Quarta-feira, 08 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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ENTRE ASPAS >

Mauro Santayana

04/11/2005 na edição 353

‘No passado, quando os homens tinham mais caráter, ou eram menos civilizados, as questões de honra se resolviam a bala. Os Estados Unidos foram chocados, logo no início de sua independência, por um duelo famoso, entre o vice-presidente Aaron Burr e Alexander Hamilton, um dos mais brilhantes conservadores americanos e redator, com James Madison e John Jay, dos textos do The Federalist Papers, a mais importante antologia de ensaios da fundação da República.


Burr e Hamilton eram inimigos políticos, e Hamilton nunca deixou de fustigar o adversário. Nas eleições presidenciais de 1800, Aaron Burr empatou com Jefferson, e o Congresso decidiu em favor de Jefferson. Ainda que Jefferson fosse a maior figura do país que nascia, depois de Washington, Burr era homem com imenso prestígio popular. Hamilton fez de tudo para influir contra Burr, que foi eleito, também pelo Congresso, para a Vice-Presidência. Considerando-se injuriado e caluniado pelas referências de Hamilton, Burr desafiou-o para um duelo. Hamilton, que já havia perdido um filho em circunstância idêntica, não queria o encontro fatal, mas se sentiu obrigado, pela honra, a aceitar o desafio. Burr matou Hamilton, e a consciência política dos Estados Unidos condenou Burr ao ostracismo. O espaço não dá para comentar o caráter de ambos, mas os interessados podem ler a excelente biografia de Burr escrita por Gore Vidal.


No auge de seu combate encarniçado a Vargas, Carlos Lacerda escolheu Danton Coelho como um de seus alvos prediletos. Usando a técnica de mais insinuar do que provar, Lacerda fustigou Danton o quanto pôde. Danton escreveu-lhe uma carta famosa, que foi distribuída em todas as redações, mas que os padrões jornalísticos da época recomendavam não publicar. Nela, Danton dizia, com a linguagem chula e o insulto vulgar, o que de pior um homem pode dizer de outro homem, referindo-se à família do adversário e a seu próprio comportamento. E completava, mais ou menos assim (reproduzo de memória): ‘Carlos, se te faço tais acusações, que nenhum homem de brio só pode responder a bala, é para que te disponhas a encontrar-me, armado, onde e quando quiseres, para resolvermos logo esse assunto’. Lacerda, cuja bravura era mais cívica do que física, segundo a opinião do deputado Tenório Cavalcanti, respondeu a Danton, dizendo que sim, o encontraria, mas com ambos desarmados, e que a ‘arma seria o bom e leal bofetão’. Danton deu-se por satisfeito: quem fala em bofetão, a um gaúcho acostumado às refregas dos pampas, não merece respeito. Danton pensava em bala ou, eventualmente, no punhal e na adaga. Não estava disposto a usar os punhos, coisa de arruaceiros ou boxeadores.


De repente, o senador Artur Virgílio e o deputado Antonio Carlos Magalhães Neto ameaçaram ‘dar uma coça’ no presidente da República. De forma talvez poética, também a senadora Heloísa Helena fez a mesma ameaça. A senadora alagoana é uma brava e respeitável mulher, mas é difícil imaginá-la, em sua fragilidade, dando uma ‘coça’ em alguém. Com todo o respeito pelos valentes parlamentares, trata-se de uma tirada infeliz. O senador amazonense é um homem bem educado, ilustrado, um dos quadros mais bem preparados do Congresso, mas talvez esteja escorregando em seu próprio êxito. Ele, naturalmente, está agora avaliando a repercussão de seu descuido oratório, e é provável que se deixe acolher pelo sábio silêncio, não tocando mais no assunto. Quanto ao jovem deputado Antonio Carlos Magalhães Neto, é de se debitar à impetuosa juventude, amparada na genética, a ameaça ao presidente.


O fato é que estamos voltando aos piores tempos da política. O Parlamento já foi – e mais de uma vez – cenário de tiroteios e mortes. Mas nunca soubemos que algum parlamentar haja ameaçado ‘surrar’ o chefe do Poder Executivo. Pelo que sabemos, Lula não dirigiu a nenhum deles o tipo de insulto que Danton dirigiu a Lacerda (em resposta a outros insultos).


