Quarta-feira, 23 de Setembro de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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ENTRE ASPAS >

Moacir Japiassu

01/11/2005 na edição 353

‘O considerado Ageu Vieira empreendia doce vilegiatura pelo portal Terra quando tropeçou nesta jóia, escondidinha sob o título Terremoto no Paquistão deixa mais de 1 milhão de desempregados:

Mais de um milhão de pessoas ficaram sem emprego por causa do terremoto que devastou partes do norte do Paquistão neste mês, disse a Organização Internacional do Trabalho (OIT) na segunda-feira.

Programas de criação de empregos devem fazer parte dos esforços de recuperação após o desastre, no qual 40.000 pessoas temem ter morrido.

Ageu quedou-se perplexo:

Sabe o que mais me impressionou? Foi a forma miraculosa encontrada pelo redator para constatar o ‘temor dos mortos’… Já pensou? O sujeito sentado sobre os escombros, dando uma explicação sem precedentes:

– Olha, seu moço, perder o emprego até que não foi nada. O pior é que eu acho que morri…

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Semancol

Em duvidoso artigo intitulado Não faça do jornalismo uma arma, publicado em julho no Observatório da Imprensa, mas exumado agora sabe Deus por quê, o considerado Fausto Macedo, que o colunista conheceu menino ainda, foquinha da editoria de polícia do Jornal da Tarde, mandou ver:

(…) Sim, a última palavra sempre será dos que combatem nesta trincheira que a única frase feliz do senador Sarney definiu como a ‘vanguarda do atraso’…

Aqui no Comunique-se, em recente comentário sob a coluna, Fausto imaginou que este veterano apoiava e dava publicidade ao artigo de um médico-torturador dos tempos do DOI-CODI. Referia-se, na verdade, a Reinaldo Lobo, irmão de Leão Lobo e nosso companheiro do JT…

Nesse Não faça do jornalismo… o amigo atribui a Sarney a frase que mais o aborreceu na vida e que pertence à inspirada lavra de Fernando Lyra. ‘Sarney é a vanguarda do atraso’, proclamou o ex-deputado e ex-ministro da Justiça, que perde um amigo, mas não perde a piada.

Todavia, o próprio Fausto mostra o caminho para a remissão, pois escreveu ao final do artigo no Observatório:

O remédio é simples: um pouco de semancol e maior rigor com as palavras.

(Leia no Blogstraquis a íntegra do artigo de Fausto José de Macedo)

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Serventia

Janistraquis não concorda com alguns observadores segundo os quais o referendo não serviu para nada:

‘Serviu sim, considerado; agora a gente sabe quem merece confiança, quem tem alguma coisa na cabeça e, principalmente, quem não pode falar em nome do povo!

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Kamikazes

O considerado Roldão Simas Filho, diretor de nossa sucursal em Brasília, de cujo banheiro, em subindo-se no vaso, foi possível ver o ministro Marcio Thomaz Bastos a chorar no ombro do presidente Lula, pois Roldão, que já perdeu a paciência com a História Viva, escreveu a seguinte carta à diretora da revista:

Prezada senhora:

Continua o problema das traduções dos artigos estrangeiros. No artigo sobre os Kamikazes encontrei na página 72 do nº de outubro de sua revista:

‘Suicídio nacional – De madrugada, depois da costumeira instrução, eles (os kamikazes) estavam todos lá, em posição de vôo, com o sabre de samurai ao lado, e na cabeça o cachecol branco, batido pelo sol nascente daqueles que iam morrer.’

Ora, os samurais tinham espadas. E os kamikazes usavam, como se vê na foto da página anterior, uma faixa de honra em volta da cabeça e não um cachecol, que, como sabemos, usa-se em redor do pescoço.

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Sérgio Augusto

Entre uma garfada e outra, diante do menu que o considerado Sérgio Augusto nos oferece, pesca-se esta frase do célebre gastrônomo A. J. Liebling in Fome de Paris – Memórias de um Gourmet Apaixonado, livro de 1962 e cuja edição brasileira acaba de ser lançada pela Ediouro:

A liberdade de imprensa é uma exclusividade do dono da rotativa.

‘Não é a melhor tradução para Freedom of the press belongs to the man who owns one’, adverte o mestre Sérgio Augusto, ‘mas passa a idéia do que ele quis dizer: quem manda, mesmo, numa redação é o dono do jornal ou da revista. Além de emérito gastrônomo, Liebling foi o mais formidável crítico de imprensa que já existiu (…)

Leia no Blogstraquis a íntegra deste mais-que-saboroso artigo, originalmente publicado no Caderno 2 do Estadão.

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Arrogância

A pedidos, transcreve-se abaixo o comentário postado pelo colunista em 24/10/05, ao pé da coluna intitulada Entrevista é autêntica!!!:

O que mais espanta nos ‘democratas’ do ‘sim’ é a arrogância, como se viu e ainda se vê, apesar da humilhante derrota. Estão realmente convencidos de que representam a elite pensante deste país e, quando alguém reage a tal e descabida jactância, lembram, à guisa de forte argumentação, que Jair Bolsonaro, ícone da extrema direita, é nosso ‘colega’. Trata-se de pura chantagem, desonestidade típica de petistas.

