camila Morgado, usuária desde 2001, e do chef de cozinha Alex Atala, cliente desde 2003. ‘A escolha deles está relacionada com o atual momento da Nextel, que quer ir além do mundo corporativo, que foi o foco do negócio até momento’, diz Loducca.


A veracidade do que é falado também é explorada na campanha da Brasil Telecom, que usa depoimentos de usuários como um marceneiro, um motorista e uma estudante. Todos contam suas vivências com os serviços da empresa. ‘Foram mais de 150 entrevistas, que geraram 40 escolhidos, dos quais 15 terão seus depoimentos gravados até final de ano’, diz o vice-presidente de criação da Leo Burnett, Ruy Lindenberg.


Para José Borghi, presidente da agência Borghierh/Lowe, sem nenhuma campanha do gênero em veiculação no momento, há um grande desgaste do uso de celebridades dizendo que usam determinado produto – que, em alguns casos não usam. ‘Com o advento da internet, onde o consumidor tem voz ativa, tudo se desmascara e acaba por enfraquecer esse tipo de apelo.’


FRASE


André Laurentino


Vice-presidente de criação da Lew,Lara/TBWA


‘Os testemunhais produzidos


na base dos elogios, como se fazia na época das campanhas do Omo, não funcionam mais. Tudo deve ter um toque de espontaneidade para produzir vibração e soar natural’’


 


TELEVISÃO
Patrícia Villalba


A herança, vista por quem a deixou


‘Não de repente, mas de maneira intempestiva, mais da metade dos personagens da minissérie Queridos Amigos resolveu se divorciar. É como se a autora Maria Adelaide Amaral espelhasse na revisão das relações pessoais o esfacelamento das ilusões políticas que sobraram depois da Anistia, da campanha pelas Diretas, da morte de Tancredo Neves e, enfim, da eleição de 1989.


No meio de tudo aquilo, e diferentemente da geração protagonista, há um casal que não pretende se separar – mesmo que, talvez, seja o mais infeliz, o mais amargo da trama. Teresa (Aracy Balabanian) agüenta o marido, Alberto (Juca de Oliveira), como uma cruz. Alberto, por sua vez, encontrou um via alternativa de felicidade, e passou a rodopiar pelos salões de baile com Iraci, exuberante personagem de Fernanda Montenegro.


‘Não sou um homem que se separa’, repete Alberto para a filha, Lena (Débora Bloch). Lena, sim, se separou e quebrou a cara. Sua tentativa frustrada de mudar de vida, de perseguir a felicidade é como uma prova para Teresa de que casamento não se desfaz. ‘A Teresa projeta seu próprio questionamento na filha. Ela diz ‘casamento não se desfaz, se agüenta’. Ela sabe que isso não está certo, mas fez uma promessa diante de Deus. É como se ela dissesse para a filha ‘acerte, para eu enxergar que estou errada’, analisa Aracy.


Na outra ponta desse peculiar triângulo amoroso da terceira idade está a sacudida Iraci, funcionária pública aposentada, viúva. Como alguém que recebeu uma anistia – no caso, anistia de um casamento infeliz -, ela não tem tempo para reflexões, quer viver.


Ao contrário de Teresa – que, com seu rancor, segura os impulsos de felicidade de Lena -, Iraci busca injetar ânimo nas veias de sua filha Bia, que foi torturada e estuprada nos porões do DOI-Codi e nunca se recuperou do trauma. ‘Ela quer que a filha tenha coragem de enfrentar a vida. Claro que isso é uma forma de tortura, porque a filha não é ela, tem seus próprios sentimentos’, observa Fernanda.


Os três são sobreviventes. Foram jovens esperançosos no pós-guerra, viveram a ilusão de paz mundial, viram os filhos serem exilados durante a ditadura. Em 1989, quando se passa Queridos Amigos, são pessoas que vivem como dá, numa urgência perceptível, mas mais serena do que é a urgência dos personagens mais jovens. É essa visão, entre a urgência e a serenidade, que o Estado buscou nestas três entrevistas, nas quais Fernanda Montenegro, Juca de Oliveira e Aracy Balabanian falam de seus personagens na minissérie, que termina no dia 28, e fazem um breve balanço do que foram os anos 80 para o Brasil.’