O que lhes está incomodando é outra coisa: é o esvaziamento das CPIs (o que seria um dano ao País) e a possibilidade, crescente, de que o presidente possa superar a crise e ir para as eleições com grande chance de vencê-las.’



OURO DE CUBA


Carlos Heitor Cony


O ouro de Cuba que não é charuto ‘, copyright Folha de S. Paulo, 4/11/05


‘Juravam e ameaçavam provas: Leonel Brizola, tido e havido como o principal interessado no movimento armado para acabar com o regime militar, havia recebido US$ 70 mil do governo cubano para comprar armas e criar focos guerrilheiros em todo o país. A quantia variava de acordo com o informante e o auditório: US$ 70 mil, US$ 200 mil, chegaram até aos US$ 500 mil. Não sou entendido em correção cambial, mas devia dar ‘alguma coisa’ (como dizem os economistas) em torno de US$ 1 milhão.


Tirante o caso de Judas, que traiu o Mestre por 30 dinheiros -e até hoje não se questionou o preço daquele beijo no Jardim das Oliveiras-, todos os casos que envolvem propinas são elásticos quanto às quantias do suborno. Recentemente, o empresário que acusou Severino mostrou uma conta bancária onde havia a saída de R$ 40 mil para o ex-presidente da Câmara renovar o contrato dos restaurantes do Congresso. A prova que derrubou Severino foi um cheque de R$ 7 mil e pouco: dava no mesmo. Se Judas tivesse recebido 29 moedas em vez de 30, também dava no mesmo.


No caso que envolve a doação de dólares para a campanha do PT, a denunciante joga com duas quantias: US$ 3 milhões numa versão, menos da metade disso em outra versão. Fosse apenas um mísero dólar, também dava no mesmo. Investigado por quem de direito -e não por jornalistas interessados-, seria motivo para o cancelamento do registro partidário dos petistas e de um processo de impeachment contra Lula.


Melhor: os cubanos teriam, afinal, um excelente motivo para se livrarem de Fidel Castro pela asneira cometida, gastando o suado dinheiro de uma ilha bloqueada há décadas com um aliado sem credibilidade que, uma vez no poder, esqueceu a justiça social, as reformas prometidas e passou a defender o capital internacional, o mesmo capital que isolou Cuba.


No caso de Brizola, o ouro de Cuba não foi o bastante para derrubar a ditadura e instalar um regime de justiça social e uma democracia progressista -por mais que pareça incrível, há um tipo de democracia reacionária. No caso do PT, o dinheiro não deu nem para a saída. O primeiro programa social de Lula, o mais demagógico de todos, foi o Fome Zero, que arrecadou até mesmo o colar de uma modelo das passarelas e ficou representando um dos mais fracassados esquemas de assistencialismo da história universal.


Fico imaginando o comandante Fidel Castro coçando suas barbas, hoje grisalhas, e meditando na besteira que fez, mandando dinheiro para um governo que se iniciava com um programa tão absurdo e contrário às suas idéias.


Financiando um partido amigo que ameaçava lutar contra a exploração do capital internacional, Cuba deu um tiro no próprio pé: nunca um partido amigo foi tão amigo do imperialismo que explora os povos oprimidos, mantendo-os na escravidão da ignorância e do subdesenvolvimento.


Na mesma semana em que foi publicada a matéria mais furada da história de nossa imprensa, foram divulgados os superávits que superaram todos os demais na ânsia de pagar os juros de uma dívida que o Brasil já pagou uma centena de vezes. Juros que foram e continuam sendo pagos à custa de cortes nas verbas da saúde, educação e segurança. Chegamos ao final do ano e, pelo que se sabe por aí, a média de recursos liberados ficou em torno de 20% a 25%. A economia resultante, além de deixar escolas, hospitais e estradas em petição de miséria e a vida dos cidadãos em risco, vai justamente (ou injustamente) engordar as burras dos mesmos tubarões que cercam a ilha do Caribe por ser mais próxima e a antiga ilha de Vera Cruz por ser mais distante e comprida.


