Domingo, 31 de Maio de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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A morte de um gênio do humor

Por Francisco Fernandes Ladeira em 27/03/2012 na edição 687

A televisão brasileira está de luto. Na sexta-feira (23/03) faleceu, aos 80 anos, por falência múltipla de órgãos, Francisco Anysio de Oliveira Paula Filho, ou simplesmente Chico Anysio, um dos maiores humoristas de todos os tempos. Não se trata de exagero, tampouco de uma hipócrita homenagem póstuma, mas Chico Anysio foi, tranquilamente, um dos principais nomes do humor mundial. Numa época em que os programas humorísticos não precisavem ser apelativos, ou passar pelo crivo do “policamente correto”, Chico apresentou, durante mais de meio século de carreira, inúmeros quadros e personagens que marcaram peremptoriamente a história da televisão brasileira.

A principal característica da obra de Chico Anysio foi a grande variedade de tipos interpretados (ao todo, foram mais de duzentos, todos criados pelo próprio humorista). Chico podia representar, com a mesma genialidade e perspicácia, um político corrupto (Justo Veríssímo, “eu quero que pobre se exploda”), um jovem alienado (o personagem Jovem, “pô mãe, jovem é outro papo”, “vai ficar com cara de bundão”), um “craque” do futebol (Coalhda), um vampiro medroso (Bento Carneiro, o vampiro brasileiro), um ator canastrão (Alberto Roberto e o seu bordão “não garavo!”), um malandro inveterado (Azambuja,“tô contigo e não abro!”), um bont vivant etilista (Tavares) e um dedicado professor (o famoso Professor Raimundo, “e o salário, ó!”).

Os mais chatos e puritanos vão acusar o comediante cearense (nascido em Maranguape) de homofóbico. Porém, não há como deixar de destacar os seus personagens gays. É difícil não lembrar do Doutor Rosseti ou de Haroldo,O Hetero, homossexuais que tentavam, a todo custo, escamotear suas opções sexuais. Outro personagem clássico, nessa mesma linha, foi Painho, babaorixá baiano que vivia rodeado por mancebos. Ainda em relação àBahia, durante a década de 1970, no trio Baiano e Novos Caetanos, Chico (acompanhado de Arnaud Rodrigues e Renato Piau)fez uma interessante sátira das músicas de Caetano Veloso e do grupo Novos Baianos.

Perda irreparável

Outro personagem histórico do humorista foi o machista Nazareno, que dizia o famoso bordão “ca-la-da”. Nazareno era casado com uma mulher extreamante feia (“isso não é mulher, é um tomate com agrotóxico”) e vivia paquerendo a bela empregada doméstica (interpretada nos anos 1980 por Monique Evans). Chico Anysio foi também um visionário. Através do personagem Tim Tones, o comediante satirizava, décadas antes dos pastores midiáticos invadirem as telas da TV, os pseudo-missionários que enriquecem às custas da fé alheia. Em um programa, Tim Tones recebeu um “telefonema” do Todo Poderoso que falava sobre a necessidade dos fieis doarem dinheiro para a igreja. O motivo: precisava consertar o ar condicionado do céu.

Evidentemente, pode-se questionar o cidadão Francisco Anysio de Oliveira Paula e suas várias polêmicas. Entretanto, cabe analisarmos a qualidade do trabalho de um artista, e não aspectos da sua vida pessoal. Em uma época marcado pelo baixo nível dos programas humorísticos, é sempre bom relembrar o legado de mestres como Chico Anysio. Sem dúvida, uma perda irreparável.

***

[Francisco Fernandes Ladeira é professor, especialista em Ciências Humanas, Brasil: Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e professor de História e Geografia em Barbacena, MG]

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