 


***


‘Os três têm um desencanto, mas não desâmino com a vida’


‘Nesta entrevista ao Estado, Fernanda Montenegro fala sobre Iraci, sua personagem em Queridos Amigos, e dá sua visão – ‘de uma atriz e cidadã brasileira’, pede para avisar – sobre o processo político que serve como pano de fundo para a minissérie.


À altura em que se passa a minissérie, 1989, o que dizer da geração de Iraci, Alberto e Teresa?


Nós somos todos sobreviventes, dos anos 50 para os anos 60. Fomos muito jovens no pós-guerra, acreditávamos que o mundo não teria mais guerra, nem passaportes. O mundo tinha brigado tanto, tinha havido tanto horror, que a humanidade teria nojo da guerra, era isso que a gente pensava. E olhe que dali a pouco viria a Guerra Fria. Esses três personagens têm um desencanto, mas não um desânimo de vida. E têm a crueza de dizer o que se deve dizer.


Aprendizado que a maturidade dá.


É uma vivência que faz com que você, na medida do possível, veja a vida como ela é. Os casais são o que são, o casamento deu no que deu – às vezes muito bom, às vezes suportável, às vezes insuportável. Para o personagem da Aracy (Teresa) é suportável aquele horror. Para o Alberto, já não é mais suportável o desencontro no casamento. Por outro lado, a Iraci se libertou desse compromisso burguês. O que não deixa de ser um desencontro, porque o que o Alberto queria era fazer uma nova família com a Iraci. Deus me livre para ela! A Iraci se libertou disso, quer viver a vida dela.


Como você vê a Iraci?


A Iraci, coitada, sequer se chama Araci. Se chama Iraci. Isso significa muita coisa. Ela não é uma Araci, é uma Iraci. É um ser diferente. Aliás, é muito engraçado ela sequer se chamar Araci. Ela não faz parte das Amélias da vida. Ela quer liberdade, alegria, realidade, não tem papas na língua.


Em paralelo à época que é retratada na minissérie, quando se falava muito em liberdade, ela chega a ser amoral? Imoral?


Não, absolutamente. Ela tem uma ética muito grande. Ela não usa o outro, é uma aposentada modesta do Ipesp. Dentro da sua faixa social, vai aos bailes, namora. Ela tem de ter um namorado, uma companhia masculina. Se não der certo, claro que sempre se sofre, mas ela toca a vida. Tem uma hora em que ela diz: ‘O Alberto é um dos poucos homens que eu amei.’ Ela vai até pelo prazer da companhia, mas sabe o que significa o verbo amar.


Interessante comparar a relação que ela tem com a filha, Bia, com a relação entre Teresa e sua filha, Lena. Teresa projeta seu rancor em Lena. E Iraci, de maneira talvez tão nociva quanto, projeta sua felicidade em Bia.


Não, ela não quer impor sua felicidade. Ela quer que a filha tenha coragem de enfrentar a vida. Claro que isso é uma forma de tortura, porque a filha não é ela, tem seus próprios sentimentos. Talvez se a filha não tivesse sofrido a tortura, o estupro, ela seria algo parecido com a mãe. Mas esse corte na vida da filha derrubou-a. É essa fome de justiça que a Iraci tem, sobre esse bandido que destruiu a família dela.


Acha que corremos o risco de passar por uma situação dessas de novo, de uma ditadura?


Do lado político e ideológico, acho que não. Mas do ponto de vista da impunidade do País, talvez. Há uma impunidade tão grande, que isso se torna uma doença e uma realidade – por que não política e ideológica? – muito difícil de se suportar. Economicamente vamos muito bem, mas sabemos que são as esquinas do País.


Qual é a memória que você guarda dos anos 80?


Do ponto de vista político-ideológico, a primeira lembrança que tenho é das não-Diretas e a morte do Tancredo. Foi tudo trabalhado, defendido, para chegarmos às não-Diretas. A Anistia, no fim da década de 70, nos deu a esperança de que tudo viria mais fácil. Chegaríamos às Diretas, imagine! Mal sabíamos nós.