O disparate, por mais disparatado que seja, deverá ser investigado como outros o foram no passado: a ajuda de Perón a João Goulart para implantar uma ditadura populista, acusação que produziu até mesmo uma carta (Carta Brandi) que desmoralizou a direita, na época liderada por Carlos Lacerda; os dólares que Brizola teria arrancado de Cuba, onde teria conquistado o apelido de ‘El ratón’, porque não conseguiu derrubar o regime militar; o dossiê Cayman, que fez esquecer os muitos e graves escândalos do governo anterior, o mais grave deles no episódio da emenda que possibilitou a reeleição de FHC.


Faz tempo, fui preso e respondi a um IPM por causa de uma palestra que fiz, em cima de uma mesa de pingue-pongue, na Universidade de Brasília (há uma foto de primeira página num jornal da época). Semanas antes, em companhia do editor Ênio Silveira e do poeta Moacyr Félix, morto na semana passada, fui à casa do embaixador da Tcheco-Eslováquia, na rua Prudente de Morais, em Ipanema, levar a escassa solidariedade de nós três ao povo tcheco, que estava sendo estuprado pela forças do Pacto de Varsóvia que haviam invadido Praga e deposto o presidente Dubcek.


Fui oficialmente acusado de ter recebido dinheiro da Tcheco-Eslováquia para subir na mesa de pingue-pongue e criticar o regime aqui instalado. Este emocionante episódio está contado em detalhes no relatório da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) aos interessados em conhecer o grau de minha corrupção.’



CAETANO & MÍDIA


Alvaro Costa e Silva e Rodrigo de Almeida


‘As garras de Caetano ‘, copyright Jornal do Brasil, 4/11/05


‘O Caetano Veloso escritor – que está lançando O mundo não é chato, coletânea de textos que a Companhia das Letras manda hoje para as livrarias – é o polêmico falante de sempre. Com garras de tigresa mais que afiadas, orgulha-se de poder dizer e escrever o que pensa sem dar satisfação a ninguém. ‘Sou uma espécie de caricatura de intelectual’, diz o cantor e compositor baiano de 63 anos. No livro organizado pelo poeta Eucanaã Ferraz, trata do Brasil, de música e de discos, de cinema, teatro, literatura, e de sua vida fora do país, entre outros temas. Na entrevista abaixo, Caetano vai além: fala do presidente Lula, de Carmen Miranda, do escritor cubano Cabrera Infante, do seu filme ‘injustiçado’ O cinema falado, filmado em 1986 e lançado em 2004. Além de tudo, bate duro na imprensa e, em especial, na chamada patota do Pasquim, jornal no qual ele escreveu inúmeros artigos que estão no novo livro.


Chama a atenção o tema ‘Brasil’ aparecer em primeiro lugar na organização do livro. Revela a maneira como você se destaca, ou procura se destacar, na vida pública. Há reflexões densas sobre o país, não só pelas referências de autores, mas pela tentativa de elaboração teórica. É uma posição deliberada?


– Considero essas manifestações mais teóricas – que foram descritas por você de uma maneira um tanto quanto hiperbólicas (ri) – como uma espécie de efeito colateral da minha profissão artística, que, por sua vez, é uma profissão da área do entretenimento. O que você disse talvez esteja certo, mas também faço uma autocaracterização num dos artigos. Refiro-me ao fato de que sou uma espécie de caricatura de intelectual. Eu digo que nunca houve no Brasil alguém tão popular com tanta pinta de intelectual. Isso foi o que sempre definiu minha posição na vida pública. Um trabalho sério, de alguém que se preparou para fazer ensaios sobre a realidade brasileira, sobre as nossas possibilidades históricas, não é uma coisa totalmente ao meu alcance.


Mas há um texto originado de uma conferência no MAM (Museu de Arte Moderna), que é uma tentativa clara de elaboração teórica sobre o país.


– Escrevi aquilo para nunca ser lido, mas para falar na hora uma série de coisas que, ao serem ouvidas, pudessem ficar na cabeça das pessoas. Sou um artista popular. Entendo que, de fato, há também um gosto intelectual desde garoto. Meus artigos com 18, 20 anos, são muito reflexivos, apresentam certa densidade e uma ambição natural de querer pensar, embora sem me preparar e ter muitos instrumentos à mão. Sou temerário quanto a me dispor a elaborar pensamentos sem estar tão bem municiado, embora leia, mas muito desorganizadamente, ao sabor do acaso.


