Segunda-feira, 13 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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IMPRENSA EM QUESTãO >

Estética de inspiração e a infantilização

Por Ivo Lucchesi em 01/06/2010 na edição 592

O tema das reformas nos ‘grandes’ jornais do país já foi objeto de alguns artigos na edição anterior do OI. Se ao mesmo tema recorro, é por considerar que o presente escrito pretende pôr em questão aspectos que, em outros artigos, ficaram em aberto.

O foco central aqui diz respeito à supressão do caderno ‘Mais!’ que acompanhava a edição dominical da Folha de S.Paulo, em favor do que veio a substituí-lo: ‘Ilustríssima’. Em tese, a vanguarda é sempre indispensável. Ela evita a fossilização da tradição. O problema qual é? Apresentar-se como ‘vanguarda’ o que não passa de ‘retaguarda’ (ou melhor, retrocesso). A primeira perda se materializa no título: trocou-se uma estética de inspiração colhida na poesia concreta por coisa nenhuma. O título (Ilustríssima) já indicia uma identificação com o que há de mais frívolo, próprio de um estado de encantamento infantil. É óbvio deduzir o que o gerou.

Como já havia o caderno diário ‘Ilustrada’, direcionado a variedades supostamente culturais, os ‘cérebros criativos’ aproveitaram o sentido original de ‘+’ e transferiram para a forma superlativa do título diário, resultando na ‘maravilhosa decadência’. Esse tipo de codificação é próprio de ‘mentes moderninhas’, oriundas de um modelo no qual o binômio jornalismo/publicidade foi transformado em parceria.

‘Triunfo da efusividade retardada’

Quem atua no campo da formação universitária em Comunicação sabe que a maioria de jovens para a habilitação de Jornalismo porta um imaginário adolescente e a maioria de jovens para a publicidade traz um imaginário infantil. A propósito, basta verificar a primeira página da mais recente edição (30/05/10): pura ‘infantilização’.

Em tempo: quero deixar claro que o jovem deve ser capturado para a vida ativa e produtiva. Ele detém, concentradamente, a melhor das energias vitais. O problema, porém, passa por outro viés: hoje, o jovem é recrutado para substituir, e não para aprender com os mais experientes e conhecedores. Os ‘senhores poderosos’ alteraram a fórmula com o único propósito de minimizarem custos e maximizarem lucros. Outro agravante a esse quadro degenerado se somou: o jovem atual, ao ocupar o espaço, não vem para preparar o futuro. Ele vem para entronizar o passado. Na prática, isso quer dizer: o jovem do presente traz a memória infantil com a qual pretende construir (ou perpetuar) o futuro.

Há muito, neste país, se sabe que ‘cultura’ (além de confundir-se com folclore e entretenimento) quer dizer ‘conjunto de variedades’. No Brasil da idolatria esportiva e da excitação festeira, não há lugar para crítica e reflexão. Quem, neste país, assumir uma das duas faces será, de maneira inapelável, varrido pelo ‘coro-arrastão’ da mediocridade. Vivemos a época do ‘triunfo da efusividade retardada’ (ou do ‘templo da alegria desesperada’).

A esquizofrenia majoritária

Ao longo dos anos 1980, como desdobramento do que, antes, fora plantado como ‘paradigma da ditadura’, a ‘estética xuxesca’, variante da deformada ‘miss’ Barbie, disseminou potente e indestrutível bactéria. Resultado: ampla maioria foi infectada. De lá para cá, a ‘espiral ensandecida’ não parou mais. Deixemos claro um ponto, principalmente, em ano de eleições majoritárias: a deformação cultural brasileira não tem nenhuma relação com governantes. Esteja, na presidência, um intelectual; esteja nela um egresso do operariado, em nada, a diferença de perfil e de performance acarretará. Movemo-nos, há décadas, por mecanismos autônomos e automaticamente serializados.

A voz crítica foi banida por falta de ouvidos para escutarem-na. A reflexão foi encarcerada por ausência de cérebros para elaborarem-na. Aliás, um certo poeta, Charles Baudelaire, em 1851, já alertava: ‘A ruína universal, contudo (ou o progresso universal: pouco me importa o nome que tenha), não se manifestará nas instituições políticas e sim no aviltamento das almas.’ Baudelaire não precisaria esperar pelos ‘fenômenos’ Xuxa e Barbie’ (e demais sucedâneos), para antever a derrocada do mérito, a invalidez do saber e a inutilidade do aprimoramento científico e humanista.

Em meio à ‘esquizofrenia cultural’ na qual estamos imersos, o segundo número de ‘Ilustríssima’ inclui, como destaque, a seguinte matéria: ‘Ando meio hiperativo: o transtorno de déficit de atenção’. Indo à matéria, assinada por Marcelo Leite e Cláudia Collucci, encontramos seguinte título: ‘A era da desatenção: somos todos hiperativos?’ Ao longo da exposição, surgem 18 sintomas degenerativos com os quais os mais jovens convivem, diariamente, em escolas e universidades, em conseqüência do consumo progressivo da modalidade audiovisual. Há muito, portanto, sobre esse problema, se sabe. Eu mesmo, neste Observatório, já escrevi vários artigos a respeito do tema. No entanto, o órgão de divulgação a publicar a matéria é o mesmo que, esteticamente, promoveu mudanças à imagem e semelhança daquilo que, supostamente, na matéria, inseriu como crítica. Suportaremos a esquizofrenia majoritária por quanto tempo?

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Ensaísta, articulista, doutor em Teoria Literária pela UFRJ, professor titular de Linguagem Impressa e Audiovisual da Facha (RJ)

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