Sempre achei que a Abertura Política foi uma época festiva, de alívio. Foi ilusão, então?


Isso é coisa do Brasil. Tomam um impulso, todo mundo vai festejar, festejam muito, vem uma cutelada, e baixam de novo. Pegue o noticiário do dia em que não permitiram as Diretas, esse Brasil inteiro foi para as ruas. Tinha gente do povo chorando nas ruas, sentada na calçada. O brasileiro gosta de votar. Depois, tem esse presidente que morre na véspera da posse. Isso abriu caminho para o Collor. Mas esse fica para a próxima minissérie.’


 


***


‘De repente, Deus estava morto’, diz Juca de Oliveira


‘Vértice masculino do triângulo amoroso Iraci-Alberto-Teresa, Juca de Oliveira fala ao Estado sobre como a desilusão política atingiu não só os jovens ex-revolucionários, mas os pais deles.


A geração protagonista da minissérie tem em torno de 40 anos. Mas o que dizer da geração representada por Alberto, Iraci e Teresa?


Todos os três participaram de alguma forma dos acontecimentos políticos da minissérie. Claro que a mais atingida foi Iraci, que teve a filha torturada. Mas o que é importante se constatar através da obra da Adelaide é que também os pais foram atingidos, embora não tivessem participado como ativistas. Suas vidas foram marcadas como a vida dos filhos.


É emblemático como o divórcio – e o não-divórcio – tem dominado a minissérie. O esfacelamento das relações é metáfora para uma época de transformação ou um retrato dos costumes desse período?


Não foi apenas a ditadura que roubou a liberdade e a esperança de toda uma geração. Mas além da ditadura militar, a censura, o exílio, as perseguições, as torturas, outro importantíssimo fato marcou as vidas dos que viveram aqueles dias: a queda do Muro de Berlim, o esfacelamento da União Soviética e o fim de uma utopia que nos prometia um futuro onde todos seriam felizes para sempre. De repente, para todos que militavam pela causa do socialismo, Deus estava morto. Tínhamos lutado por um líder cujos crimes se revelaram afinal tão cruéis e covardes quanto os perpetrados pelo próprio Hitler. Muitos não suportaram essa verdade, se entregaram às bebidas, às drogas. Outros caíram em depressão. A desesperança teve um efeito devastador sobre a vida pessoal dos jovens, dos casais. O que parecia eterno, indissolúvel se mostrava frágil, falso, mentiroso. Claro que os casais foram afetados, os casamentos desfeitos.


Na minissérie, vemos cenas em que os personagens são bastante atingidos pela política. Como o Tito (Matheus Nachtergaele), que chorou a queda do Muro de Berlim.


Exato. O Tito faz parte daqueles que não aceitaram o fim da utopia. Muitos como ele preferiram esconder a cabeça na areia e ignorar o fim do stalinismo como um regime de terror. Esses são os que continuam pregando o famoso Conselho de Imprensa, a aprovação da Ancinav, cujos objetivos são claramente a censura dos jornais, revistas, rádio e televisão, para eliminar a oposição e o contraditório, que sempre lhes serão insuportáveis.


Qual a visão que tem do seu personagem, Alberto?


Alegre, irônico, inteligente, o Alberto não encontrou nunca em sua mulher uma companheira ideal. Frustrado no casamento, incapaz de se separar, opta por uma vida paralela. Agora, já na velhice parece ter encontrado o verdadeiro amor em Iraci, sempre disponível companheira de mambos e boleros. Mas é tarde demais.’


 


***


‘Foram tempos de grande agonia’


‘Há baldes de lágrimas em Queridos Amigos, e Aracy Balabanian diz que são lágrimas formidáveis, necessárias. Só com elas, ensina, é possível rever uma história da qual, agora, temos um pouco do distanciamento necessário para enxergar com clareza. Nesta entrevista ao Estado, a intérprete da amarga Teresa da minissérie de Maria Adelaide Amaral analisa, como Juca de Oliveira e Fernanda Montenegro, os anos 80, o fim das utopias e as relações pessoais no meio de tudo isso.