Há uma crença subjetiva no Brasil, na elaboração teórica. Refere-se a um pessimismo profundo, mas seus textos são otimistas.


– Essa crença não é necessariamente otimista. Além disso, não há uma constância em minha crença no Brasil. Mas há uma considerável resistência dessa vontade. Outro ponto é que, quando digo ‘eu quero’, não é tão pessoal, embora eu também queira. É como se fosse um convite aos outros brasileiros para saberem que temos uma série de elementos para apresentar ao mundo, uma hipótese social original na prática. Não é uma questão de otimismo, mas de reconhecimento e de constatação da nossa oportunidade. Somos um país de dimensões continentais, no Hemisfério Sul, na América, no Terceiro Mundo, altamente miscigenado e que fala português. São muitas características que formam uma obrigação de originalidade que temos de exercer. A minha proposição, o ‘eu quero’, é que façamos dessa originalidade um gesto de sujeito e não apenas exibição de objeto.


O risco é cair na desesperança, não? Vivemos sempre sob a premissa de sermos ‘o país do futuro’, que nunca se concretiza.


– O livro do Stefan Zweig (Brasil, país do futuro, de 1941) é um desses momentos em que o mundo diz, com clareza, que percebe a originalidade do Brasil. Engraçado falarmos sobre isso. Anteontem, vi aquele filme, Copacabana, com a Carmen Miranda e o Groucho Marx. Fiquei de madrugada vendo e muitas coisas vieram à cabeça. Tem uma hora em que um americano babaca canta, rimando bolero com Rio de Janeiro. É muito engraçado, mas provoca na gente um misto de vergonha e orgulho de que falo num artigo do livro. Me lembra o Cabrera Infante (escritor cubano, morto este ano). Em Três tristes tigres, ele fala de uma coisa que, para os cubanos, era um sonho da coisa maravilhosa, uma noite no Cassino da Urca com a Carmen Miranda se apresentando. E, no entanto, tanto o Brasil quanto Cuba chegaram a ter vergonha da Carmen Miranda. E com razão, embora todos possamos nos orgulhar dela.


Você nunca pensou em fazer algo em prosa parecido com o que o Cabrera Infante fez?


– A vontade que eu tive foi fazer o filme inspirado naquela estrutura de pessoas falando. Cada capítulo é uma pessoa falando um negócio longo. Há sessões de psicanálise, uns literatos com uma falação meio retórica, umas menininhas embaixo do caminhão falando sacanagens, cada um tem um jeito de falar, e ele parodia. O que é parodiado no filme O cinema falado é, sobretudo, um filme chamado O desafio (de 1965), de Paulo César Saraceni. É um filme interessantíssimo e esquecido. Mas é muito ridículo porque as pessoas falam coisas teóricas. Terra em transe também é assim. É como se fosse O desafio salvo pela genialidade do Glauber. Minha idéia em O cinema falado era fazer um filme como o Cabrera Infante, pegando essa coisa bem ridícula do Desafio.


E foi aí que o filme chocou.


– Foi. Mas o pessoal do cinema não desgostou muito do filme. Por uma razão muito simples. Os críticos gostam e conhecem cinema.


E onde houve a resistência?


– Por exemplo, na Folha de S. Paulo, o crítico gostou do filme. Mas o editor-chefe não gostou e não o deixou escrever. E escreveu uma crítica horrorosa. Ele e algumas pessoas que faziam filme atacaram. Arthur Omar, que fazia uns filmes experimentais, gritou, xingou, fez o diabo durante a projeção. E umas três mulheres foram convidadas pela Folha para falar mal de mim. Ninguém se dispôs, mas essas três mulheres se dispuseram. Acho que era porque eram mulheres (ri).


Como assim?


– Um dia te explico (ri). As três miseráveis aceitaram falar mal do filme, confessando, vejam só, que não tinham visto o filme e nem queriam ver. E eles deram primeira página. Um horror. Tipo ‘cada macaco no seu galho’, ‘Caetano é um urubu das vanguardas’. Mas o que posso fazer? São mulheres, coitadas (ri). Só estou fazendo um número engraçado, porque sou feminista desde criança (ri).


E o que as mulheres dizem quando você faz essa ‘homenagem’? Algumas costumam cair na brincadeira e reagem?


