Quinta-feira, 04 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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IMPRENSA EM QUESTãO >

A nova geração de repórteres

Por Mauro Malin em 06/03/2012 na edição 684

Respeitável público, sobe à ribalta uma nova geração de bons repórteres. Geração novíssima, aqui representada por Paula Scarpin, da revista piauí, que se formou na USP em 2007. Ela é a autora da reportagem de capa da edição de fevereiro, “O médico (e o) político. Como pensa, vive, trabalha e articula Roberto Kalil Filho, o cardiologista do poder brasileiro”.

Nesse texto insubmisso, a repórter foge o tempo todo da indolente técnica do “declaratório”. Não transfere ao leitor tarefas que lhe cabem, como, acima de tudo, ter dúvidas a respeito de cada narrativa. Principalmente se o narrador é o principal interessado na publicação do relato, como ocorre na maioria dos casos.

Na entrevista abaixo há uma pergunta sobre como ela pôde, a respeito de uma festa a que dificilmente teria sido convidada, escrever:

“Os ministros Alexandre Padilha, da Saúde, e José Eduardo Cardozo, da Justiça, circulavam ao lado de José Serra. O repórter José Roberto Burnier, da TV Globo, cumprimentou alguns grão-petistas com um beijo no rosto. Estava ali como convidado.”

Fontes credíveis

A pergunta não foi feita por desconfiança. Foi para confirmar que Scarpin havia utilizado com segurança um recurso celebrizado por Joel Silveira na reportagem “A milésima segunda noite na Avenida Paulista”, de 1945. É o relato do suntuoso casamento de Filly Matarazzo, filha do conde Francisco Matarazzo Jr. – festa que durou uma semana, e na qual Silveira não pôde entrar, apesar de ter tentado insistentemente obter um convite. Ele fez suas as histórias que ouviu de um convidado.

Scarpin usou o artifício, que, para não ser uma contrafação, requer do jornalista a qualificação de suas fontes. Usou não apenas para dar “flagrantes” da festa oferecida pelo empresário José Seripieri Junior a Roberto Kalil Filho. Muita coisa mais, na reportagem de Scarpin, não foi testemunhada, nem poderia ter sido, mas chegou ao leitor. Chegou de forma clara, em bom português.

A mesma avaliação se aplica a textos anteriores da repórter: “Flor de plástico. O que aconteceu quando Jaguaribara foi inundada por um açude e deu origem à primeira cidade planejada do Ceará, com avenidas largas, casas e saneamento para todos” e "Nossos três russos. Há muitas explicações para o sucesso cada vez maior da literatura russa no Brasil. Uma delas é que Tolstói e Dostoiévski andam desembarcando no país sem fazer escalas por outros idiomas. Um fenômeno que deve ser atribuído a três pessoas".

São três reportagens que permitem dar aos leitores, condensando em Paula Scarpin qualidades de outros jovens chegados há pouco às redações, a notícia auspiciosa: existe uma safra recente de bons repórteres. Não perguntem por que, nem como. Não sei. Simplesmente existe. E isso faz diferença.

Menos pressa, mais qualidade

Você diria que não deixou sem checagem nada do que escreveu? Cada informação recebida foi verificada ou contrastada com informação diferente?

Paula Scarpin –Não sei se é possível dizer isso. Mas, sim, tenho o hábito de, sempre que possível, procurar outras fontes para uma mesma informação, até mesmo para enriquecer a história. No seu artigo no Observatório da Imprensa (“Repórter não é taquígrafo”), você destacou o trecho da reportagem sobre a declaração do Dr. Roberto Kalil Filho de que ele teria bolsa no Colégio Dante Alighieri, e que não tinha dinheiro para comprar um cachorro quente.

Quando eu entrevistei a mãe do cardiologista, dona Guiomar Kalil, pedi que ela comentasse a declaração, porque imaginei que ela poderia se lembrar de alguma boa história relacionada. Não perguntei com a intenção de checar a veracidade da história, mas ela acabou trazendo uma nova versão dos fatos.

