Sábado, 06 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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ENTRE ASPAS >

Imprensa esportiva bate um bolão

Por Lilia Diniz em 24/02/2011 na edição 630





Uma das potências mundiais no esporte, a Espanha acumula alguns dos títulos mais importantes dos últimos anos. Venceu Copa do Mundo de 2010, emplacou o tenista número 1 do mundo, Rafael Nadal, ganhou a Volta da França três vezes consecutivas com o ciclista Alberto Contador e apresenta bom desempenho no basquete masculino e na Fórmula 1. O último episódio da série do Observatório da Imprensa gravada na Espanha, exibido na terça-feira (22/2) pela TV Brasil, revelou os bastidores da imprensa esportiva naquele país.

Na abertura do programa, Alberto Dines destacou que a paixão dos espanhóis por esporte não se restringe ao futebol, abrange diversas modalidades nas quais o país tem alcançado vitórias espetaculares. ‘Atrás disso tem, evidentemente, uma imprensa esportiva muito rica, diversificada e inteligente’, disse.


Na avaliação do diretor-adjunto do diário esportivo Marca, Miguel Angel Turci Domingo, a Espanha sempre esteve ‘imaginando’ a boa fase atual. ‘Quando você imagina algo, é porque quer consegui-lo. Pouco a pouco a gente foi, com muito brio, dizendo ‘eu vou conseguir’. Antes, há alguns anos, tínhamos personagens solitários, como Seve Ballesteros, que foi um boom no golfe. Mas não deixavam de ser casos isolados, como Ángel Nieto, no motociclismo. Mas agora estamos vendo que é um fenômeno social. Há muitíssimos bons jogadores em muitos esportes e isso é uma atitude social, e é uma atitude social incrível, não? Por isso agora estamos na idade de ouro do esporte espanhol, ao qual tanto fazemos refêrencia nas capas do Marca, inclusive colocando isso logomarca’, disse o jornalista.


O esporte na Espanha ganhou maior importância com os Jogos Olímpicos de 1992, realizados em Barcelona, que foi é um dos ícones da redemocratização do país . ‘O Estado fez um grande investimento em bons técnicos estrangeiros, em todos os esportes, e a Espanha acabou se entusiasmando porque ganhou 22 medalhas. A ‘homologação’ da nova Espanha veio com o esporte. Quando a Espanha se mostrou ao mundo com sua nova cara foi através do esporte, e isso traz prestígio’, analisou Alfredo Relaño Estapé, diretor do jornal esportivo ÁS. Com o bom desempenho nas Olimpíadas, as prefeituras construíram diversas instalações esportivas para compensar o déficit de décadas de pouco investimento em infraestrutura.


Os donos das manchetes


Para Estapé, mesmo com títulos conquistados em diversas modalidades, a imprensa esportiva espanhola concentra sua atenção nos dois times principais. ‘Dos quatro jornais esportivos importantes da Espanha, dois são de Madrid e dois são de Barcelona. Dos 360 dias, em 330 a capa é algo que tem a ver com o Real Madrid ou com o Barcelona. Se pode ser com ambos relacionados, melhor ainda. Os demais [esportes] aparecem na capa, mas muito excepcionalmente’, disse. De seu lado, Miguel Angel Turci Domingo explicou que o Marca é identificado como um jornal esportivo no qual se dá ênfase ao Real Madrid, mas é um diário ‘poliesportivo’. ‘Essa é a nossa força. Talvez os jornais da concorrência sejam mais do Real Madrid do que nós. Nós cobrimos muita informação do Real Madrid porque estamos em Madri, é um jornal de Madri, mas é um jornal nacional, e o Real Madrid é um time nacional’, afirmou.


Dines comentou que a polarização entre os grandes times tem implicações políticas e perguntou como essa questão se reflete no trabalho da imprensa. ‘O Real Madrid representa uma forma de ver a Espanha e o Barcelona representa outra forma de ver a Espanha. Como é um problema que a Espanha não resolve desde o século 19, então o deslocamos aos campos de futebol. Isso produziu algumas ‘guerras civis’ e chegou aos gramados. Dizia Ramón Mendoza, um presidente do Real Madrid, que o futebol é o prosseguimento da guerra por outros meios’, contou Estapé. O jornalista disse que houve um período em que a imprensa de Madri chegou a buscar a neutralidade: ‘Se sentia obrigada, como capital. No resto da Espanha não era assim, e em Barcelona eram os mais radicais, mais nacionalistas e mais ‘barcelonistas’. Agora, também a perspectiva da imprensa de Madri é ‘madridista’, em geral. O Marca é assim, abertamente’, disse.


O grupo Marca atua em três plataformas: no papel, há 70 anos, no rádio há dez e recentemente em um canal de TV, que veicula notícias esportivas 24 horas por dia. ‘É uma grande cadeia de televisão com 24 horas de informação esportiva. Estes são os três alicerces principais de como está estruturado o nosso grupo. Temos a web, que é sem dúvida a número 1 em espanhol, e revistas especializadas em diferentes esportes: golfe, montanhismo, ciclismo. São publicações mensais, mas contribuem e nos ajudam na difusão e nos recursos, naturalmente, porque isto é um negócio, não esqueçamos’, disse Francisco Justicia, diretor do Marca. O Às também lançou um canal de TV, inicialmente para assinantes, que hoje pode ser assistido na TV aberta.