– Essas são as melhores (ri).


Você falou em jornalistas. Como você avalia a imprensa? A crítica cultural é falha? Há muita mediocridade?


– Acho que melhorou um pouco. A primeira página dos segundos cadernos não estão mais tão iguais quanto estavam. Não que tenha melhorado tanto, mas mudou um pouquinho. Tudo muito resumido e igual. Falta um pouco de densidade. E é um pouquinho como orientação ao consumidor. Vale a pena você gastar seu dinheiro e comprar esse disco. Muito superficial.


Sempre quis que Lula saísse’


Há no livro artigos publicados no Pasquim, que o criticou muito.


– Achei que houve uma coisa superficial no fato de terem mantido uma imagem de aprovação a qualquer coisa que tivéssemos feito no exílio, e tão logo voltamos eles relaxaram e passaram a nos criticar. Tanto é que depois o Jaguar foi a minha casa na Bahia, onde eu morava com Dedé, e me pediu desculpas. Disse que tudo aquilo tinha sido coisa do Millôr. O fato é que o Millôr, depois de ter saído do Pasquim, escreveu um negócio desrespeitoso ao meu nome e ao da Dedé. E o Paulo Francis fez uma ironia com um episódio ocorrido na prisão. Ele me pediu notícia do Ênio Silveira (editor da Civilização Brasileira). Eu respondi brevemente, com uma ênclise no texto. Quando voltei de Londres, o Tarso de Castro, que era o único no Pasquim que fechou conosco, propôs que todos escrevessem saudando a minha volta. O Francis escreveu uma brincadeira pelo fato de eu ter usado a ênclise.


A ênclise foi mal empregada?


– Que nada, tá maluco? (ri). O problema era a própria ênclise. Coisa de linguagem coloquial, esse negócio de ‘jornalistice’. Pena que o Francis morreu antes de Verdade tropical (primeiro livro de Caetano, de 1997), pois ali tem muita ênclise, muita mesóclise. Passado muito tempo, quando eu entrevistei Mick Jagger, ele deu um coice em mim. Um típico coice de jornalista. Eu então meti o pé também.


Há má-fé no jornalismo?


– Essa mistura de má-fé com burrice é o maior problema do jornalismo. O sujeito pode ali agredir, fazer mal, destruir relações. O Paulo Francis demonstrou esse tipo de covardia quando esperou o Glauber morrer para começar a campanha contra o Cinema Novo. Eu falei que ele era uma bicha travada. Francis respondeu que eu devia ser uma pessoa desesperada porque usava o próprio sexo como xingamento, querendo dizer que usei a palavra bicha como xingamento. E que eu, sendo bicha e chamando-o de bicha, só podia ser uma pessoa desesperada. Depois respondi de novo e disse que o xingamento não estava na ‘bicha’, mas em ‘travada’ (ri). Coisa típica da geração dele.


Como você analisa o tratamento da imprensa à atual crise política?


– Acho que a crise é real e grande. E é natural que se passe por ela. Não pode haver desgraça e a imprensa fingir que não faz parte dessa desgraça. E ela finge. Põe uma voz de vestal acusadora contra os políticos. Mas os órgãos de imprensa não podem ser insuspeitos. Têm seus interesses, suas ligações com governos e grupos econômicos. Vou dizer: sou muito descrente. Não estou decepcionado.


Mas você votou no Lula.


– Votei no primeiro turno em Lula. Votei no Lula na última hora porque o Ciro pirou do meio para o fim da campanha e praticamente pediu para eu não votar nele. Eu votaria no Serra no segundo turno, mas estava fora do país. Mas o Brasil precisava eleger o Lula, precisava botar isso pra fora. Se não fosse a esquerda no poder dessa vez, o Brasil ficaria ingovernável. A esquerda criaria problema, diria que seria uma política econômica entreguista, de direita. O que é impossível, já que a política econômica do Lula não poderia ser mais enquadrada ao Consenso de Washington. Não me arrependo de ter votado no Lula. Não tinha esperança e não fiquei decepcionado. Só acho que não precisava ter tanta incompetência e achar que tem o direito de abusar da corrupção.


Agora você quer que ele saia?