Ora, os torcedores do Vasco (para utilizar metáfora lulista) temos como correligionário o Eurico Miranda e nem por isso passamos a torcer pelo Flamengo; e os do Grêmio já tiveram a seu lado, radinho de pilha no ouvido, um célebre torcedor chamado Emílio Garrastazu Médici. O Inter de Porto Alegre não conquistou nenhum vira-casaca indignado com a incômoda presença do ditador. Vão-se os torcedores, permanecem os clubes e o Brasil certamente não amargará a Segundona depois deste referendo.

Quem não acredita, não entende de futebol…

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Que coisa!!!

A considerada Eliane Cantanhêde, colunista de política que vive e trabalha nessa ilha da fantasia que é Brasília, reagiu assim ao resultado do referendo, em artigo na Folha de S. Paulo:

Embalada pela estrondosa derrota do bem pelo mal, quer dizer, do ‘sim’ contra o ‘não’, a bancada da arma está cheia de planos. (…) Vêm aí as batalhas pela redução da idade penal, pela prisão perpétua, pela pena de morte e, por que não?, até pela bomba atômica. Se é para preservar o direito de as pessoas comprarem armas à vontade, em nome da ilusão de ‘autodefesa’, é obrigatório preservar o direito de os países terem suas próprias bombas atômicas contra ameaças externas.

O texto integral da obra-prima está no Blogstraquis.

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Crime hediondo

Já está velhinha, mas é sempre importante não esquecer a notícia que saiu em todos os jornais:

BANDIDOS PEGAM ARMAS DOADAS À CAMPANHA DO DESARMAMENTO

Oitenta e três armas entregues à Campanha do Desarmamento e encaminhadas à Polícia Federal no Estado de São Paulo foram desviadas e escaparam da destruição.

Nos últimos meses, pelo menos 11 delas foram apreendidas por policiais militares do 6º Batalhão do Interior (Santos) nas mãos de menores,assaltantes e traficantes.

As armas desviadas são revólveres e pistolas entregues no período de julho de 2004 a maio de 2005.

A Polícia Federal instaurou inquérito para apurar os desvios de armas. Todo o material recolhido deveria ser enviado ao Exército para destruição no prazo de 48 horas.

E foi também noticiado que muitos dos pobres de espírito que fizeram doações de armas até hoje não receberam o dinheirinho prometido. Janistraquis riu a bandeiras do PT despregadas:

‘Pois é, considerado, Cabral descobriu isto aqui há 505 anos e até agora a maioria das pessoas não se tocou de que este é um país de m…’

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Nota dez

Merece todos os louvores a ironia do considerado Carlos Heitor Cony em sua coluna da Folha de S. Paulo, cujo título, Solução radical (26/10/05), deixou o mulherio certamente de cabelo em pé…

Vamos e venhamos, foi uma temporada divertida, essa que passou, das opiniões sobre o referendo do último domingo. Besteiras de um lado e de outro foram proclamadas, mas nenhuma delas se equiparou a das feministas que aproveitaram a onda para tirar as casquinhas de sempre.

Como reduzem qualquer problema ao machismo, vieram com um espantoso argumento, o qual, honestamente, eu não chegara a levar em consideração. O homem, qualquer homem, já vem armado pela natureza.(…)

Leia a íntegra no Blogstraquis.’



LÍNGUA PORTUGUESA
Deonísio da Silva

‘A lição das derrotas’, copyright Jornal do Brasil, 31/10/05

‘A derrota é uma vacina de humildade; quando o sujeito ganha muito, começa, sem querer, a chamar Deus de colega, mas a derrota ensina muito mais do que a vitória. Quem disse isso foi o novo morador de um condomínio de Canela (RS), pai de trigêmeos, recomeçando a vida sem a política. Era Antônio Britto falando à jornalista Tatiana Csordas.

Jornalista também, ele já era muito conhecido do público por seu trabalho como repórter na RBS e na TV Globo, quando o presidente Tancredo Neves convidou-o a ser seu porta-voz. E veio a derrota coletiva, imposta pelo destino, anunciada em doses cavalares. Com olheiras que denunciavam o sono perdido, o porta-voz entrava nos telejornais matinais para informar ao distinto público que prosseguia o calvário doloroso do enfermo, submetido a intervenções cirúrgicas sucessivas.

De porta-voz do presidente que não assumiu, Antônio Britto tornou-se ministro da Previdência do vice que assumiu. Foi depois governador do Rio Grande do Sul. Tentando a reeleição, perdeu para Olívio Dutra e, quatro anos depois, para Germano Rigotto, o governador atual.

Pois a derrota tem expressões muito curiosas na língua portuguesa, entre as quais ‘perder a cabeça’, ‘perder as estribeiras’, ‘perder o juízo’, ‘perder a tramontana’, ‘perder o fio’, ‘perder o dia’ e ‘perder o tempo e o latim’.