Menos leitores?


‘O Marca é lido, basicamente, por uma classe média e média-baixa. A imensa maioria. O jornal tem uma virtude: é um formador de opinião no mundo do esporte e, portanto, toda pessoa que se dedica ao esporte na Espanha lê o Marca como primeira opção, porque é o jornal que dá mais informações, o jornal que dá mais exclusivas, o jornal que tem que ser lido. É imprescindível lê-lo para ter uma verdadeira noção e juízo do que acontece. Mas é verdade que dessas 350 mil cópias, aproximadamente, que se vendem a cada dia, 90% são de uma camada social média, média-baixa, que é quem lê os diários esportivos. Evidentemente, na Espanha existe uma classe média muito mais ampla do que provavelmente em outros países’, explicou o diretor do Marca. Já o canal de TV é voltado especificamente para os jovens, com um formato ágil e interativo.


Há um crescimento dos acessos aos sites esportivos e dos investimentos publicitários na internet, enquanto a circulação dos jornais impressos diminui lentamente. ‘Há uma queda sutil do jornal em papel. Ainda é um negócio muito mais rentável do que a internet, mas [o declínio de vendas] está sendo notado’, disse Alfredo Relaño Estapé. Para o diretor-adjunto do Marca, a imprensa escrita ainda tem fôlego: ‘Não acho que seja uma coisa tão drástica que a web acabe com o papel porque dentro do esporte há muitos nichos que sempre encontrarão no papel um bom refúgio para sua informação. A web consome tudo, mas também a web tem que ir variando, sobretudo o vídeo. Então, sempre encontraremos uma boa informação para ser lida no papel. E teremos uma boa informação visual nestes novos formatos que estão chegando, como o iPad, como todos estes novos tablets que vão existir, que vão revolucionar a forma de ler, mas não a forma de fazer a informação. Vamos continuar fazendo a informação, como a estamos fazendo até agora’, avaliou o jornalista.


Diego Aledo Gonzalez, repórter do site Marca.com, destacou que com a crise econômica muitos leitores deixaram de comprar o jornal impresso e migraram para a informação na internet. ‘Isso requer um maior desafio em tentar ser o primeiro a informar. Se as pessoas querem se informar sobre algo, sobre uma notícia que acaba de acontecer agora, o que você procura é instantaneidade, e essa informação num instante tem que estar disponível e publicada. Isso significa que o Marca tem que ter um jornalista lá onde está a notícia. Isso é muito difícil. Poucos meios podem ter uma pessoa em cada lugar onde está acontecendo algo’, disse.


Para garantir a agilidade, o Marca conta com uma rede de correspondentes em locais como Milão e Berlim. Diego contou que a crise financeira causou reflexos na rotina dos jornalistas. Com a redução dos quadros das redações, o profissional precisa se redobrar e atender às demandas do impresso, da rádio, televisão e internet.


Imediatismo vs. análise


Dines levantou a questão da diferença entre o jornalismo impresso e na internet. Para Miguel Angel Turci Domingo, o jornal em papel tem a missão de ser mais analítico. ‘O problema da web, problema entre aspas, é que você tem que servir com imediatismo, e o imediatismo não permite tanta análise. Evidentemente, a web é grátis, todo mundo acessa a web, mas se você quer cobrar por um jornal, tem que acrescentar um valor que não está na web. Nós fazemos isso muito bem: sabemos separar as partes’, explicou o diretor-adjunto. O leitor deve perceber que, quando compra o jornal, irá encontrar um conteúdo exclusivo que não disponível na web. A internet, na avaliação de Turci, funciona como um dispersador de notícias, onde primam o imediatismo, a rapidez e o visual.


Em 1999, o Real Madrid lançou o seu canal de televisão. A emissora, que fica no ar 24 horas por dia, tem versões em espanhol e inglês e transmite sua programação para outros países. ‘Eu acho que é a única televisão que tem um programa de 40 minutos aproximadamente exclusivo sobre basquete. Há programas de basquete em outras redes, mas são muito breves, não se dá tanta cobertura a ele quanto aqui’, comentou Nacho Garcia, apresentador do canal. Garcia explicou que o foco do canal é o Real Madrid, mas os outros times também têm espaço na programação. ‘Pode-se falar de muitas coisas, não somente do dia-a-dia do time em relação a resultados e rendimento das partidas, mas também se conhecem detalhes e curiosidades dos jogadores, entrevistas exclusivas, deslocamentos que fazemos com eles nas viagens pela Europa, pela Euroliga, e conhecê-los um pouquinho mais de perto’, explicou.


A proximidade do jornalista com o time pode gerar conflitos éticos, mas os profissionais do canal garantem que os limites são respeitados como nos outros órgãos de imprensa. ‘De nós também não se exige uma objetividade como dos demais meios. Nós, no final das contas, usamos o escudo do Real Madrid no nosso microfone, o que representa, de alguma forma, a voz do clube, com o qual não temos que ser objetivos. E é verdade que procuramos não cair no fanatismo e converter-nos em fãs desaforados’, assegurou a repórter Rocio Martinez. Outro ponto discutido foi a cobertura que a TV dedica a possíveis crises internas. Para Célia Ramírez, chefe de Redação do canal, as crises, na maioria das vezes, são ‘vendidas’ pela imprensa e ‘vêm de fora’ dos clubes.

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