– Agora, não. Sempre quis. Antes mesmo de ele ser empossado.’



Arnaldo Bloch


‘Profeta da utopia brasileira’, copyright O Globo, 4/11/05


‘‘Amo os Estados Unidos. Apenas não exijo do Brasil menos do que levar mais longe muito do que se deu ali’. A frase, dita por Caetano Veloso numa conferência no MAM em 1993 (e ecoada no livro ‘Verdade tropical’), parece ser a chave mestra para entrar nos corredores temporais de ‘O mundo não é chato’ (Companhia das Letras), volume que reúne artigos, ensaios, crônicas e falas do compositor e cantor em mais de 45 anos de vida artística e, por que não dizer, pública num sentido mais abrangente. Os 95 textos organizados pelo poeta Eucanaã Ferraz num cruzamento de divisão temática e cronologia em marcha a ré, apesar das diferenças de tema (música, cinema, sociedade, política, livre-pensar) e estilo (caótico e experimental nos anos 70, ensaístico e organizado nos 60 e nos 90), falam, essencialmente, do Brasil, e de uma idéia quase missionária de termos, como nação, o dever de superar o modelo dos primos ricos do Norte.


Para o leitor de ‘O mundo não é chato’ será inevitável perguntar: em que ponto estamos do traçado possível dessa profética linha evolutiva? Caetano tenta responder.


– O texto onde isto está escrito no original era falado. Não eram conclusões serenas, mas provocações. Assim mesmo acabou saindo um compacto do texto na imprensa. Sofri muito. Um sujeito de Brasília, um cientista, escreveu um e-mail esculhambando minhas ilusões e dizendo que o Brasil não tinha apresentado credenciais sequer para tentar fazer o mínimo que a gente espera dele – confessa Caetano. – Mas eu repito o que já disse uma vez a jornalistas: O Brasil vai dar certo porque eu quero.


Seria uma daquelas frases do gênero do ‘É proibido proibir’ (herdada pela Tropicália da rapaziada que pichava os muros de Paris em 1968 com a máxima surrealista), cuja lógica não resiste ou se presta à análise da razão?


– Não – refuta Caetano. – Não é uma frase como aquela. Tem mais conseqüência, é mesmo real. É parente de uma outra, dita pelo Agostinho da Silva sobre Portugal: ‘Portugal já civilizou África, América e Ásia. Falta civilizar a Europa.’ Acho isso sensacional ( risos): em pleno século XX, Portugal por baixo, antes de ser admitido generosamente na União Européia, essa petulância, essa ambição não autorizada…


Não autorizada em termos, ressalva o brasileiro que viveu o exílio por força da arte, citando a credencial de ter travado ‘casualmente uma experiência profunda com o movimento histórico real do país’.


– Acho que o próprio fato de eu ter a petulância de querer assim é um sintoma de que não é 100% desautorizada a ambição. Não que seja um destino inelutável. Mas é uma responsabilidade de um país desse tamanho, no Hemisfério Sul, na América, miscigenado e falando português. São condições especiais adversas para que não tenhamos uma obrigação de originalidade. Está na cara de quem abrir os olhos. Querendo, podemos superar o século americano, passar à frente historicamente o que os Estados Unidos puderam fazer com o mundo. Deixa de ser utopia. São fatores reais que nos convidam ao dever. Quando digo eu, quero dizer ‘nós queremos’ aos que pensam assim.


Desencanto com tendência ‘favelizante’ da revolução ‘rapper’


O profeta, que vê e reafirma esta missão grandiosa, revolucionária, coleciona, em suas análises sobre a canção brasileira, a certeza de várias revoluções já feitas: a obra de João Gilberto; as rupturas e as leituras que se seguiram, entre as quais a Tropicália; o fenômeno dos filhos de Gandhi; o BRock; e, a partir dos anos 80/90, o binômio rap/hip hop assumindo uma voz brasileira que ele, Caetano, abraçou no nascedouro com as canções ‘Língua’ e ‘Haiti’.