Cada uma dessas expressões tem o seu berço, a sua história, os caminhos que fez até consolidar-se na língua portuguesa. Outras línguas têm expressões equivalentes. Como observa Raimundo Magalhães Júnior, Carlos de Laet censurou em romance de Camilo Castelo Branco a presença da frase ‘perder a cabeça’, acusando-o de galicismo. Afinal o francês tem ‘perdre la tête’. E poderia ser anglicismo, pois os ingleses têm ‘lost the head’. Camilo argumentou que dizíamos ‘perder o juízo, o tino, a razão’. Literalmente, ninguém perde a cabeça, pois o juízo, o tino e a razão, quando perdidos, ficam dentro da cabeça e o sujeito a mantém sobre os ombros. Afinal, perder a cabeça não é o mesmo que ser decapitado.

O galicismo é um vício de estilo. Consiste em afrancesar vocábulos ou expressões sem necessidade.

‘Perder as estribeiras’ é variante de ‘perder os estribos’. O cavaleiro que perde estribeiras ou estribos, não tem onde se firmar, dependendo apenas das rédeas nas mãos e dos joelhos que aperta na sela. Está perdido porque o cavalo poderá derrubá-lo facilmente.

‘Perder a tramontana’ é perder o rumo. Tramontana é o outro nome da estrela polar, que orienta viajantes e marinheiros. ‘Perder o tempo e o latim’ alude a sapateiro romano que treinou um corvo para saudar vitórias de Augusto. O imperador já comprara um papagaio e uma pega que lhe elogiavam os feitos. Como o corvo não aprendesse a falar, o homem lamentou que perdera o tempo e o latim. O corvo repetiu esta última frase e o imperador pagou mais por ele do que pelas outras aves. Quer dizer, o sapateiro não perdeu o tempo e o latim!

‘Perder o dia’ vem de exclamação do imperador Tito ao fim do dia em que não fizera uma boa ação.

A derrota pode ser uma boa professora. A vitória raramente o é.’



Orivaldo Perin

‘O ‘mensalão’, na língua portuguesa, veio para ficar’, copyright O Globo, 31/10/05

‘Nem bem acabou de lançar a sétima, o professor João Bosco Serra e Gurgel já trabalha na oitava edição de seu ‘Dicionário de gíria’, para incorporar à obra – considerada a maior da língua portuguesa no gênero – as novidades produzidas pela crise política. Na boca do povo há quatro ou cinco meses, palavras como ‘mensalão’, ‘mensalinho’ e ‘valerioduto’ já fazem parte do vocabulário dos brasileiros.

A gíria, diz ele, traduz um momento, um período da História. ‘Mensalão’ tem tudo para se perenizar como mais um sinônimo para corrupção na História política do país.

– A gíria é um recurso de linguagem democrático que, usado e compreendido por analfabetos e alfabetizados, vem mudando a língua portuguesa de forma persistente – diz Serra.

Qualquer brasileiro hoje, quando lê ou ouve a palavra ‘mensalão’, pensa na crise política que acompanha pela TV, pelo rádio e pelos jornais.

– A gíria é um componente da língua e tem a ver com a época em que surge – explica Serra. – Há gírias que nascem, desempenham seu ciclo de vida e depois desaparecem. Mas há muitas que passam da linguagem coloquial para a padrão.

Serra começou a trabalhar com gíria há 20 anos, quando lançou, então com seis mil verbetes, a primeira edição de seu dicionário. A edição que está nas livrarias tem 28.500 verbetes (722 páginas) e atesta que ‘Caixa 2’ é mesmo uma expressão corriqueira no país, como pregam os cardeais do PT e o próprio presidente Lula. Está lá, na página 212: Caixa 2: ‘corrupção’; ‘dinheiro pago ou recebido sem recibo’.

O substantivo corrupção, segundo Serra, tem pelo menos outras 37 traduções em forma de gíria. ‘Maracutaia’, por exemplo, era o sinônimo de corrupção preferido do presidente Lula, antes da eleição.

O ‘Dicionário de gíria’ não é e nem pretende ser definitivo, segundo seu autor. Desde a sexta edição, publicada em 2000, a obra incorporou 11 mil novos verbetes.

– Eu diria que o modismo gírio está cada vez mais presente no nosso dia-a-dia.

Serra foi professor de propaganda e relações públicas da UnB e hoje dedica-se exclusivamente à sua obra. Em capítulo especial, o volume conta a evolução da gíria na língua portuguesa. Os primeiros registros foram feitos pelo padre português Raphael Bluteau, no ‘Vocabulário português e latino’ (1712). No Brasil, a gíria começou a ganhar espaço no século XVIII, quando apareceu em livros como ‘Memórias de um sargento de milícias’. O ‘Dicionário de gíria’ custa R$ 40 nas livrarias. Pode ser comprado também diretamente com o autor, pelo e-mail gurgel@cruiser.com.br.’

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