[É este o trecho mencionado: “Segundo ele, seu gosto pelo cachorro-quente vinha dessa época. ‘Meus amigos todos compravam o sanduíche no recreio, mas, como eu não tinha dinheiro, era obrigado a comer o pão com manteiga que trazia de casa’. ‘Nem me fale dessa história do cachorro-quente!’, agitou-se Guiomar [mãe de Roberto Kalil] na sala. ‘Você está vendo esta casa? Ele cresceu aqui! Com piscina, quadra de tênis. Nós nunca tivemos menos de oito empregados.’Ao saber que o filho havia dito que precisou de bolsa de estudo no colégio, Guiomar desatou a rir: ‘Que filho da… Eu não sei por que ele faz isso’.”]

Isso seria um diferencial em relação às reportagens correntes na grande imprensa?

P.S. –Sim, tenho certeza de que ter o privilégio de poder dedicar meses à apuração de uma reportagem enriquece muito a qualidade do material. Se eu precisasse fazer o perfil do Dr. Kalil da noite para o dia, provavelmente me ateria a uma única entrevista com ele, e um ou outro complemento por telefone com outras fontes mais óbvias.

Foi difícil fazer a reportagem? De quanto tempo você dispôs para a tarefa? Com quantas pessoas, mais ou menos, conversou? Que tamanho tem a matéria?

P.S. –Não foi das mais difíceis que eu já fiz. Para mim, os perfis são menos complicados, porque têm uma linha condutora óbvia, que é a trajetória do perfilado. Na reportagem anterior, que eu fiz sobre a transposição da cidade de Jaguaribara, no Ceará, eu precisei ler dissertações, teses, aprender um pouco de engenharia, história. Numa outra reportagem, que fiz sobre os três maiores tradutores de russo do Brasil, precisei ler várias obras, analisar trechos, contrapor traduções anteriores.

No caso do perfil do Dr. Kalil, eu comecei a apuração em novembro, no dia da posse dele como professor titular da Faculdade de Medicina [da USP]. Mas desde aquela data, ele me disse que só poderia falar comigo em janeiro. Para garantir que a reportagem sairia em fevereiro (objetivo meu, não havia qualquer pressão da revista), eu adiantei a apuração conversando com vários médicos: o secretário Giovanni Guido Cerri, David Uip, Raul Cutait, Miguel Srougi, Jorge Kalil etc., visitei várias vezes o InCor e o Sírio-Libanês, estive também no Hospital Albert Einstein, conversei com pelo menos uma dezena de pessoas que me orientaram no sentido de entender o funcionamento das instituições e da trajetória do Dr. Kalil, mas preferiram falar em off. Em janeiro, quando ele topou falar, pedi acesso à sua esposa, suas filhas, seus pais, entrevistei seu tio Fulvio Pileggi, seus concorrentes no concurso do InCor Edimar Bocchi e Luiz Antonio Machado César. No fim, a apuração anterior a janeiro entrou muito pouco na reportagem, porque o material de janeiro foi mais rico. Mas sem dúvida eu não teria transitado com tanta facilidade sem as entrevistas que fiz entre novembro e dezembro.

Tive uma semana para redigir o texto, que originalmente tinha pouco mais de 40 mil toques. Com a edição, caiu para 35.794 – o que é um corte bem pequeno.

Após a publicação da matéria, houve alguma queixa, surgiu algum problema com alguma das pessoas citadas?

P.S. –Não, nenhuma das pessoas citadas entrou em contato comigo ou com a revista.

Você diria que sua reportagem contém material útil para a história e a crônica política?

P.S. –Não sei dizer. Acho que depende muito do uso que se pretende fazer dela. Pode ser uma tomada interessante do momento, sim.

Você foi à festa descrita na página 22?

P.S. –Eu estive apenas na cerimônia de posse na Faculdade de Medicina e no coquetel que aconteceu ali mesmo, em seguida. As informações sobre as festas eu consegui com pessoas que estiveram presentes.

Quais foram sua formação e sua trajetória profissional até aqui?

P.S. –Fiz jornalismo na USP, me formei em 2007. Comecei na piauí como estagiária, em março de 2007, e fui contratada logo que me formei, no final do ano. Fora os jornais-laboratório da USP, eu nunca havia trabalhado antes numa redação. Trabalhei, durante a faculdade, na ONG Repórter Brasil, de prevenção ao trabalho escravo, num curso de capacitação de professores e líderes comunitários sobre direitos trabalhistas, questão agrária etc.

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