Hoje, quando Chico Buarque admite com serenidade que a canção pode estar no sumidouro, Caetano parece viver uma fase de desencanto com o universo rapper :


– O modo como o Chico abordou a questão é tão bonito que fico com problemas para falar disso. Quando abordei o samba-rap em ‘Língua’, o MV Bill e o Mano Brown eram garotinhos. Semana passada almocei com o Bill. Tive uma experiência com os Racionais, cujo álbum ‘Sobrevivendo no inferno’ é um dos maiores da História no Brasil, junto a ‘Chega de Saudade’ e ‘Pelo Telefone’ – ressalta.


Então, qual o problema?


– É que estou começando a ficar um pouco… dissonante do rap. Por razões inclusive de foro íntimo. Sou de Santo Amaro e de Guadalupe aqui do Rio, onde vivi dos13 aos 14 anos. Quando vou lá, noto que cresceu um tom favelizante , do ponto de vista urbanístico e da cultura popular, compartilhado pelos habitantes, e uma certa tendência de culto aos heróis traficantes. Mesmo quando há uma queixa. Entendo que seja assim, mas ao ver isso crescer na moçada preciso reagir contra aspectos dessa cultura. É o meu movimento interno político.’


Caetano diz que parte do rap está a serviço de hegemonia afro-americana


No arcabouço dialético de sua metamorfose ambulante, Caetano, ao mesmo tempo que se preocupa com a referida ‘tendência favelizante’ do rap, mostra-se reservado quanto à discussão referente à remoção das favelas, evasivo quanto ao mérito:


– Sou contra a campanha do GLOBO para desqualificar e desvalorizar o programa Favela-Bairro.


E, na trilha do discurso crítico ao rap, ele aposta fichas novas na canção.


– O rap destacou as palavras da melodia para poder ter mais conteúdo. Mas as palavras de uma canção eu entendo facilmente. As palavras do rap para mim são abstrações, são ruído em sua esmagadora maioria. Tem umas que me arrebentam o coração de emoção, mas em geral é muita coisa dita. Mas há uma outra questão que se afigura ainda mais grave para mim.


Caetano resume tal questão grave numa pergunta:


– Se você está lutando contra a opressão, em qual dos casos você é mais oprimido: se for um negro diante de quem não é, ou se for um latino diante de um norte-americano?


Bate-boca com a imigração no aeroporto de Cancún


A resposta vem no relato de dois episódios: um no aeroporto de Cancún, seguindo para a Cidade do México.


– O cara da imigração me agrediu dizendo que eu estava querendo entrar nos EUA ilegalmente. Eu disse: ‘Cara, eu estou indo para a Cidade do México cantar’, e ele, em espanhol, respondeu: ‘Você não vai me enganar!’, eu elevei a voz, ‘Bicho, eu sou brasileiro, você é mexicano e está aí tomando conta do país dos outros? Vá à merda!’


O outro episódio aconteceu na própria Cidade do México, quando Caetano e banda vinham da Califórnia pouco depois do 11 de Setembro.


– A gente estava numas lojas com o pessoal da banda, e conosco os quatro percussionistas pretos do Timbalada que me acompanhavam na turnê . Eles tinham comprado em Los Angeles aqueles tênis e bonés e andavam assim com o aparato rapper . Pois bem, os vendedores mexicanos, que não davam a mínima para nós, latinos, tratavam os nossos pretos com bajulação porque pareciam pretos americanos.


No episódio Caetano parece enxergar, profeticamente (?), o rap a serviço de uma certa hegemonia afro-americana:


– Essa coisa de African-American é um horror. Porque African não quer dizer que a pessoa seja preta, e American acaba simbolizando muito mais do que ser preto em matéria de força, poder. O pessoal preto compra todo o repertório de reivindicações dos pretos americanos e termina de vez em quando agredindo coisas que o Brasil mestiço atingiu, conseguiu, realizou.


Quase sem ambições à intelectualidade


De intuição em intuição, político (embora não institucionalmente), intelectual e teórico (embora não sistematicamente), o profeta da utopia brasileira diz-se satisfeito em tangenciar o pensamento, numa obra que, com todas suas contradições, aparece em plena complexidade no livro que chega às lojas.


– Há uma tradição brasileira de verdadeiros pensadores que se deram ao trabalho de se preparar. Espero que minhas intervenções desorganizadas, que são apenas efeito colateral da minha atitude de artista, contribuam para que os que pensam de verdade, ainda que discordando de mim, construam o pensamento estruturado sobre o Brasil.’


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