Em Queridos Amigos, as relações pessoais estão em primeiro plano. Qual a ligação que você vê entre todos aqueles divórcios, brigas familiares e amizades reatadas, e os acontecimentos políticos da época, que servem como pano de fundo?


A minissérie enfoca uma época importantíssima da história do Brasil, principalmente para a nossa geração, que desencadeou tudo isso. E a geração retratada na minissérie, a dos protagonistas, viveu as conseqüências disso. Acho que há, sim, na minissérie, um aspecto político muito forte. Ao analisar as relações pessoais do período, você consegue perceber quanto que a política mexeu com a vida das pessoas. Mexeu de tal forma que todo mundo ali está se revendo. Foi tão forte o acontecimento político, que obrigou cada um a rever o seu mundo. E o triângulo dos nossos personagens tem, justamente, num ponta a Iraci, que está se libertando, e em outra a Teresa, que não quer se libertar.


Acha que naquela época éramos mais permeáveis aos acontecimentos políticos do que hoje?


Não sei, o tempo dirá. Eu acho que nós nos tornamos tão absolutamente individualistas – na minissérie, por exemplo, as pessoas começam a parecer sozinhas – porque o que sofremos desde 1964 não foi brincadeira. As conseqüências do que está acontecendo agora aparecerão com o tempo. Mas até o individualismo que eu vejo hoje é conseqüência da política que está aí. De certa forma, com essa minissérie no ar, é uma oportunidade para a gente refletir sobre nossa atualidade política, o que virou nossa política. Estamos mais participativos, sabemos do cartão corporativo, a imprensa faz denúncias. Naquela época, muita gente não sabia o que estava acontecendo.


Precisamos, então, de um certo distanciamento histórico para digerir o que aconteceu naquela época?


Sim. Até mesmo a minha geração, ainda não conseguiu colher os frutos verdadeiros do que se propôs. Porque eu não me dou por vencida, não! E acho que não vou me dar. Imagine essa geração (dos protagonistas da minissérie). Eles ainda não conseguiram perceber o que aconteceu com eles. Eu, por exemplo, fui de esquerda. E, no ano passado, fui para Viena, Budapeste e Praga. Fiquei pensando, como o Tito (personagem de Matheus Nachtergaele), no que foi a esquerda, as decepções que a esquerda trouxe. Ainda não está esclarecido para mim quais foram as conseqüências reais dos governos de esquerda. O brasileiro tem por hábito meter logo o pau, dizer que não deu certo, acabou. Não. Nós não temos uma visão histórica do que nós mesmos, da geração anterior à retratada pela minissérie, nos propusemos. Ainda estamos analisando e vivenciando as pequenas transformações.


Qual sentimento que guarda dos anos 80?


Tempos de grande agonia, né? Todo momento que estou vivendo, eu vivo com grande esperança. Especialmente os anos 80, os planos, as inflações, essa coisa toda, foram vividos com muito desespero por nós. Mas nunca perdemos a esperança. Não é aquela coisa ‘brasileiro, profissão esperança’, não. O que eu acho é que se tem a consciência de que ainda não se completou a luta. A América Latina toda continua se debatendo, vivemos num território ainda pouco explorado. Veja que loucura, nós estamos comemorando os 200 anos do Império. Duzentos anos não é nada! Estamos vivendo essa história e é muito cedo para, como os europeus, estarmos desiludidos.


Como alguns personagens da minissérie, você se desiludiu com a esquerda?


Não. Acho que a esquerda foi mal manipulada, a gestão foi errada. Mas ainda é o meu sonho, a liberdade, a igualdade, a fraternidade. Meu sonho ainda é a Revolução Francesa.


Como você vê a relação entre Teresa, sua personagem, e a filha dela, Lena (Débora Bloch)? Ela projeta seu rancor na filha porque a filha teve coragem de abandonar o marido e ela, não?


A Lena é a tentativa da Teresa que não deu certo. Ela tentou, saiu de casa, deixou o marido, mas não deu certo. Só que, para dar certo é preciso errar, e a Teresa não aceita isso. Ao contrário da mãe, que agüenta um casamento sem amor, a Lena arrisca o rompimento, mas ao mesmo tempo perde tudo.


