Sábado, 08 de Agosto de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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O didatismo embota a imaginação

Por Fernando Soares Campos em 12/12/2006 na edição 315

Páginas da vida, a atual telenovela do horário das oito na Rede Globo de Televisão, tem alcançado altos índices de audiência. Numa página da Wikipédia, a enciclopédia livre online, informa-se que, em média, o programa atinge 48 pontos de audiência – o que, em se confirmando a informação, corresponderia ao mais elevado índice de audiência do horário nos últimos 10 anos.

O flolhetinista Manoel Carlos, autor de Páginas da vida, sempre se utilizou de suas peças para instruir o telespectador, supostamente ministrando lições de ética e comportamento, sob os mais variados aspectos do cotidiano. Desta vez, porém, o noveleiro extrapolou, pois seu didatismo transformou a telenovela em uma espécie de seriado mais adequado à programação de uma emissora educativa, do tipo Canal Futura, TVE, Universitária, Cultura ou mesmo programas do gênero Pequenas Empresas & Grandes Negócios, Globo Ecologia, Globo Comunidade, Globo Educação

 O pragmatismo do autor transformou a telenovela numa daquelas seqüências ilustrativas dos telecursos. As falas dos personagens, ou as narrativas, transmitem mensagens em forma de lições, e cada capítulo seria uma ‘aula’. Em determinados momentos dá para identificar uma espécie de merchandising, que teria o propósito de promover certas categorias profissionais, ou especialidades – como, por exemplo, psicólogos, pedagogos, médicos, assistentes sociais. Até mesmo os profissionais menos qualificados, como as camareiras, garçons, motoristas e empregados domésticos em geral, são interpretados sob os ares de uma performance pedagógica.

Em Páginas da vida os esforços didáticos de Manoel Carlos ofuscam os possíveis aspectos artísticos da obra; a arte do entretenimento é preterida e, em seu lugar, aparece uma técnica educacional supletiva com o propósito de instruir a ‘massa ignara’. As tramas da história foram colocadas em plano secundário, a imaginação foi substituída pela simples informação.

Benefícios reais

Numa entrevista à Folha de S.Paulo, Manoel Carlos afirma:

‘Procuro fazer uma ficção não delirante. Nunca gostei, por exemplo, de ler ficção científica e realismo mágico, como nunca me entreguei, nem quando criança, às histórias em quadrinhos. O que me ocupou sempre foi uma ficção realista ou próxima disso. Escolho um grupo de pessoas e começo a escrever sobre como elas vivem, o que sonham, o que conseguem. Faço ficção, mas tenho compromisso com o verossímil’.

A ficção de Manoel Carlos não chega a ser nem mesmo empolgante, que dirá ‘delirante’. A suposta realidade a que ele se refere nada mais é do que a falta de imaginação criativa, a total ausência de fantasia. Ou, pior, uma fantasia realista, caso em que o autor nega ao telespectador a possibilidade de imaginar, de criar as expectativas.

Os índices de audiência da telenovela Páginas da vida até podem ser altos, conforme aquela informação obtida na Wikipédia, porém isso se deve à falta de melhores opções do gênero; entretanto duvido que o programa desperte discussões a respeito do destino de personagens ou sobre o desfecho dos enredos.

As tramas da telenovela em questão se tornaram histórias independentes, como uma série de contos sem relação entre si. É como se alguns personagens de uma história participassem como coadjuvantes de outros enredos, mas sem qualquer compromisso com os dramas vividos pelos personagens daquelas histórias paralelas. O que se poderia chamar de trama central, ou principal, de Páginas da vida pode vir a ser aquela que o telespectador mais gostar, ficando a cargo da sua apreciação ou identificação com os fatos narrados. É como escolher a melhor história num livro de contos (neste caso, escolher a menos pior).

Se a telenovela no Brasil (evidentemente com destaque para o complexo de produção global) sempre foi acusada de ser um instrumento de alienação das massas, vendendo fantasias inverossímeis, Manoel Carlos resolveu vender a realidade morta, a triste ficção verossímil.

Naquela entrevista à Folha, o autor fala em ‘merchandising do social’. Ele afirma: ‘Sinto-me gratificado quando consigo colaborar, como no caso das doações de medula óssea, em `Laços de família´’. Isso quer dizer que as sinopses das tramas das novelas de Manoel Carlos dariam bons argumentos para publicidades de utilidade pública, aquelas que têm como objetivo fundamental informar, orientar, avisar, prevenir ou alertar a população ou segmento da população para adotar comportamentos que lhe tragam benefícios sociais reais, visando melhorar a sua qualidade de vida. Entretanto o que a gente precisa mesmo é de imaginação, de fantasia. A gente quer ser co-autor das obras, imaginando atitudes dos personagens e desfechos das tramas.

Sem didatismos

Gostaria mesmo era de ver as pessoas querendo estapear Regina Duarte nos aeroportos, porque ‘Helena’ se tornou uma biriteira inveterada e passou a maltratar a criança que adotou, uma menina portadora da síndrome de Down. Ou o avô do seu irmão gêmeo pegar a criança e tentar o suicídio atirando-se de um precipício com a criança nos braços, porque não quer entregá-la ao pai biológico (na hora ‘H’, o menino escapa das mãos do coroa, e este despenca montanha abaixo soltando um berro aterrorizante).

E o Tarcísio Meira?! Ora, faz aquele caretão se apaixonar por uma das filhas gostosas e deixa o pau quebrar quando o genro descobrir que ele não passa de um hipócrita! Mas sem didatismos, sem explicar os comportamentos, isso fica por conta da nossa imaginação.

Gilberto Braga fez o Brasil parar e perguntar: ‘Quem matou Odete Roitman?’. Porém, se a novela Vale tudo tivesse sido escrita por Manoel Carlos, provavelmente a pergunta seria: ‘Por que mataram Odete Roitman?’ Ou pior: ‘A morte de Odete Roitman é fruto do recrudescimento da violência no Brasil?’.

Haja verossimilhança!

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Escritor, Rio de Janeiro

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