E vem aquela coisa típica de mãe, do ‘eu te avisei’.


Sim. De certa forma, é como nós, o povo, que temos de nos rever. Não é só dizer que não deu certo e acabou. Dizem para a gente ‘não falei que a esquerda não daria certo?’ A Teresa projeta seu próprio questionamento na filha. Ela diz ‘casamento não se desfaz, se agüenta’. Ela sabe que isso não está certo, mas fez uma promessa diante de Deus. É como se ela dissesse para a filha ‘acerte, para eu enxergar que estou errada’. Não sei, esse é o ponto de vista da atriz que está fazendo uma personagem reacionária.


E como é fazer uma personagem assim, justamente você, que tem uma imagem tão ligada ao humor?


É que você é muito novinha. Eu já fiz muita coisa pesada. Com 14 anos já era considerada ‘a trágica brasileira’. O (crítico de teatro) Sábato Magaldi me chamou de ‘a trágica brasileira’. Fiz muitos dramas. Prefiro dizer as coisas de forma mais leve, mas é gostoso pesar a tinta. Acho que a Maria Adelaide resgata o drama nessa minissérie. E essa retomada do drama às últimas conseqüências é formidável. O brasileiro, agora, só quer rir. No teatro, é uma coisa… Se você não falar que sua peça é uma comédia, ninguém quer ir. Você tem de dizer que é uma ‘comédia dramática’. E para rever as esquerdas, por exemplo, nós temos de sofrer um pouco. O drama é necessário, você sofre para poder mudar. O grande acerto da minissérie é pesar mesmo. Hoje em dia ninguém mais tem coragem de fazer isso.’


 


Keila Jimenez


Record quer sambar


‘A Record resolveu tirar o time de campo na briga pelos direitos do futebol, mas está guardando forças para brigar pelo samba. Isso mesmo, a emissora do bispo Edir Macedo tem todo interesse em lutar no próximo ano pelos direitos de exibição dos desfiles das escolas de samba em São Paulo, no Rio, e pelo carnaval em Salvador.


A rede, que já tinha ensaiado uma proposta do tipo no ano passado, voltou a pensar no assunto, já que futebol, pelo menos por enquanto, está fora dos planos da Record.


Em nota oficial distribuída à imprensa na sexta-feira, a emissora disse que ‘declinou do convite’ da União dos Grandes Clubes Brasileiros para participar do processo para aquisição dos direitos de transmissão da Série A do Campeonato Brasileiro, em 2009, 2010 e 2011. Desistiu, mas não deixou de alfinetar a concorrência, é claro.


A Record alegou que o atual sistema de comercialização do campeonato é desleal, já que a atual detentora dos direitos de transmissão dos jogos, a Globo, tem o direito de preferência na disputa, o que ‘inviabiliza quaisquer emissoras a concorrer em condições de igualdade’.’


 


ARTE
O Estado de S. Paulo


Especialista identifica retrato raríssimo de Mozart


‘O professor britânico Cliff Eisen, especialista na vida de Wolfgang Amadeus Mozart, afirma ter identificado um retrato raríssimo do compositor erudito que pode valer milhões de dólares. Eisen disse que pôde constatar a autenticidade da tela – que mostra o perfil de um homem com casaco vermelho – comparando-a com registros de leilões, documentos de arquivo e uma carta que Mozart escreveu ao pai em 1782.


Segundo Eisen, o que o músico descreve na carta coincide com o quadro em detalhes. ‘Provavelmente este é o retrato mais importante de Mozart a ser descoberto desde sua morte em 1791’, disse ele em comunicado no site do King’s College, onde leciona música, em Londres. A tela provavelmente foi pintada por Joseph Hickel, pintor da corte imperial da Áustria, segundo o King’s. Posteriormente passou para a família de Johann Lorenz Hagenauer, amigo próximo dos Mozart. Em 2005, foi adquirida por um colecionador americano, que a princípio desconhecia sua importância.’


 


 


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